domingo, dezembro 27, 2015

Perdido em Marte (The Martian), de Ridley Scott

A ideia é muito boa: a história parte de um ponto no futuro próximo em que o homem já domina a técnica de exploração em Marte, o que pelo jeito não vai demorar tanto assim. Pelos planos da NASA, se tudo der certo, a primeira missão tripulada deve acontecer daqui a 14 anos (já é quase ano novo), em 2030. O livro homônimo de Andy Weir, no qual se baseia o filme, cria uma espécie de drama centrado na sobrevivência em um ambiente inóspito, colocando em destaque conceitos morais. Ridley Scott pega esse argumento e faz um filme que funciona como um Náufrago - ou Esqueceram de mim, para aproveitar essa onda de festas de fim de ano - futurista, dirigindo sua história exatamente como manda o figurino hollywoodiano, o que nem sempre é uma ideia muito boa.

Acontece assim, em sinopse informal: tem lá uma tempestade monstruosa em solo marciano e os astronautas são obrigados a abortar a missão. O personagem de Matt Damom, o botânico da equipe, leva uma estocada nos cornos e desaparece. Dado como morto, é deixado para trás pelo resto da tripulação, que se pirulita rapidinho do planeta vermelho. Acontece que, por milagre (sim, deus está presente em Marte), ele sobrevive. A partir daí, a NASA fica mal na fita e precisa decidir se vai deixá-lo lá, já que é difícil pra caramba se manter vivo num lugar daqueles, ou se vai se descabelar - e se descapitalizar - para traçar um plano de resgate. Bom, se você viu o trailer, já sabe que opção eles escolhem.

Não li o livro, mas se o filme for fidedigno a ele, trata-se de um grande desperdício de tinta, assim como foi esse grande desperdício de película de um diretor que vem acumulando equívocos ao longo do tempo, talvez por seguir austeramente a cartilha do mercado cinematográfico. O protagonista mais parece uma mistura de MacGyver com Kevin McCallister. Ao mesmo tempo em que usa seus conhecimentos avançados de botânica, faz piadas o tempo inteiro. O tempo inteiro mesmo, ainda que não se trate de uma comédia - o que faria sentido num livro, uma vez que o narrador solitário tem suas sacadas em um fluxo de memória consciente, sem precisar concretizar sua comicidade diante do perigo em ações tresloucadas. Apesar do tema empolgante, o filme é chato. Não decola, para fazer um trocadilho. Não há uma cena sequer na qual a imprevisibilidade seja tratada com carinho. É tudo completamente previsível...

Outbacks australianos? Nem.. É tudo computadorizado.

Talvez isso não faça parte nem do livro, mas seria bastante interessante fazer um filme no qual a figura de um deus partisse de um humano. Em Marte, um botânico faz surgir a vida e dá aos marcianos sapiens, milhões de nos após uma evolução, um motivo para que seja criada a eterna pergunta que tanto move os viventes: de onde viemos? Nisso, entraria no balaio ciência, religião, ética, moral, cultura etc. Mas nem rola aqui. Perdido em Marte vai pelo caminho mais fácil e traz um desfecho que mais parece o de um filme de super-herói. Chega a ser patético.

O que me fez ficar até o fim foi essa possibilidade de vislumbrar, agora que já sabemos, graças ao Curiosity, como é Marte, a interação entre o planeta e os seres humanos. De resto, é pura perda de tempo.

Nota, em 11/01/2016 > O filme foi premiado no Globo de Ouro na categoria Comédia! Metalinguagem? Ai, que comédia...

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Para ler a música de uma Legião

Hoje o assunto por aqui é música. A resenha abaixo é da autobiografia do Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana.

A mim, música sempre foi textura. Comecei a tocar guitarra na época em que os heróis do instrumento, de cabelos compridos revoltos e calças de couro apertadas, executavam arpejos em velocidade extrema. Muita técnica, pouca textura. Eu estava mais interessado em barulhos estranhos. Meus heróis sempre foram aqueles que conseguiam fazer com que a guitarra não soasse simplesmente como um instrumento de corda amplificado, e sim como uma agulha que vai entrelaçando timbres, tons, notas, semínimas.

