domingo, dezembro 27, 2009

#139 - Deixa ela entrar (Låt den rätte komma in), de Tomas Alfredson


Filmes sobre vampiros estão na moda. A maioria, voltada para o público adolescente. E, quase sempre, falam sobre relações de amor que não podem se concretizar - já que um dos envolvidos é imortal e se alimenta de sangue humano. O sueco Deixa ela entrar é quase assim. Quase. Também fala de um relacionamento improvável, só que vai mais além. Mostra o despertar do desejo entre dois pré-adolescentes fadados à solidão.

Oskar é um garoto que sofre com a violência dos colegas e se vê incapaz de reagir. Até que uma misteriosa menina, Eli, aparentando a mesma idade, se muda para o apartamento ao lado. A amizade entre os dois se fortalece à medida em que um compreende o drama do outro: ele precisa se livrar das constantes ameaças dos colegas; ela precisa arrumar sangue.

Outro ponto que diferencia Deixa ela entrar das demais produções do gênero é o capricho estético. O filme é bem fotografado e bem montado. Além disso, tem um roteiro muito bem amarrado, que vai deixando a trama se desenvolver sem sobressaltos. Vai muito além do mero terror, pois é denso e sensível. Na medida certa.

Tudo isso sem mostrar um canino pontudo sequer. Muito bom!

quinta-feira, dezembro 24, 2009

#138 - Eu te amo, cara (I love you, man), de John Hamburg


Depois de receber um passe redondo de Romário e marcar um importante gol na Copa do Mundo dos EUA, justamente sobre os donos da casa, Bebeto correu até o companheiro de seleção para agradecer. Através da leitura labial, foi possível perceber que ele disse um sonoro “eu te amo”. Muito marmanjo, ao ver aquilo, concluiu logo:

“Ih, olha lá, o Bebeto é viado!”

Guardadas as devidas proporções - como o nível de sinceridade da frase -, é mais ou menos sobre isso que o roteiro de Eu te amo, cara fala. Não sobre o jogo da seleção brasileira, mas sobre a dificuldade masculina em expressar amizade e afinidade sem confundi-las com conotações ou intenções homossexuais. Por isso, o protagonista Peter Klaven (o ótimo Paul Rudd), que sempre se deu bem com mulheres, pena para encontrar um padrinho para o casamento – já que não tem grandes amigos do mesmo sexo.

Trata-se de uma comédia bem bacana sobre amizade, que sabe explorar o tema sem usar de melodrama fácil ou clichês baratos. Os personagens são bem desenvolvidos, os diálogos são bons e e a história é bem amarrada. De quebra, uma participação bem interessante de Lou Ferrigno, o eterno Hulk.

Muito bacana! Eu amo meus amigos.

#137 - Coraline, de Henry Selick


Na época, eu perdi a cabine de imprensa de Coraline, mas acabei levando para casa o press kit, que continha um exemplar do livro do Neil Gaiman. Resolvi, então, que a tal brochura seria minha leitura de banheiro. Portanto, a cada evacuada, um capítulo.

Como meu intestino funciona muito bem, levei exatos 13 dias para dar cabo da história de uma menina que descobre uma porta que a leva para uma dimensão paralela, onde tudo é muito melhor – incluindo os pais. Aos poucos, ela vai descobrindo que a mãe do outro lado tem intenções não muito amistosas.

O filme tem algumas diferenças do livro, que até ajudam a tornar a história menos assustadora e mais comercial, apesar de já ter ouvido relatos de pais nada satisfeitos ao término da projeção. A animação é bacana e tem lá seu charme. A trama também é bem bolada, e traz uma mensagem, ainda que torta, sobre a importância de valorizar a família.

No entanto, recomendo Coraline apenas para as crianças que já têm algum contato com o realismo fantástico.

