
Em "Crepúsculo dos deuses", Billy Wilder junta em uma mesa de poker estrelas do cinema mudo que caíram no ostracismo após o advento do som. Buster Keaton, um dos meus comediantes prediletos, ocupa uma das cadeiras. De fato, foi esse o destino de muita gente boa que ficava quieta, mas dominava a pantomima.
Com Charles Chaplin, ainda bem, foi diferente. Seu primeiro filme falado, rodado cerca de treze anos após a revolução sonora na indústria cinematográfica, é uma obra-prima. Interpretando dois personagens antagônicos, um ditador totalitarista e um barbeiro judeu, Chaplin fez da guerra e suas atrocidades uma comédia que consegue mostrar o quão estúpida e ignorante é a indiferença que move a guerra.
As analogias que ligam o roteiro ao nazismo e ao fascismo são evidentes de cara. Mais precisamente, estão na cara de Chaplin. Ele mesmo confessou um dia ter ficado assustado com as coincidências que o remetiam a imagem de Adolf Hitler: os dois tinham quase a mesma altura, quase o mesmo peso e nasceram entre um espaço de tempo de apenas uma semana. Fora o bigode que ele usava em cena. Logo, a caracterização de Adenoid Hynkel, ditador de um país fictício chamado Tomania, é perfeita.
As melhores cenas, não há como negar, estão nos momentos silenciosos, nos quais o ator e diretor usa e abusa de sua expressão corporal. São célebres as seqüências onde ele brinca com um globo terrestre, como ditador, ou quando faz a barba com movimentos coreografados de uma sinfonia, como judeu. Porém, o som é muito bem usado: seja nos discursos de Hynkel, em uma língua que soa raivosa e que foi inventada pelo próprio Chaplin; ou no discurso emocionante que permeia o filme.
"O grande ditador" foi banido de todos os territórios nazistas e fascistas. Reza a lenda que Hitler viu o filme. Infelizmente, não há registros sobre o que ele achou da película. Sabe-se que, em uma ocasião nos Balcãs ocupados, soldados alemães tiveram acesso a uma cópia clandestina sem saber do que se tratava. Alguns saíram no meio da projeção e outros atiraram contra a tela.
É por isso que pode-se afirmar sem dúvida alguma que Chaplin foi um gênio. O cinema nunca mais foi o mesmo após sua existência.