Contrariando a massa, que ovacionava Malmsteen, Satriani e Vai, a santíssima trindade àquela época, eu queria ser diferente. Gostava de Pixies, Sonic Youth e Dinosaur Jr. - além dos representantes da MPB, Música Popular Britânica, como Clash, Joy Division, Specials e tantos outros. De gente de verdade que tocava guitarra para fazer barulho bom. Eu preferia, por exemplo, o Dado Villa-Lobos.

Parte da minha adolescência foi vivida na saudosa loja que o guitarrista da Legião e o baixista da Plebe Rude - outra banda que sempre admirei -, André X, mantinham numa galeria do Leblon off-Manoel Carlos. Foi lá, aos 13 anos, que adquiri o meu primeiro disco do Pavement, Slanted and Enchanted, de 1991 – o que me custou toda a mesada, algo em torno de NCz$ 1.500,00. A Rock it! era um dos únicos lugares onde eu podia trocar uma ideia sobre as bandas e artistas dos quais gostava. Foi uma época de fruição quase solitária e de extrema mudança de paradigmas.

Por isso, ler o livro que o meu querido e estimado amigo Felipe Demier ajudou a dar corpo, a autobiografia do guitarrista de uma das minhas bandas prediletas, foi uma jornada profunda a um passado que ajudou a construir o meu caráter e a dar forma ao que sou hoje. Li Dado Villa-Lobos - Memórias de um Legionário, da editora Mauad, em uma semana de folga do trabalho. Foi a minha viagem de férias.

A leitura é como uma visita íntima aos ídolos, que gentil e humildemente descem do oratório e se mostram tão humanos quanto o leitor. O livro permite acompanhar o surgimento do rock de Brasília, os percalços políticos e econômicos que influenciaram a produção cultural do país, o processo criativo de quem tentava remar contra a corrente e as relações humanas que se estabeleceram dentro desse caldeirão que continua em ebulição. É cômico, denso, tenso, emocionante e até deprimente em certas passagens. Senti-me tão perto do Dado, que é como se tivesse estado numa mesa de bar dividindo uma cerveja gelada com ele e os outros dois autores - além do Felipe, o Romulo Mattos, outro cara bom de papo.

Olha a camisa do Bonfá ali. Sempre relacionei as duas bandas.

Página a página, ou seja, disco a disco, fui entendo como minha predileção pela guitarra do Dado, com suas texturas diversas e elegantes, fazia sentido. Perpassar, dessa espécie de bastidores, todas as etapas - composição, ensaio, gravação, lançamento, apresentações - de cada álbum da Legião Urbana foi uma possibilidade inestimável de entender por que a música pode ter essa força avassaladora na vida de muita gente.

Escrevo isso porque Legião Urbana é parte indelével da minha vida. Quando criança morria de medo de que a usina nuclear de Angra dos Reis causasse um desastre ambiental. Meu temor era corroborado pelo grotesco acidente em Chernobyl, em 1986, que transformou a cidade da antiga União Soviética em um cenário abandonado de filme de terror. Mesmo se as estrelas começassem a cair / E a luz queimasse tudo ao redor / E fosse o fim chegando cedo / Você visse o nosso corpo em chamas! Perdi a conta de quantas vezes escutei esses versos com aquela mistura de temor e arrebatamento.

Quando ainda estava no colégio, prestes a completar o que hoje equivale ao Ensino Fundamental, havia uma Mônica na minha sala. Uma menina completamente diferente de mim: ela do reggae e eu, do rock. No entanto, éramos muito próximos. Também perdi a conta de quantas vezes nós dois ouvimos as pessoas cantando, ao fim do ano letivo, que naquelas férias não iríamos viajar porque o nosso filhinho estava de recuperação.

Teve a vez em que, tentando me aproximar do sexo oposto, utilizei-me dos versos que descreviam com perfeição o olhar da menina que eu queria conquistar. Empunhei o violão e cantei: Veja o sol dessa manhã tão cinza / A tempestade que chega é da cor dos seus olhos / Castanhos. Se deu certo? Nem deu. Além do mais, a música era tão conhecida que praticamente todos os garotos que foram atraídos por aqueles tais olhos castanhos tiveram a mesma ideia.

Para além desse registro afetivo, a leitura foi uma excelente oportunidade de reviver as tardes da minha adolescência na Rock It! Assim que fechei o livro, fui buscando todas as referências que o Dado cita - não somente as musicais, mas também as literárias e cinematográficas. Um garimpo muito valioso, que me revelou influências que haviam passado despercebidas.