#136 - A vida íntima de Pippa Lee (The private lives of Pippa Lee), de Rebecca Miller


A vida secreta de Pippa Lee tem um dos argumentos mais absurdos da temporada. É um filme chato, arrastado e inverossímil, que talvez agrade um pequeno grupo de mulheres à procura de diversão barata. Lá no fundo, é uma fábula sobre a inviabilidade contemporânea de sustentação do modelo familiar estadunidense perfeito, apregoado desde o fim da II Guerra Mundial. O roteiro, adaptado de um romance escrito pela própria diretora, Rebecca Miller (filha do escritor Arthur Miller), contextualiza a vida no subúrbio e os dramas que se escondem entre as quatro paredes das casas sem muros e de jardins impecáveis.

A protagonista, que dá nome ao filme, é quem vai nortear a história, repleta de culpa, através de flashbacks sobre sua condição de mulher perante a sociedade. Dona de casa aparentemente perfeita, Pippa Lee é casada com um homem bem mais velho, tem uma filha com quem não consegue se relacionar direito e esconde um passado tempestuoso que inclui uma mãe exótica. Ao se mudar para o subúrbio em busca de paz e tranquilidade, estranhos acontecimentos (nem tão estranhos assim) começam a fazer com que ela tema por sua sanidade mental. As lembranças da infância e da juventude traçam, aos olhos do espectador, sua trajetória até o protótipo de esposa ideal.

O roteiro nem chega a se aprofundar nos temas mais complexos, mantendo um certo tom de provincianismo justamente quando o argumento poderia ser tratado com mais consistência. Outro problema são os personagens, mal desenvolvidos. Nem mesmo aqueles tipos estranhos, socialmente desajustados, comuns a todos os filmes do gênero, são capazes de criar certa dose de empatia.

Bem que o filme engana. Prova disso são os nomes de celebridades que aparecem aos montes no cartaz do filme, ainda que tenham participações discretas ou papéis de menor relevância. Keanu Reeves, Winona Ryder e a estonteante Monica Bellucci – o que de melhor há no filme, sem dúvida nenhuma – fazem parte da lista. Brad Pitt, cujo nome fica no topo, escrito em letras graúdas, apenas assina a produção executiva.

Particularmente, já me cansei há tempos de filmes assim. A vida secreta de Pippa Lee vai do nada a lugar nenhum. Ou melhor: do nada ao lugar comum.

sexta-feira, dezembro 18, 2009

#135 - Quanto dura o amor?, de Roberto Moreira


Hoje entra em cartaz o filme Quanto dura o amor, do diretor Roberto Moreira. Confesso que tive bastante dificuldade em cotá-lo para a Revista Programa, do Jornal do Brasil. O roteiro é fraco, mas as atuações das duas protagonistas são soberbas! Se houvesse um "regular e meio", seria essa a cotação. Pelo capricho visual e pelas interpretações de Sílvia Lourenço e Maria Clara Spinelli, a produção levou um "bom". Segue o que escrevi sobre o dito cujo.

O segundo filme do diretor Roberto Moreira é sensível como a canção do Radiohead que permeia toda a projeção, a tristonha “High and dry”. O roteiro fala sobre três histórias de amor que enfrentam os paradigmas da contemporaneidade. Funcionando também como uma personagem, a cidade de São Paulo serve de cenário para o desvelamento da questão que o título levanta: quanto dura o amor? Quem conduz a argumentação são três jovens protagonistas, de vidas completamente distintas, mas que habitam o mesmo prédio, em plena Avenida Paulista: Suzana, uma advogada reservada; Marina, uma atriz recém-chegada do interior; e Jay, um escritor que tem como musa uma prostituta.

Indiscutivelmente, Quanto dura o amor? tem um visual bastante caprichado. Os dramas das personagens se encaixam perfeitamente na estética que o caos da urbanização impõe. Porém, já na metade do filme, o roteiro começa a perder o ritmo, tornando as histórias desinteressantes. Nem mesmo o desfecho, com algumas surpresas, surpreende.

