Compartilho com vocês, meus caros, raros, porém queridos, leitores, um pouco do que senti nestes nove meses corridos. O texto é grande, mas ainda assim muita coisa ficou de fora.Durante muito tempo, sem a menor propriedade ou conhecimento de causa, eu usei e abusei da expressão “foi um parto” para me referir à dificuldade de certas tarefas na minha vida. Pequenices, como desbloquear cartão de banco, cancelar conta de telefone celular, atravessar o trânsito carioca congestionado ou finalizar um trabalho complicado. Pois ontem, dia 13 de março de 2008, foi o dia em que entendi o que está além do léxico popular.
Eu antecipei meu nervosismo desde o dia em que a atendente do laboratório, por telefone, deu parabéns a minha mulher. Não era seu aniversário. Esperávamos que fosse o oposto, mas o resultado do exame de gravidez deu positivo. Meu mundo virou de cabeça para baixo. Fitava o nada durante horas, sozinho, ignorando minha hiperatividade nata. Tanta coisa passava pela minha cabeça que mal conseguia entender o que realmente estava acontecendo.
A ficha só foi cair, de fato, 15 dias depois – o tempo exato para se acostumar com a idéia. Recebia os parabéns de parentes e amigos, mas retribuía o carinho com um sorriso amarelo, um pouco forçado, apenas para manter as formalidades. Minha irritabilidade foi se acentuando, a ponto de me indispor com a ginecologista da minha mulher, que proferiu as seguintes palavras:
“Você está preocupado, não é, Eduardo? Pois saiba que eu estou muito feliz!”
Na hora, pensei em várias respostas. Grosseiras. Mas me limitei a ficar calado e a arrumar uma nova médica, que me disse, na hora certa, a melhor coisa que eu poderia ter escutado naquele momento:
“Um filho é sempre um passo para frente.”
E assim, 39 semanas se passaram rapidamente. A barriga da minha mulher crescia monstruosamente. Além dela, eu também tive todos os sintomas clássicos da gravidez: desejos, insônia, enjôos, falta de ar e mudanças de humor. Sem contar a barriga que também cresceu, mas por conta do desleixo com o qual tratei minha alimentação. Ao invés de carregar uma pessoa no ventre, carregava duas nas costas.
Quando chegou a quadragésima semana, a final, a decisiva, a derradeira, o tempo passou vagarosamente, cruel, como se as 39 semanas anteriores passassem novamente, com toda a sua carga emocional. Uma ansiedade absoluta se instalou em mim e alguns medos voltaram com força total. Por exemplo: entrar ou não na sala de parto?
Eu, como cinéfilo que sou, imaginei a cena quinhentas vezes. Com riqueza de detalhes, em todos os seus pormenores, com direito a plano-seqüência, slow motion e trilha sonora. O protagonista, eu, passava mal, desmaiava, perdia o controle. Corri atrás de informações sobre o assunto, procurei ouvir quem já passara pela experiência, mas nada demovia a idéia de que eu ia borrar os fundilhos e passar vexame quando minha filha aparecesse diante de mim. Pior seria se fosse cesariana, pensei. Praticamente um remake de Alien, o oitavo passageiro, com a cena onde o bichano rasga a barriga de seu hospedeiro.
Segundo uma das milhares de pesquisas que havia lido, o percentual de pais que desmaiavam na sala de parto era muito pequeno, e na maioria das vezes todos eles estavam na faixa de cardíacos, hipertensos etc. Em outra, a conclusão era mais pessimista: alertava para a importância dos pais na sala de parto, mas também deixava claro que a maioria deles atrapalha ao invés de ajudar, chegando, inclusive, a desmaiar.
Mesmo nunca tendo nenhum episódio de vertigem registrado em minha ficha médica, lá estava eu, apavorado. Para não ser pego de surpresa, assisti a todos os programas sobre partos e bebês do Discovery Home&Health. Não adiantou muita coisa. Inclusive, em um episódio, concluí que cesariana é mesmo uma espécie de remake de Alien, o oitavo passageiro.
Com o tempo, comecei a me acostumar com a idéia de assistir a um parto natural. A médica dizia para não me preocupar, que era tudo civilizado. Sem gritarias, histerismo, sanguinolência e atrizes de novela se debatendo, pálidas e lânguidas. Me convenceu de que os partos feitos por atores são sempre uma distorção exagerada do que realmente acontece no centro cirúrgico da maioria das maternidades, salvo em casos de emergência. Conclusão: no dia eu decidiria. Se estivesse me sentindo bem e o parto fosse normal, entraria. Caso fosse cesariana, ficaria difícil. Ainda assim, um pensamento não saía da minha cabeça: caso enfrentasse toda a situação, entrasse na sala de parto, filmasse, fotografasse e tudo o mais, seria uma grande vitória pessoal. Uma prova de que sou mais forte do que supunha.