As 256 páginas de Dado Villa-Lobos - Memórias de um Legionário são intensas como foi a passagem da Legião Urbana pelo cenário musical brasileiro. É muito bom estender a experiência para além dos ouvidos. Ler sobre aquelas músicas que se tornaram pequenos hinos, que contundentemente questionaram a geração Coca-Cola, é refletir sobre a nossa própria juventude e sobre sua força destrutiva e renovadora. Não há dúvidas: não aprendemos a lição. Precisamos refazer nosso dever de casa. E aí, então, eles vão ver.



sexta-feira, dezembro 18, 2015

Guerra nas Estrelas - O despertar da Força (Star Wars - The Force awakens), de JJ Abrams

Pode ler, rapaziada! Não tem spoilers.

Foi uma longa espera. Literalmente! Era uma quarta-feira, 23h40, sessão de pré-estreia no Cinemark, quando a iluminação foi reduzida e a tela, acesa. O que era para ser 11 minutos de anúncios e trailers (por razões contratuais, a projeção estava marcada para começar 0h01), se estendeu por lamentáveis 50 minutos. Precisamente às 0h41 de quinta-feira, a cartela com aquela frase emblemática - Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante... - apareceu. O público foi ao delírio. Começava Guerra nas Estrelas - O despertar da Força.

Ao meu lado, quem também ia ao delírio era minha pequena princesa rebelde de apenas 7 anos, já iniciada na saga de George Lucas, devidamente indumentada com vestido branco e penteado da Leia no Episódio 4 - os famosos coques-rosquinha. Logo na abertura, que se assemelha muito a tantas outras com as quais nos acostumamos, temos uma pequena amostra de que sim, veremos basicamente a mesma trama de sempre, mas com um adicional de velocidade na edição.

Sem spoilers, o que se pode dizer é que o novo filme da franquia tem tudo para agradar os fãs da série. J J Abrams, calejado com o público geek, tem os paranauê necessários para voltar a realizar a tarefa que a primeira trilogia fez com maestria, mas que foi esquecida pela segunda: contar uma história simples. Nada de tramas mirabolantes, reviravoltas inesperadas e sistemas políticos intergaláticos complexos.

Não é que o argumento seja tão simples assim, nem tampouco mais do mesmo. Tem lá aquela enxurrada de referências, tanto nos diálogos, quanto na ação. No entanto, mérito do diretor, os novos personagens adicionam algo que não vimos anteriormente. Em primeiro lugar, Finn, o Stormtrooper arrependido que larga as armas para fugir, nos dá uma perspectiva inédita e humaniza um personagem que, anteriormente, era apenas decorativo - para citar Michel Temer. BB8, o pequeno dróide esférico, tem a difícil tarefa de substituir o imbatível R2-D2 - e o faz com uma eficiência absurdamente incrível! Impossível não querer ter um boneco dele em casa.

O vilão da história, Kylo Ren, acrescenta outra novidade que, no meu ponto de vista, é o grande trunfo desse primeiro filme da nova trilogia: podemos ver a fisionomia e a expressão do vilão enquanto ele age. Bem diferente do que acontecia com Darth Vader, cuja voz e pantomima eram marcantes por conta da figura estática da máscara. Essa humanização de Kylo Ren proporciona a construção de um antagonista complexo e bastante interessante, interpretado à altura por Adam Driver.

Só gente bonita nessa tal Millennium Falcon!

As cenas de batalha ganharam ângulos bastante interessantes, com passagens de tirar o fôlego. E o mais bacana é que aquelas tomadas do cockpit das X-Wings, com os pilotos em primeiro plano, continuam as mesmas de anos atrás!

No fim das contas, o filme é entretenimento como entretenimento deve ser. Divertido, empolgante e com aquele desfecho que deixa o espectador desesperado para conferir o próximo capítulo.

Curioso foi, ao término da projeção, o comentário de um rapaz, catedrático de Guerra nas Estrelas, sobre o que havia acabado de ver. Meio cabisbaixo, me confessou:

- Achei o filme muito infantil.

