quarta-feira, abril 29, 2026

Sonhos de trem (Train dreams), de Clint Bentley


Eu costumo gostar de filmes narrados em terceira pessoa porque o texto realça a psiquê das personagens. Mas nem é o caso aqui. O grande mérito de Sonhos de trem é como as imagens montam um painel que conta uma história incrível com início, meio e fim. E aí, palmas (de pé) para o diretor de fotografia, o brasileiro Adolpho Veloso. Bicho, que trabalho sensacional!

O roteiro conta não só a história de um lenhador que trabalha por longas temporadas longe de casa e da família, mas também de um momento histórico cujo espírito do tempo é tumultuado pela primeira grande guerra mundial - bem longe das pacatas florestas do meio-oeste estadunidense onde a ação se concentra. Temas como solidão, luto e desesperança são engatados com perfeição a essa locomotiva que é a vida. 

E que às vezes descarrila. 

As mudanças de paradigma, os avanços tecnológicos e o florescimento das desigualdades são explorados com bastante profundidade, mas em poucas palavras. Inclusive, tem gente comparando a obra de Clint Bentley com a filmografia do Terrence Malick (do maravilhoso Árvore da vida, pra citar um e permanecer no tema floresta e lenhador). Até faz sentido, mas a montagem é muito diferente. Primeiro, porque é mais linear, e depois porque os diálogos são encaixados à ação, o que torna Sonhos de trem mais realista. 

Sonho de trem da CPTM ou da Supervia é vagão vazio.

Há uma cena curiosa logo no início da projeção, quando a construção de uma ponte de madeira é finalizada e comemorada com entusiasmo por todos. Naquele recorte temporal, o feito era sinônimo de progresso, uma vez que o trem ligaria uma cidade a outra em muito menos tempo. Porém, logo em seguida, o narrador conta que dez anos depois uma ponte de aço para carros seria construída alguns quilômetros à frente.

Ou seja, taí um filmaço que fala sobre essas pontes que a gente, penosamente, abre ao longo da vida. E sobre esses trens que nós todos perdemos com o tempo, de forma inevitável.

Mas você tem a opção de não perder esse filme, hein!

terça-feira, abril 28, 2026

Foi apenas um acidente (Yek tasadof-e sadeh), de Jafar Panahi


Sempre gostei do cinema iraniano, desde os tempos em que o Majid Majidi e o Abbas Kiarostami ainda eram incompreendidos e não tinham muito espaço no circuitão. Era pejorativo dizer que alguém gostava de "cinema iraniano", lembra? Era coisa de gente chata. 

Isto posto, digo sem receio que Foi apenas um acidente é um filme incrível, que coloca a sétima arte persa numa prateleira de destaque.

São eles dizendo que ainda estão lá, apesar da repressão vinda de dentro e dos bombardeios vindos de fora. Agentes que contam secretamente a história de um povo que também tem sua identidade marcada por uma autocracia.

Panahi nos traz a história de um homem que acredita ter reconhecido o seu torturador da época em que ficou preso ao protestar contra o governo. Ele então sequestra o suposto algoz e mobiliza seus ex-companheiros para tentar confirmar a identidade do sujeito.

Um roteiro incrível, inventivo e bastante consistente traz reviravoltas que não são previsíveis. A ação é encaixada no tempo de uma forma muito fluida - ainda que a filmagem tenha sido feita clandestinamente, com o cerceamento da liberdade criativa. A linguagem é tão universal, que a gente saca na hora sua referência a Esperando Godot, o clássico absurdo de Beckett, antes mesmo das personagens falarem sobre isso.

Não precisa mais esperar, Godot: o cinema iraniano está aqui!

Ao final da projeção, fica esse sentimento catártico que sustenta o cinema como essa maravilhosa arte que nos proporciona a inestimável possibilidade de conhecer e reconhecer nossos semelhantes, onde quer que eles estejam.

sexta-feira, abril 24, 2026

Sirât, de Oliver Laxe

O primeiro filme que escolhi para ser resenhado nessa nova etapa do blog foi o concorrente ao Oscar desse ano pela Espanha, Sirât - apesar da antipatia brasileira com o diretor Oliver Laxe, por ter dito que brasileiros na Academia votariam até num sapato. Fato é que o espanhol se safou de um "vampetaço" porque é um daqueles sujeitos que não têm redes sociais.

Invejo-o por isso.

Contendas à parte, preciso dizer que Sirât é realmente um filmaço! Um filme feito para ser visto no cinema, inclusive. O título faz menção a uma crença islâmica sobre uma ponte cuja travessia vai dar no paraíso, mais fina que um fio de cabelo e mais cortante do que o fio de uma navalha. No dia do juízo final, os bem-aventurados conseguirão atravessar com facilidade. Já os ímpios, vão cair nas profundezas do inferno.

É essa travessia, mas ambientada no deserto, que o roteiro mostra. Acompanhamos um pai em busca de sua filha, desaparecida após sair de casa para curtir uma rave. Ao lado de seu filho caçula e do cachorro da família, ele se junta a uma caravana de jovens que organizam festas nas paisagens áridas de um território em conflito, mesmo que alertados por soldados para não seguir em frente.

Ao ignorar o perigo, pegam um atalho. E aqui é como se fracassassem na travessia da sirât. O inferno se mostra como um campo minado sobre o qual a trupe se estabelece e pluga seu potente equipamento sonoro. E aí, a música entra como um protagonista, num desenho de som absolutamente incrível! Em meio a woofers e subwoofers, as explosões e os sumiços das personagens vão acontecendo num clima de suspense e desolação desconcertantes. O efeito, tanto na tela quanto na plateia, é realmente singular.

Galera que usa JBL na praia podia aderir ao campo minado, né?

A direção de atores brilha uma vez que a maior parte do elenco é formada por artistas sem qualquer experiência prévia, adeptos de uma vida, digamos, festeira. E aí é muito bacana notar que o próprio Oliver Laxe (olha aí eu elogiando o cara) traça um paralelo com uma das películas mais perturbadoras da história do cinema, o espetacular (e resenhado aqui, chora influencer) Freaks, filmado com artistas circenses de um "show de aberrações" na década de 1930. Inclusive, uma das personagens usa uma camisa com a estampa do filme.

Tem outro paralelo, mas esse é da minha cabeça, com o livro do Mia Couto, o fantástico O último voo do flamingo. Mas eu vou deixar aqui como sugestão de leitura apenas, ok?

Agora não dá mais para ver Sirât nos cinemas porque provavelmente já saiu de cartaz. Por isso, se o seu amigo tem um daqueles sistemas de som potentes, se convida para uma sessão na casa dele - porque vale a pena.

quinta-feira, abril 23, 2026

Olha quem está de volta!

Vamos começar as sessões por aqui?

O tempo passa, o tempo voa, e depois de quase 10 anos de hiato e um monte de filmes - e fios de cabelo brancos -, estou de volta. Quer dizer, este blog está de volta! E faço questão de deixar o "blogspot" na URL.

Tava vendo aqui: eu resenhei 704 filmes.

Ainda tenho o banner que o Catraca Livre uma vez roubou de mim na cara dura!
E nem pediu desculpas.
E mudou muita coisa nessa quase década de afastamento, hein... Agora tem streaming pra caramba por aí, uma cacetada de maratonistas de série e influenciador dando dica de filme no Instagram em vídeos de 15 segundos. Ah, e faz é tempo que eu não sou mais crítico de cinema, mas os hábitos continuam os mesmos: ainda dou preferência à telona no escuro e permaneço sendo chato e implicante.

Então tá. Em breve eu posto o primeiro filme aqui.

Beijo beijo.