Muito tem se falado do diretor filipino Brillante Mendoza. Inclusive, já reproduziram à exaustão um trocadilho quase inevitável que transforma seu primeiro nome em adjetivo. Fato é que o sujeito, até então um realizador publicitário, começa a ganhar destaque mundo afora. Seu sucesso, em grande parte, se deve a uma espécie de "desconhecimento" do que é exibido fora do circuito hollywoodiano. Disse Mendoza em uma entrevista, do alto de sua humildade, que somente agora, anos depois de assumir o ofício da direção, começa a se interessar por correntes cinematográficas de outros países, como o neo-realismo italiano e a nouvelle vague francesa. E isso parece fazer a diferença em seus filmes.
Mendoza levou a festivais ao redor do mundo seu olhar crítico sobre o país em que nasceu. Em seus filmes, as Filipinas são capturadas sob lentes naturalistas. Seus personagens, que experimentam o esmagador peso da desigualdade social, são como habitantes reais de um país que serve de cenário. Lola, sua mais nova produção, coloca em destaque duas idosas que tomam a frente do sustento financeiro e moral de suas respectivas famílias - tarefa nada fácil.
A primeira cena já demonstra o quão penoso o desenrolar da trama vai ser. Em meio a uma tempestade de verão, debaixo de muita água e muito vento, uma das senhoras de idade (ou simplesmente lola, como são chamadas as vovós filipinas) tenta acender uma vela em memória do neto, vítima de latrocínio. Os movimentos seguintes dão conta dos preparativos para o funeral. Paralelamente, a outra lola busca a libertação do neto, suspeito de ter cometido o crime. Ambas caminham por uma Manila maltratada, onde assaltantes, golpistas e funcionários burocráticos dificultam os caminhos.
A fotografia é bem cuidada, os atores têm liberdade para lidar com a inexperiência cênica e o áudio ambiente, principalmente o da chuva, é tão importante quanto os diálogos. Chove o tempo inteiro. É preciso buscar abrigo a todo instante. A sequência final, que promove o encontro, cara a cara, das duas matriarcas, é singularmente comovente. Resume com contundência tudo o que foi mostrado em quase duas horas de projeção.