Olhei para o lado. Lá estava minha pequena princesa rebelde, completamente excitada por tudo que tinha acabado de ver. Tive que fazer a réplica, inevitável:

- Me diga qual filme de Guerra nas Estrelas não é infantil. Inclusive, não é por isso mesmo que estamos aqui?

Que a Força esteja com vocês.

sexta-feira, outubro 30, 2015

Que horas ela volta?, de Anna Muylaert

No Brasil, esse país repleto de contrastes sociais, no qual a mercantilização da cultura é apenas uma pequena parte da grande mazela, o acesso ao cinema é cada vez mais dificultado. Para se ter uma ideia de como a coisa ficou elitizada por aqui, teve até crítico (?) de site famoso (??) de cinema criticando (né?) promoções com ingressos mais baratos, com medo de ser assaltado dentro da sala de projeção. É sério, teve isso mesmo!

E por que esse nariz de cera (expressão jornalística) antes da resenha (tô adorando esses parênteses todos) de Que horas ela volta? É que, parágrafo inicial posto, a maior parte dos espectadores que vai assistir ao filme é também aquela que faz o papel de antagonista na produção de Anna Muylaert - um antagonismo que, de tão arraigado pelos anos de colonialidade do nosso Brasil varonil, chegou até a passar despercebido por algumas patroas que, após a projeção, viram "nada demais, gente..." - tamanha a incapacidade de se colocarem no lugar  do outro.

O roteiro traz uma Regina Casé irretocável no papel de Val, uma empregada doméstica nordestina que trabalha numa casa da alta burguesia paulista. Como tantas outras, ela abdicou de sua vida (e família) para cuidar das dos outros - inclusive, afastando-se da própria filha. É esta que, logo no começo do filme, chega a São Paulo para prestar vestibular e se instala num colchão no quartinho 2 por 2 que fica na área de serviço da mansão.

A presença da jovem provoca reações das mais diversas intensidades em todos os moradores da casa. Guardadas as devidas proporções, o roteiro de Que horas ela volta acaba lembrando, de leve (até mesmo porque a intenção é essa), o magistral e inesquecível Teorema, de Pasolini (tava sentindo falta de uns parênteses). Se no filme italiano o drama é psico-erótico, na produção brasileira é psicossocial.

Não tive uma Val, mas tive camisa dos Ramones lavada e passada por outrem.

O filme emociona ao mesmo tempo em que incomoda - porque nos faz pensar muito sobre essa realidade da qual a gente, inegavelmente, de maneiras obtusas até, faz parte. Na verdade, emociona e incomoda quem tem um mínimo de capacidade de análise social, o que anda em falta por aí. Mas vá lá, em épocas na qual as pessoas reclamam porque as empregadas domésticas estão ganhando mais direitos (agora reclamam do tal cadastro para recolher FGTS), não deixa de ser um filme importante. Bom para espanar a poeira (sem trocadilhos) daquele canto do cérebro que tem a ver com a capacidade de enxergar o outro.

Cinema pode ser uma boa faxina vez em quando.

quarta-feira, agosto 12, 2015

O sal da Terra, de Wim Wenders


Wim Wenders, um dos meus diretores prediletos, resolveu fazer um filme sobre um dos artistas prediletos de uma esmagadora maioria de terráqueos, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. A nova produção do cineasta alemão, em parceria com o filho da personagem documentada, acerta em cheio ao se debruçar não no conteúdo, mas nas histórias - e bota história nisso - por trás de cada registro imagético feito por um sujeito que tem o olhar, sim, diferenciado. Eu preciso, antes de continuar, deixar isto claro, sob pena de não ser mal interpretado: não gosto, tanto assim, das fotografias do Sebastião Salgado.

Isto posto, me causou bastante estranheza, logo na abertura do filme, Wenders dizer que comprou por um punhado de dólares, aliás, muitos dólares, uma fotografia de seu objeto documentado para pendurar na parede de casa. Começar seu documentário assim foi um erro.

Continuo com o que pode parecer mero acinte, mas garanto que não é: a obra do fotógrafo brasileiro tem muito mais apelo referencial do que propriamente artístico. Óbvio que eu sei que foto não é estética na essência. Esta vem depois, com o apuro da sensibilidade. Mas esses registros instantâneos que Sebastião Salgado faz, ainda que singulares, têm sua força estética muito mais concentrada na documentação do real.