Minha mulher começou a sentir as contrações na primeira semana de março, e a data prevista para o nascimento era o dia 9 do mesmo mês. Porém, as mesmas não eram fortes o suficiente para dilatar a parede do útero. Portanto, o mais indicado para que o parto fosse natural era uma indução. Funciona assim: um hormônio é injetado na veia, aumentando consideravelmente a intensidade das contrações. A tentativa é um caminho sem volta: caso a medicação não funcione, não há como voltar para casa, e uma cesariana precisa ser feita.
A notícia nos deixou um pouco assustados. A minha mulher, porque era a barriga dela que iria ser aberta e cerzida. E a mim, ora bolas, porque eu tremia quando pensava na possibilidade de entrar na sala de cirurgia e testemunhar tal carnificina.
No dia 13 de março, data marcada para a indução do parto, às seis horas da manhã lá estávamos, assustados, na recepção da Clínica Perinatal, em Laranjeiras. No saguão, uma TV de plasma mostrava cenas de alguns nascimentos. Uma certa comoção me fez soluçar quieto, discreto. Enquanto olhava a maquete da clínica que será construída na Barra da Tijuca, tentava distrair a mente com algumas conclusões. Por exemplo: a maternidade, este local de onde saem os bebês, é uma espécie de aeroporto onde a origem é móvel e os destinos, sempre indefiníveis.
Voltei à tona quando fomos chamados a assinar o termo de internação. Seguimos para o quarto e minha mulher trocou de roupa. A luz sobre ela era pálida e fria feito a de um hospital, mesmo que a maternidade seja diferente no que diz respeito ao produto final. Na maternidade, você faz uma cirurgia e no final recebe um prêmio. No hospital, o prêmio é sair de mãos abanando. O soro, a maca, os remédios: tudo contribuía para aumentar o clima de ansiedade.
Quando o enfermeiro apareceu para nos levar à sala de pré-parto, no centro cirúrgico, gelei. Aguardando o elevador, evitei olhar para trás, para onde meus pais estavam. Me inclinei para um beijo na testa da minha esposa, na tentativa de mostrar a ela que estava ali, firme e forte, apesar da angústia misturada com alegria que me consumia por dentro. Ela sentiu, e chorou lágrimas de desabafo, em silêncio. E assim ficamos até chegar no andar da sala onde a medicação começaria a ser aplicada. Nos separamos rapidamente para que eu fosse ao vestiário masculino trocar de roupa e me fantasiar de médico. Foram longos dois minutos, contemplativos, solitários.
Já na sala de pré-parto, um aparelho de eletrocardiograma foi posicionado por sobre a barriga da minha mulher para monitorar os batimentos do bebê. O barulho era irregular, chiado, o que já provocava algum desconforto. Ligamos a televisão para nos distrair, pois a manhã prometia ser longa. Normalmente, uma indução leva mais ou menos seis horas, dependendo da fisiologia da mulher. Ana Maria Braga, que tem um filho, apresentava mais uma daquelas suas mensagens matinais patéticas sobre esperança, que me pareceram mais patéticas ainda quando senti contrações na minha barriga e esvaziei o café da manhã no banheiro do centro cirúrgico.
Quando o anestesista introduziu um catéter nas costas da minha mulher, senti que enfrentar uma cesariana seria complicado. Para tornar as coisas um pouco mais tensas, o eletrocardiograma apontava para uma queda no ritmo cardíaco da minha filha toda vez que havia uma contração. A presença da bolsa d'água é que regularizava a situação sem maiores perdas. Porém, um exame de toque confirmou que os tais picos se davam porque o cordão umbilical estava na frente da cabeça da minha filha. Ou seja, caso não saísse da frente na hora do nascimento, o cordão poderia se comprimir ainda mais, justamente na hora em que o bebê precisaria de mais oxigenação. Prognóstico: esperar um pouco mais para ver se, de repente, o cordão saía da frente.
A notícia visivelmente abalou-nos. Respirei fundo, me recompus e fui procurar um café enquanto minha mulher tentava descansar. Encontrei a obstetra na sala dos médicos e conversamos um pouco sobre a situação. Ela me disse que um parto normal, naquela altura, era improvável, mas que faria de tudo para realizar a vontade da minha mulher, até o ponto em que as duas, mãe e filha, não sofressem risco qualquer.