Apesar da boa participação da ex-fazendeira Danni Carlos (em cenas bastante ousadas) e da visibilidade que o nome de Paulo Vilhena oferece, quem brilha mesmo são as atrizes Silvia Lourenço e Maria Clara Spinelli, nos papéis de Marina e Suzana, respectivamente.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

#134 - Foxy Brown, de Jack Hill


Depois do sucesso de Coffy nas telonas, Jack Hill voltou a filmar com Pam Grier o que deveria ser uma sequência. Inclusive, Foxy Brown, de 1974, se chamaria Burn, Coffy! Burn! Porém, de última hora, os produtores resolveram mudar a estratégia de lançamento. O filme se tornou, então, uma produção independente. E muito bacana, apesar da repetição do tema.

Novamente, Pam Grier interpreta uma sexy vingadora que tenta por fim a um esquema inescrupuloso que envolve prostitutas, drogas e corrupção. Depois que seu namorado, um agente secreto da polícia, é assassinado, ela se infiltra numa perigosa quadrilha. Começa, então, um banho de sangue.

Modelitos sensuais, trilha sonora repleta do melhor da black music da década de 70 e muita violência fazem de Foxy Brown um genuíno exemplar do blaxploitation, movimento que levou a cultura black para as telas do cinema. Pam Grier arrasa quarteirões inteiros, infestados de cafetões, traficantes e gente mal-intencionada.

Clássico!

sexta-feira, dezembro 11, 2009

#133 - Um namorado para minha esposa (Un nobio para mi mujer), de Juan Taratuto


Casais, comemorem! Mais uma comédia romântica inteligente, que foge do convencional, estreia hoje no circuitão. Nossos hermanos platinos apresentam Um namorado para minha esposa - que apesar do título pastiche (igualmente patético em espanhol) é uma grata surpresa. Despretensiosamente divertido. Confira a crítica que escrevi para o Jornal do Brasil.

Seguindo quase à risca a cartilha das comédias românticas, o filme argentino Um namorado para minha esposa é entretenimento dos mais simples, mas com um frescor que as produções hollywoodianas do gênero parecem ter abandonado. O roteiro é simples: homem cansado da vida de casado e incapaz de pedir o divórcio contrata os serviços de um profissional para seduzir a esposa.

Apesar de estar na cara do espectador o que vai acontecer durante a projeção, o filme engrena já nos primeiros minutos. Ainda que previsível, a trama se sustenta pela forma como os personagens, bastante interessantes, lidam com a situação. Não há mocinho, mocinha e nem bandido. O texto apresenta os argumentos da vida a dois sem maniqueísmos, reviravoltas mirabolantes ou lições de vida. Os créditos finais reservam uma sequência imperdível.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

#132 - Crips and Bloods: Made in America, de Stacy Peralta


É impressionante como Stacy Peralta, o cara que ditou tendências do skate, vai consolidando aos poucos seu nome como um dos grandes documentaristas da cultura contemporânea. Seus trabalhos anteriores, os fantásticos Dogtown and Z-Boys e Riding Giants, já mostravam uma visão mais apurada, além do mero fato documentado. Em Crips and Bloods: Made in America, o cineasta sai do gênero esportivo e entrega, simplesmente, um dos melhores documentários do ano.

O filme já começa com uma tomada espetacular de Los Angeles de cabeça para baixo. O argumento fala sobre a sangrenta batalha nas ruas do subúrbio da cidade, uma das mais ricas dos EUA. Duas gangues disputam áreas de influência: os Crips, que usam roupas de tonalidade azul; e os Bloods, que tem o vermelho como cor padrão. O assunto, inclusive, rendeu o ótimo Colors: as cores da violência, filme com Sean Penn e Robert Duvall. Peralta vai no centro da questão, procurando as motivações históticas, políticas e sociais que desencadearam os conflitos. Da segregação racial ao desemprego, da industrialização à urbanização.