Por exemplo, quando a lente dele focaliza a dura situação dos trabalhadores brasileiros, ali há mais apresentação do que representação. Apresenta a ideia de uma forma como poucos conseguem, e aí é que está o talento desigual dele. Admito que é uma questão minha comigo mesmo: enxergo um Salgado mais fotojornalista do que artista. E esse é o Salgado que quase admiro, ou melhor, que admiro de vez em quando: o fotojornalista de olhar brutalmente referencial. Que se esmera em um tema e busca realizar projetos a longo prazo, que geram livros - ao invés de mostras ou exposições de curta duração, daquelas que geram filas em centros culturais. Não existe aí uma diferença enorme para o que se proporia uma dita fotografia de arte?

Taí um Salgado  mais artístico que referencial. Bacana!
Posso, então, repetir que Wenders acertou em cheio em documentar o olhar, e não o suporte para o qual se olha. A câmera vai atrás da experiência do fotógrafo. E aí, Sebastião Salgado vira uma personagem das mais interessantes. É muito bacana ver como o humanismo permeia toda a vida de uma pessoa que abriu mão do conforto e da segurança, pessoal e financeira, para buscar novos olhares e novos ângulos para velhas questões.

Não comentarei aqui o trocadilho infame e meio ridículo que dá nome ao filme. Precisava mesmo disso que o Sebastião é salgado, é o sal da Terra? A expressão é retirada da bíblia, numa passagem que diz que os seres humanos são o sal da Terra. Então, podemos dizer que esse deus aí errou a mão e salgou a Terra demais. Mas isso é papo para outra mesa de bar...

quinta-feira, junho 04, 2015

Mister Lonely, de Harmony Korine

É bastante preocupante vasculhar a rede e notar que a grande maioria das resenhas sobre Mister Lonely - um dos filmes mais, digamos, palatáveis de Harmony Korine - é depreciativa. Os textos alegam que o filme não tem pé nem cabeça, que é uma perda de tempo, que é uma enxurrada de imagens sem propósito, que é isso e que é aquilo. Chega a ser triste e patético constatar que a opinião corrente é de que o cinema precisa ser entretenimento o tempo inteiro, com aquela estrutura narrativa e dramática linear, insossa.

 Esse prólogo aí em cima funciona quase como um desabafo diante dessa incapacidade de se pensar o cinema como suporte artístico, como linguagem, como expressão. Ninguém tem a obrigação de gostar de um filme, ou do que quer que seja - pois, como dizia nosso amigo Kant lá nos idos do século 18, faz tempo, a experiência estética acontece na esfera subjetiva, e por isso não há garantias racionais que possam sustentar sua fruição por todos nós, animais dotados de diferentes estruturas para o ajuizamento de gosto. Por isso, seria mais justo analisar Mister Lonely como produção, e não como produto, como fizeram os colega tudo supracitado.

Isto posto, volto a bater na tecla que Korine é tipo um gênio incompreendido. Com um roteiro bem mais maduro do que Kids e uma direção muito mais segura do que em Gummo, ele faz de seu Mister Lonely uma ótima provocação a diversos conceitos, que vão do valor de culto midiático (a mídia que fez chacota dele, lembra?) até o valor de culto religioso, passando por temas mais complexos, como amor, arte e morte. Dessa vez, conta com as luxuosas participações de dois estupendos diretores, que assim como ele são habitués do underground: Werner Herzog  e Leos Carax.

Acompanhamos a bela história de um artista de rua que faz imitação de Michael Jackson em Paris. Solitário (né?), sem falar o idioma local e com contas a pagar, procura se aperfeiçoar o quanto pode, e vai se mantendo com apresentações em asilos. Um dia, conhece uma artista de rua que também faz imitação - a dela, de Marilyn Monroe. Diante da química inevitável entre os dois, ela o convida para ir até uma comunidade onde todos os habitantes são, também, artistas imitadores de celebridades. Lá estão Abraham Lincoln, Madonna, os Três Patetas, o Papa, James Dean, Sammy Davis Jr., Chapeuzinho Vermelho e outros. O líder da comunidade, e marido de Marilyn, é ninguém menos que Charles Chaplin. E os dois tem uma filha, uma pequena cover de Shirley Temple. Juntos, eles trabalham arduamente para apresentar o maior espetáculo de todos os tempos.

