
Fui assistir ao mais comentado filme da temporada,
Tropa de Elite 2, como há muito tempo não fazia: ao lado de minha esposa, em pleno feriado, num cinema de shopping center, pagando ingresso e enfrentando uma fila quilométrica. Cerca de meia hora de anúncios e trailers depois, eu era mais um na conta dos mais de 6 milhões, segundo anúncio de TV, a conferir o trabalho de José Padilha que não foi parar nos camelôs ou na internet antes mesmo de seu lançamento.
Muito me foi dito sobre o filme, e só ouvi comentários positivos. Para dizer a verdade, ouvi uma penca de testemunhos esfuziantes, entusiasmados, arrebatados. Eu aguardava, principalmente, mais um excelente trabalho de um dos melhores - se não o melhor – roteiristas do país, Bráulio Mantovani. Quase duas horas depois do início da sessão, saí meio confuso da sala de projeção. Tropa de Elite 2 é um bom filme, sem dúvida. Porém, a verdade é que eu não fiquei tão empolgado quanto eu imaginava que ficaria.
Na síntese, o segundo filme da franquia funciona como uma espécie de mea culpa do diretor, que viu, no primeiro longa, um personagem de discurso fascista ganhar os corações da massa brasileira. Capitão Nascimento foi endeusado por uma grande parcela da população, cegamente levada a ovacionar métodos nada respeitáveis de conduta por parte de uma instituição que deveria zelar pela integridade dessa própria sociedade. Era o tal do estrabismo social fascistoide se espalhando feito epidemia. Wagner Moura foi parar em capas de revistas sob legendas de herói. Um website especializado em roupas infantis vendeu fantasias de policial do Bope. Ainda que a todo momento o roteiro reiterasse as imperfeições de Nascimento, o que se viu foi o endeusamento cego daquilo que deveria, justamente, ser questionado.
O roteiro de Tropa de Elite 2 chega a tratar o assunto de forma literal, quase irritantemente didática, para que dessa vez não haja interpretações equivocadas: é o próprio Coronel Nascimento, o mesmo que punha saco de plástico na cabeça das pessoas e acharcava quem quer que fosse para conseguir o que queria, que assume, como narrador da história, que errou. Sim, o inimigo mudou: no lugar dos traficantes e seus arsenais de guerra, os milicianos e sua influência política. Só que, desta vez, parece que Padilha quis se precaver para que seu argumento não desse brecha a interpretações obtusas. Será que foi isso mesmo?
Há que se ter cuidado, Padilha. Pela fala do protagonista, narrada em off, a mesma esquerda que é chacoteada no início do filme, cujas piadas rendem boas risadas na plateia, é aquela que se torna aliada no final. Os direitos humanos que são duramente criticados lá no início do filme, são valorizados no final. Talvez daí venha a minha principal crítica ao trabalho de Mantovani. É num filme como esse, no qual a palavra tem muito mais força do que a ação filmada, que os diálogos devem ser bem trabalhados, que a narração deve ser protagonista, que o texto deve funcionar com muito mais pungência.
Cinematograficamente falando, o filme é impecável. Da montagem à edição, perfeito. A direção de atores é precisa, com o elenco rendendo o esperado: grandes atores em papeis bem desenvolvidos. O roteiro cria bons climas de suspense e ação, ainda que assuma uma postura mais reflexiva do que imediatista - apesar do momento Charles Bronson do Coronel Nascimento.
Ao final da sessão, os espectadores discutiam o tema. Isso é uma conquista valorosa a um filme cujo argumento flerta com a realidade. Por isso, ouso aqui dizer que assistir a Tropa de Elite 2, para quem sente a necessidade de debater o Rio de Janeiro, é quase que uma lição cívica. Quase. Eu saí daquela sala de projeção convencido de que minhas escolhas políticas sempre foram coerentes com a minha visão do que é o melhor para a Cidade Maravilhada.