Sempre gostei do cinema iraniano, desde os tempos em que o Majid Majidi e o Abbas Kiarostami ainda eram incompreendidos e não tinham muito espaço no circuitão. Era pejorativo dizer que alguém gostava de "cinema iraniano", lembra? Era coisa de gente chata.
Isto posto, digo sem receio que Foi apenas um acidente é um filme incrível, que coloca a sétima arte persa numa prateleira de destaque.
São eles dizendo que ainda estão lá, apesar da repressão vinda de dentro e dos bombardeios vindos de fora. Agentes que contam secretamente a história de um povo que também tem sua identidade marcada por uma autocracia.
Panahi nos traz a história de um homem que acredita ter reconhecido o seu torturador da época em que ficou preso ao protestar contra o governo. Ele então sequestra o suposto algoz e mobiliza seus ex-companheiros para tentar confirmar a identidade do sujeito.
Um roteiro incrível, inventivo e bastante consistente traz reviravoltas que não são previsíveis. A ação é encaixada no tempo de uma forma muito fluida - ainda que a filmagem tenha sido feita clandestinamente, com o cerceamento da liberdade criativa. A linguagem é tão universal, que a gente saca na hora sua referência a Esperando Godot, o clássico absurdo de Beckett, antes mesmo das personagens falarem sobre isso.
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| Não precisa mais esperar, Godot: o cinema iraniano está aqui! |
Ao final da projeção, fica esse sentimento catártico que sustenta o cinema como essa maravilhosa arte que nos proporciona a inestimável possibilidade de conhecer e reconhecer nossos semelhantes, onde quer que eles estejam.


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