Paralelamente a essa história, um padre - interpretado magistralmente pelo monstro, em todos os sentidos, bons e maus, melhores os maus, inclusive, por Werner Herzog - viaja a América do Sul em missões cristãs. Em determinado ponto, ao sobrevoar uma vila humilde no meio da floresta para jogar alimentos e mantimentos, uma das freiras que o ajuda acaba escorregando do avião e caindo. Milagrosamente, sobrevive. A partir de então, ele obriga suas freirinhas, numa provocação épica ao seriado The flying nun, a pular sem paraquedas como exercício de fé. Aí, muitos daqueles que escreveram espinafrando o filme de Korine reclamaram que uma história não tem nada a ver com a outra. Que é só para encher linguiça. Só que não é bem assim.

Who's bad?

A narrativa de Mister Lonely fala, principalmente, sobre não se reconhecer como indivíduo, sobre não se encaixar, sobre não pertencer a lugar nenhum, mesmo quando você acha que encontrou o seu quinhão - assunto caro ao diretor. O artista, por excelência, é aquele que opera um pequeno milagre toda vez que sobe ao palco. Da mesma maneira que as freiras colocam em xeque sua fé quando pulam de um avião sem paraquedas, um imitador também coloca a sua toda vez que se apresenta. Querer acreditar que aquela figura na sua frente é o Michael Jackson, mesmo sabendo que não se trata da realidade, é um exercício de fé. Cego e comovente, carregado de simbolismo, e que funciona metalinguisticamente quando se assiste ao filme.

Bom, o desfecho do argumento (e não do filme, leiam bem) é simplesmente arrebatador. Intenso, mas carregado de lirismo e simplicidade, marcas registradas de Korine. Algumas cenas permanecem na memória após a projeção, tamanha a capacidade do diretor em criar clima, textura e fantasia. Uma delas é esta abaixo, a sequência em que Chapeuzinho Vermelho entoa uma canção folclórica - cuja letra é de arrepiar os pentelhos - enquanto caminha pela linha do trem.


domingo, maio 10, 2015

Gummo, de Harmony Korine

Harmony Korine ainda era um moleque skatista de Nova York quando escreveu, aos 19 anos, o roteiro de Kids, clássico hiper-realista dirigido por Larry Clark que deixou muitos adultos de cabelos em pé e semanas sem dormir direito de tão alarmante e assustador que era. Depois disso, com certa notoriedade no meio underground, o rapazola juntou uma grana e resolveu estrear como diretor de longas. E aí fez essa produção desconcertante e escalafobética, ainda que linda e cheia de lirismo, chamada Gummo, que o projetou de vez. Para o bem e para o mal.

Para o bem > Foi o primeiro (e talvez o único, teria que pesquisar) diretor de fora da Europa a ser convidado para integrar o movimento Dogma 95, de Lars Von Trier. O enfant terrible dinamarquês cedeu seu mega estúdio particular para que ele acabesse Julien Donkey-Boy, ou Dogma #6. Tem admiradores e colaboradores do quilate de Werner Herzog e Gus Van Sant. E já compôs música com a Björk - só isso.

Para o mal > Por conta de seu temperamento nada convencional, quase disfuncional, e por causa da pouca idade quando os holofotes se voltaram a ele, Korine foi meio que massacrado e hostilizado pela grande mídia em troca de audiência. Mídia esta que não deu a devida atenção a seus filmes, de linguagem e montagem experimentais. Essa campanha vergonhosa pode ser conferida no YouTube, com as passagens do diretor pelo programa de David Letterman.

Gummo é experimental até o talo. Filmado de forma crua, interpretado da mesma maneira e todo trabalhado na estética da miséria. O roteiro fala sobre as vidas sem rumo de personagens bizarros que vivem em uma cidade do interior dos Estados Unidos recém devastada por um tornado. O diferencial está na forma de abordar tudo isso. Por mais que o que se veja seja explícito e chocante - tipo animais sendo executados e vendidos a um açougueiro, um jovem que ganha dinheiro usando a irmã com síndrome de Down como prostituta, dois irmãos caindo na porrada de verdade até sangrarem, menores de idade usando drogas e crianças se comportando de maneira muito, mas muito errada - a direção de Korine faz com que tudo esteja no lugar.