O material de pesquisa é farto e rico. A maneira como as fotografias são editadas, ganhando até mesmo profundidade e movimento, impressionam. Entevistas frente a frente com membros das gangues deixam expostas as cicatrizes de um páis que apregoa a liberdade, mas que nem sempre a pratica plenamente. Imagens de arquivo fortes e chocantes (como tiroteios e assassinatos) são mostradas a toda hora, mas sempre de forma a complementar o argumento.

Crips and Bloods: Made in America tem uma montagem realmente genial. É o trabalho mais bem acabado de Stacy Peralta - que vai se mostrando um documentarista de mão cheia!

sexta-feira, dezembro 04, 2009

#131 - Abraços partidos (Los abrazos rotos), de Pedro Almodóvar


Esta não é uma sexta-feira qualquer. É simplesmente o dia em que estreia no circuitão um dos filmes mais aguardados do ano: Abraços partidos, do Almodóvar. Trata-se de uma produção sobre o ofício de se fazer filmes. É como o próprio protagonista diz, em uma frase emblemática: "é preciso terminar os filmes, ainda que no escuro". Eu fiz a resenha para a Revista Programa, do Jornal do Brasil. Para aqueles que não podem comprar uma cópia, ou seja, para quem não é carioca, segue abaixo o que eu escrevi por lá.

Os filmes de Pedro Almodóvar sempre causaram impacto pela sensibilidade com a qual a excentricidade e o melodrama foram tratados. Abraços Partidos, nova película do realizador espanhol, é uma produção diferenciada, que transforma o exagero estético que o consagrou em um artifício para falar sobre o próprio ofício de contar histórias. No caso, boas histórias.

Por isso, no decorrer da projeção, as tais “cores de Almodóvar” - a comédia rasgada e os diálogos exagerados - colocam-se a serviço de um metafilme dirigido pelo protagonista da história - um cineasta que fica cego após um trágico acidente. Aos poucos, a trama vai sendo desvendada. Com maturidade e segurança, Almodóvar conduz o olhar do espectador por um roteiro cheio de mistério. Quase um thriller, com boas doses de film noir.

Locações, fotografia e montagem permanecem impactantes, bem como a direção de atores. Aliás, ninguém filma Penélope Cruz como Almodóvar. As cenas de sexo também chamam a atenção pela plasticidade e sobriedade. O resultado é um filme enxuto, atraente e original, no qual o próprio diretor se recria sem perder o charme. Uma aula de como fazer cinema, literalmente.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

#130 - À procura de Eric (Looking for Eric), de Ken Loach


Ken Loach é o cara por trás de belíssimos filmes de cunho político e social, como Pão e rosas e Ventos da liberdade. Portanto, quando o circuito oferece uma nova realização do diretor, a expectativa é bastante alta. Ainda mais com a chuva de elogios rasgados que À procura de Eric recebeu.

A premissa é bastante divertida: Eric Bishop (o ótimo Steve Evets) é um carteiro em crise existencial e cheio de problemas familiares. Como grande parte dos ingleses (e, por que não, dos brasileiros?), ele tem no futebol o seu refúgio. Torcedor fanático do Manchester United e admirador do famoso jogador Eric Cantona, começa a receber a visita do craque francês depois de fumar um baseado. Cantona começa a dar lições de vida ao seu xará, usando todo a seu experiência como ídolo.

Apesar do tom cômico, o filme mantém um discurso social, utilizando a família de Eric como artifício para falar da falta de perspectiva da classe média britânica. Tudo vai muito bem. Até chegar o terço final, quando Loach resolve montar um desfecho farsesco, que destoa um pouco do resto do roteiro. Apesar de não ser desinteressante, a resolução da trama se dá por vias inverossímeis demais, abandonando uma perspectiva mais profunda nos conflitos pessoais do protagonista.

Vindo de Ken Loach, esperava muito mais. Ainda assim, é mais filme do que muita porcaria em cartaz por aí.