Porém, uma coisa me chama a atenção: numa era em que a mentalidade do fast food inunda todos os setores sociais, incluindo o entretenimento e sua indústria cinematográfica, é de se espantar que O artista seja o queridinho de tanta gente. Ao redor do mundo, ele vai acumulando prêmios e mais prêmios. É o grande favorito para levar aquela estatueta estadunidense. Melhor Filme - uma produção francesa. Estranho, né? Nem é. É mero saudosismo de uma época em que Hollywood ainda era inventiva. Uma época onde era preciso, pelas limitações técnicas, ser criativo. O artista é um cafuné na cabecinha dos membros da Academia.
Criativo foi também o diretor Michel Hazanavicius, que percebeu o mote da escassez de ousadia hollywoodiana e arriscou o traseiro lançando um filme assim. Ousado é fazer com que a massa acredite estar vivenciando uma experiência cinematográfica diferente. Ora bolas, O artista é cinema na sua mais pura condição. Não deveria causar estranheza nenhuma assistir a uma película muda e em preto e branco. E não há nada de transgressor no sentido estético: muitos cineastas continuam fotografando suas histórias em preto e branco. Centenas de roteiristas continuam dando mais valor à ação do que ao diálogo. A transgressão é apenas comercial.
Vamos falar sobre o filme? É a história de um ator do cinema mudo que se vê à beira da miséria quando o cinema falado se torna uma realidade - argumento que Cantando na chuva, lé em 1952, já havia trabalhado de forma extraordinária. Desacreditado, ele busca um lugar ao sol, ajudado por uma moça que passa de figurante à estrela da companhia. Jean Dujardin está ótimo como o protagonista, com uma perfeita pantomima dos atores da época. A sorridente e espevitada Bérénice Bejo também dá conta do recado, facilitando a empatia do público com sua personagem, exatamente como as estrelas de Hollywood faziam à época.
Um filme simpático, com um desfecho bacana. Só isso.