A escolha de dar lirismo a tudo isso, a todo esse mundo sujo e podre, é perfeita. Se manifesta, por exemplo, na cena em que um dos jovens que faz sexo com a prostituta supracitada dá uma piscadela a ela quando vai embora, deixando nítida uma relação de afeto em meio àquele deserto. Além disso, o texto de Korine é fantástico, e vai reforçando seu argumento, bastante contundente, ao longo da projeção, sem precisar de um encadeamento lógico e sequencial. É uma sociedade que não precisa necessariamente de uma calamidade para se ver chafurdada na lama. A calamidade é a própria sociedade, a maneira como ela se estrutura e traça seus caminhos. Isso fica mais claro ainda quando sabemos que muitas das cenas foram filmadas com pessoas reais, nas ruas da cidade natal do diretor, em uma local onde nenhuma catástrofe natural de fato ocorreu.

A famosa cena da banheira! Notem o bacon colado na parede...

Dá para entender ao final da projeção por que Herzog e Van Sant ficaram tão impressionados com Korine, a ponto do primeiro inclusive participar de seus filmes seguintes (que em breve serão devidamente resenhados por aqui). Mal e porcamente comparando, ouso dizer que ele é o Terrence Malick do underground, casando como poucos imagem, som e texto para contextualizar uma história - o que é bem mais do que simplesmente contar uma história. Dá para entender também porque tanta gente odeia seus filmes e o reduz, injustamente, a um niilista cinematográfico. Korine propõe uma experiência audiovisual nada convencional e de recompensa não muito satisfatória se o que se busca é o entretenimento.

Um diretor de linguagem diferenciada. E não há dúvida de que é disso que precisamos cada vez mais.

segunda-feira, maio 04, 2015

Cineminha com a Duda > História sem fim

Vejam só que luxo, senhoras e senhores, donairosos e garbosos leitores deste blog: apresento a vocês a visão de uma menina de sete anos sobre um filme da nossa infância (isso vale se você é balzaquiano feito eu), uma produção de 1984 - ah meus tempos... Diz aí, Dudinha, o que você achou.

Eu vi esse filme no videogame do meu pai, no Netflix. O nome é História sem fim. Eu vi esse filme com meu pai e minha mãe. É sobre um garoto e a mãe dele morreu. Ele ia para a escola quando três garotos apareceram no caminho e perseguiram ele. E ele foi acabar na loja de livros. Aí ele viu um idoso lendo um livro chamado História sem fim e o garoto pegou o livro e foi até o sótão da escola. Ele abriu e começou a ler uma história sem fim. Mas ele não sabia que tinha entrado na história do livro.

O personagem que eu mais gostei foi o dragão da sorte, mas ele parece um cachorro comprido. Eu achei ele fofo e queria ter um igual para poder voar. A parte que eu mais gostei foi a que o garoto voou nas nuvens com o dragão da sorte. O personagem que eu menos gostei foi aquele bicho que morava numa caverna. Ele tinha orelha pontuda, gostava de estudar medidas e coisas. E a outra mulher que gostava de fazer as comidas. Achei eles muito feios. A parte que eu menos gostei foi a parte que os três garotos jogaram o menino novo da escola na lata de lixo. Tem outra parte que eu mais gostei, e essa parte foi a que o dragão da sorte joga os três garotos que estavam implicando com o menino mais novo da escola na mesma lata de lixo. Essa parte foi muito boa!

Eu achei a Imperatriz muito bonita!

É um filme muito antigo e o preferido da minha mãe. Eu também vi mais dois filmes nesse dia, mas esse foi o que eu mais gostei de todos. Eu achei a cena que mostra a terra Fantasia uma cena bonita, com muitos personagens estranhos. Tinha um que era feito de rocha e era gigaaaaaaaaaaaaaaaaaaante. Eu gostei muito desse personagem.

Eu acho esse filme maravilhoso. E que vale 10 vezes muito de ver.

sábado, maio 02, 2015

Magia ao luar, de Woody Allen

O velho Allen sabe mesmo fazer cinema. Isso já estava comprovado faz tempo. Parece, no entanto, que a idade lhe caiu muito bem. Sem aquela pretensão anterior de fundamentar seus filmes com inesgotáveis referências intelectuais, uma vez que não precisa mais provar nada a ninguém, suas produções têm a despretensão que tão bem faz à sétima arte. Em Magia ao luar, ele tem as luxuosas participações de duas grandes estrelas, igualmente despretensiosas: Colin Firth e seu sotaque refinadamente britânico e Emma Stone - na minha singela opinião, uma das atrizes mais fodas da atualidade.

