Sempre fui admirador do cinema de Terrence Malick. Depois de assistir a
Além da Linha Vermelha na tela grande, saí da sala de projeção estupefato, emudecido, emocionado. Na mesma época,
O resgate do soldado Ryan lotou o circuitão. Os dois filmes foram lançados simultaneamente e argumentavam sobre a mesma guerra. Enquanto o de Spielberg me deixou apenas um lastro de excitação, o de Malick me deixou pensativo. Essa é a chave para entender - e curtir -
A árvore da vida.
Malick sempre trabalha suas narrativas de forma a dar destaque às imagens. Isso porque o argumento está sempre presente, em cada fotograma, em cada diálogo, em cada enquadramento. Logo, a narrativa é fragmentada. Mais importante do que entender é sentir. Dispensa, assim, a estrutura romanesca da tríade início-meio-fim. Oferece ao espectador um mergulho profundo em uma determinada questão existencial.
Aqui, essa questão nada mais é do que colocar em xeque, mediante a morte de uma pessoa próxima, a benevolência de um deus que regula de forma inexorável a vida dos seres humanos. O roteiro mostra uma família tipicamente estadunidense, temente a esse deus, em plena década de 60 (apogeu do american
way of life), tentando lidar com a perda de um filho de 17 anos. A fatalidade ecoa e se faz sentir, acompanhando a família até os dias atuais. O filme se concentra no pai (Brad Pitt, um monstro) e no primogênito (quando adulto, interpretado por Sean Penn, outro monstro).
A linguagem cinematográfica é explorada ao extremo. Fotografia, direção de arte, enquadramentos e edição são de encher os olhos - e umedecê-los também. As imagens são belíssimas. Há uma luz quase sacra banhando os personagens, como se a divindade estivesse presente em cada cena, feito um personagem. Inclusive, o pé direito de todas as locações é enorme, em referência a arquitetura utilizada pela Igreja, criada para provocar um sentimento de pequenez nos fiéis.
Malick sabe como ninguém trabalhar com grandes egos - ops, quer dizer, com celebridades hollywoodianas. A direção de atores é fabulosa, com atuações irretocáveis da dupla Pitt e Penn. Outro destaque é o jovem Hunter McCracken, promissor, que faz o primogênito quando garoto. É impressionante ver a entrega do jovem ator ao personagem.
Na verdade, ao contrário do que muita gente tem dito por aí,
A árvore da vida é um filme bem simples. Não tem nada de pretensioso ou intelectualóide. Versa sobre um tema universal que é comum a qualquer ser humano que já questionou, por exemplo, a sua própria existência. Ou que já tenha se intrigado com a extinção dos dinossauros (sacou?). Sua complexidade reside no fato de ser uma obra de arte. Por conseguinte, é necessário, sim, uma certa sensibilidade para aproveitá-lo em sua totalidade, sob pena de encarar a projeção como um mero sequenciamento de imagens aleatórias. Não precisa ser cinéfilo, não precisa ter lido os clássicos, não precisa de mestrado em filosofia. Porém, uma vez que a fruição e o ajuizamento de gosto operam numa esfera subjetiva, obra de arte é assim mesmo.
No meu ajuizamento, é um filme arrebatador!