Eu costumo gostar de filmes narrados em terceira pessoa porque o texto realça a psiquê das personagens. Mas nem é o caso aqui. O grande mérito de Sonhos de trem é como as imagens montam um painel que conta uma história incrível com início, meio e fim. E aí, palmas (de pé) para o diretor de fotografia, o brasileiro Adolpho Veloso. Bicho, que trabalho sensacional!
O roteiro conta não só a história de um lenhador que trabalha por longas temporadas longe de casa e da família, mas também de um momento histórico cujo espírito do tempo é tumultuado pela primeira grande guerra mundial - bem longe das pacatas florestas do meio-oeste estadunidense onde a ação se concentra. Temas como solidão, luto e desesperança são engatados com perfeição a essa locomotiva que é a vida.
E que às vezes descarrila.
As mudanças de paradigma, os avanços tecnológicos e o florescimento das desigualdades são explorados com bastante profundidade, mas em poucas palavras. Inclusive, tem gente comparando a obra de Clint Bentley com a filmografia do Terrence Malick (do maravilhoso Árvore da vida, pra citar um e permanecer no tema floresta e lenhador). Até faz sentido, mas a montagem é muito diferente. Primeiro, porque é mais linear, e depois porque os diálogos são encaixados à ação, o que torna Sonhos de trem mais realista.
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| Sonho de trem da CPTM ou da Supervia é vagão vazio. |
Há uma cena curiosa logo no início da projeção, quando a construção de uma ponte de madeira é finalizada e comemorada com entusiasmo por todos. Naquele recorte temporal, o feito era sinônimo de progresso, uma vez que o trem ligaria uma cidade a outra em muito menos tempo. Porém, logo em seguida, o narrador conta que dez anos depois uma ponte de aço para carros seria construída alguns quilômetros à frente.
Ou seja, taí um filmaço que fala sobre essas pontes que a gente, penosamente, abre ao longo da vida. E sobre esses trens que nós todos perdemos com o tempo, de forma inevitável.
Mas você tem a opção de não perder esse filme, hein!


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