Assumidamente (estranho ter que usar este advérbio, mas vá lá...) ateu, cético de carteirinha, Allen conta uma divertida história sobre uma moça que, ao que parece, tem poderes de ler o passado e o futuro. Quando uma rica família aristocrata se encanta com seus poderes sobrenaturais, a ponto de querer investir muito dinheiro nisso, um mágico especialista em truques de ilusionismo é chamado para tentar verificar se há uma emboscada por trás de tais dons adivinhatórios.

"Madame lê passada, presenta e futura... e faz as unhas."

O feijão com arroz para uma boa diversão está lá. Personagens interessantes, trilha sonora caprichada, figurinos nos trinques e ótimos diálogos, apoiados nas atuações irrepreensíveis dos dois protagonistas. Firth funciona como um alter ego de Allen, colocando a racionalidade combativa do diretor a favor da comédia de costumes.

Ponto para Allen!

sexta-feira, maio 01, 2015

Pelo malo, de Mariana Rondón

A Venezuela midiática é famosa por duas coisas: mulheres bonitas e Hugo Chávez. As primeiras, estão sempre em voga por conta dos concursos de misses. O segundo... Bom, foi figura com cadeira cativa nos noticiários do mundo inteiro - mais pelos erros do que pelos acertos, visto que tinha essa mania incorrigível de transformar pequenos êxitos em grandes fracassos. Apesar da máquina audiovisual venezuelana ter trabalhado incessantemente, enquanto o líder bolivariano era vivo, para construir a imagem de um grande Bonaparte, a sétima arte quase não foi acionada (salvo alguns documentários, como A revolução não será televisionada) para esse fim. Logo, é desalumiada essa relação das plateias latinas com o cinema venezuelano.

Isto posto, Pelo malo é um grande êxito. Lançado pouco tempo após a morte de Chávez, é capaz de contar uma história e contextualizá-la sem se tornar panfletário. E faz isso debruçado sobre um argumento que questiona valores arraigados na maioria das economias periféricas. Escorado na estética da miséria, o filme da diretora Mariana Rondón fala sobre sexualidade, racismo, patriarcalismo e subdesenvolvimento. O roteiro usa os cabelos crespos de um menino de nove anos como signo de uma sociedade que não enxerga o próprio umbigo e é incapaz de reconhecer a própria imagem. Lembra alguma coisa, Brasil?

Qual é o pente que te penteia?

Junior vive em um bairro pobre de Caracas. Sua mãe, solteira, precisa dar conta de criar também um bebê. Tenta, a todo o custo, conseguir novamente um emprego de segurança particular numa grande empresa, de onde foi afastada por indisciplina. Junior vive vagando pela comunidade onde mora, sem ter muito o que fazer. Sonha em ser cantor. E para isso, cisma que precisa alisar os cabelos seja lá como isso tiver que ser feito: sabão, óleo ou chapinha. Ele aprendeu que cabelo crespo é cabelo ruim - como mostra um programa na TV no qual uma moça negra repete exatamente esse discurso, enquanto luta pateticamente para alisar os próprios cabelos. Franzino e introspectivo, Junior precisa lidar com a personalidade inconstante de sua mãe, que acredita que ele está doente, "tornando-se um homossexual" - o que a deixa, além de apavorada, enfurecida.

Samuel Zambrano, o protagonista, enche a tela de franqueza e transparência com uma atuação emocionante e vibrante, como poucas crianças conseguem fazer. Samantha Castillo, atriz que interpreta sua mãe, está em plena sintonia com o ator mirim. Ela cumpre a difícil tarefa de dar vida a uma personagem bastante complexa, cuja beleza é áspera e dolorosamente sensual. A cena final, com os dois em plano fechado, é de nocautear qualquer um. Magnificamente executada e capaz de deixar um nó na garganta que dura por algum tempo após os créditos finais.

Que a Venezuela possa nos dar mais desses. Com ou sem regimes bonapartistas.