Poucas horas depois, foi decidido que seria feita uma cesariana. Gelei, mas na mesma hora confirmei que entraria de qualquer maneira. Não iria deixar minha mulher, com quem compartilhei os nove meses mais intensos de toda a minha vida, sozinha em um momento delicado como aquele. Tomei coragem não sei de onde e entrei na sala grande, clara, branca, limpa, cheia de instrumentos prateados, máscaras de oxigênio, aparelhos eletrônicos, bandejas com bisturis e tesouras e uma belíssima janela esfumeada que dava para a Rua das Laranjeiras, engarrafada.
Me arrumaram um banquinho com rodinhas. Pensei: se eu cair de um banquinho com rodinhas o tombo pode ser pior. Arrumei um outro, no canto da sala, com borrachas fixas. Me posicionei do lado direito da minha mulher, que começava a ficar levemente grogue por causa da anestesia. Estavam presentes, além de mim, o anestesista, a obstetra, uma segunda médica de sua equipe, a pediatra, uma instrumentadora e Adriana, a simpática enfermeira que durante toda a nossa estada no centro cirúrgico tratou de apaziguar a ansiedade implacável.
Eu me transformei em um pêndulo humano, que ia da calma ao descontrole em segundos. Graças à máscara que faz parte do uniforme de pai-na-sala-de-parto, dava para esconder um pouco a minha ansiedade de minha mulher. Tinha medo de desestabilizá-la. Porém, minhas pernas me entregavam: balançavam freneticamente, as duas, descompassadas, desengonçadas. Minha mão suava, fria.
Um pano azul foi aberto e separou a cabeça da minha mulher do resto de seu corpo. Era um campo de visão seguro para nós dois, desacostumados com o ofício médico. Enquanto abriam mais uma barriga, as médicas tricotavam sobre suas rotinas: academia, filhos, contas etc. O anestesista, o único homem da equipe médica, brincava do outro lado, fazendo piada da situação.
Doze minutos depois de iniciada a cirurgia, ela surgia, minha filha, Maria Eduarda. Quando a médica a ergueu no ar, ignorei solenemente todos os meus medos, cada um deles, e levantei também. Ouvi seu choro e, em seguida, o choro da minha mulher. Não consegui chorar. Ria feito um bobo alegre. Meu rosto ficou deformado de tanta alegria por detrás daquela máscara. E o medo de desmaiar? Sei lá para onde ele foi. Estava mais ocupado em registrar, através de fotos e vídeos, o exato momento em que percebi que nunca mais seria uma pessoa egoísta.
Momentos depois a pediatra pôs minha filha nos meus braços, ainda embalada naquele monte de toalhas e suja de grumo e de restos do parto, para que a levasse até o berçário. No meu colo, ela abriu seus enormes e expressivos olhos e ficou me olhando. Eu conseguia ver o meu reflexo na iris dela. Me reconhecia nela. Caminhei passos de gente grande, cheio de adrenalina no corpo, extasiado, em estado de graça. Pelo vidro que separava minha família de mim, expus meu rebento. Eles pareciam comemorar em silêncio um gol em final de campeonato.
Saí, daquela sala de parto, pai. E teria me arrependido amargamente se tivesse optado por esperar do lado de fora, na cafeteria. Como pai recente, aprendi a entender a natureza e sua sapiência. Os nove meses, a maturação, a gênese – todos os conceitos livres de dogmas religiosos ou científicos. A experiência é avassaladora, vem como um turbilhão, lhe põe de cabeça pra baixo para logo depois lhe acertar o rumo e deixar claro que plantar uma árvore ou escrever um livro são meras atividades lúdicas.
Desde o baque, passando pela aceitação, até o acolhimento de uma nova família – passei por todas as fases. A todos que me disseram que tudo se acertaria com o tempo, quando mais parecia uma criança assustada com um conto de terror, obrigado. A todos que participaram de alguma maneira, me apoiando quando eu mais precisava, obrigado. Aos médicos, Dra. Lenise, Dra. Nair, Dr. Eduardo e Dra. Monica, pela medicina humanista, segura, firme e competente, obrigado. A minha maravilhosa família, até a que está distante, mas que sempre esteve perto do meu coração, obrigado. Aos meus pais e irmãos, por quem tenho esse amor incondicional que agora também dedico a minha família, obrigado.
E à mulher a quem aprendo a amar a cada dia mais, mesmo com a cara amassada pela falta de sono e o cabelo desgrenhado pela falta de tempo, mas ainda assim irradiante e bela, com quem transpus todas as enormes barreiras desde o dia em que estabelecemos nossa união, obrigado.
Estou completo.