A mim, música sempre foi textura. Comecei a tocar guitarra na época em
que os heróis do instrumento, de cabelos compridos revoltos e calças de couro
apertadas, executavam arpejos em velocidade extrema. Muita técnica, pouca
textura. Eu estava mais interessado em barulhos estranhos. Meus heróis sempre
foram aqueles que conseguiam fazer com que a guitarra não soasse simplesmente
como um instrumento de corda amplificado, e sim como uma agulha que vai
entrelaçando timbres, tons, notas, semínimas.
Contrariando a massa, que ovacionava Malmsteen, Satriani e Vai, a santíssima trindade àquela época, eu queria ser diferente. Gostava de Pixies, Sonic Youth e Dinosaur Jr. - além dos representantes da MPB, Música Popular Britânica, como Clash, Joy Division, Specials e tantos outros. De gente de verdade que tocava guitarra para fazer barulho bom. Eu preferia, por exemplo, o Dado Villa-Lobos.
Contrariando a massa, que ovacionava Malmsteen, Satriani e Vai, a santíssima trindade àquela época, eu queria ser diferente. Gostava de Pixies, Sonic Youth e Dinosaur Jr. - além dos representantes da MPB, Música Popular Britânica, como Clash, Joy Division, Specials e tantos outros. De gente de verdade que tocava guitarra para fazer barulho bom. Eu preferia, por exemplo, o Dado Villa-Lobos.
Parte da minha adolescência foi vivida na saudosa loja que o
guitarrista da Legião e o baixista da Plebe Rude - outra banda que sempre
admirei -, André X, mantinham numa galeria do Leblon off-Manoel Carlos. Foi lá,
aos 13 anos, que adquiri o meu primeiro disco do Pavement, Slanted and Enchanted, de 1991 – o que me custou toda a mesada,
algo em torno de NCz$ 1.500,00. A Rock it! era um dos únicos lugares onde eu
podia trocar uma ideia sobre as bandas e artistas dos quais gostava. Foi uma
época de fruição quase solitária e de extrema mudança de paradigmas.
Por isso, ler o livro que o meu querido e estimado amigo Felipe Demier
ajudou a dar corpo, a autobiografia do guitarrista de uma das minhas bandas
prediletas, foi uma jornada profunda a um passado que ajudou a construir o meu
caráter e a dar forma ao que sou hoje. Li Dado
Villa-Lobos - Memórias de um Legionário, da editora Mauad, em uma semana de
folga do trabalho. Foi a minha viagem de férias.
A leitura é como uma visita íntima aos ídolos, que gentil e
humildemente descem do oratório e se mostram tão humanos quanto o leitor. O
livro permite acompanhar o surgimento do rock de Brasília, os percalços
políticos e econômicos que influenciaram a produção cultural do país, o
processo criativo de quem tentava remar contra a corrente e as relações humanas
que se estabeleceram dentro desse caldeirão que continua em ebulição. É cômico,
denso, tenso, emocionante e até deprimente em certas passagens. Senti-me tão
perto do Dado, que é como se tivesse estado numa mesa de bar dividindo uma
cerveja gelada com ele e os outros dois autores - além do Felipe, o Romulo
Mattos, outro cara bom de papo.
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| Olha a camisa do Bonfá ali. Sempre relacionei as duas bandas. |
Página a página, ou seja, disco a disco, fui entendo como minha predileção pela guitarra do Dado, com suas texturas diversas e elegantes, fazia sentido. Perpassar, dessa espécie de bastidores, todas as etapas - composição, ensaio, gravação, lançamento, apresentações - de cada álbum da Legião Urbana foi uma possibilidade inestimável de entender por que a música pode ter essa força avassaladora na vida de muita gente.
Escrevo isso porque Legião Urbana é parte indelével da minha vida.
Quando criança morria de medo de que a usina nuclear de Angra dos Reis causasse
um desastre ambiental. Meu temor era corroborado pelo grotesco acidente em
Chernobyl, em 1986, que transformou a cidade da antiga União Soviética em um
cenário abandonado de filme de terror. Mesmo
se as estrelas começassem a cair / E a luz queimasse tudo ao redor / E fosse o
fim chegando cedo / Você visse o nosso corpo em chamas! Perdi a conta de
quantas vezes escutei esses versos com aquela mistura de temor e arrebatamento.
Quando ainda estava no colégio, prestes a completar o que hoje equivale
ao Ensino Fundamental, havia uma Mônica na minha sala. Uma menina completamente
diferente de mim: ela do reggae e eu, do rock. No entanto, éramos muito
próximos. Também perdi a conta de quantas vezes nós dois ouvimos as pessoas
cantando, ao fim do ano letivo, que naquelas férias não iríamos viajar porque o
nosso filhinho estava de recuperação.
Teve a vez em que, tentando me aproximar do sexo oposto, utilizei-me
dos versos que descreviam com perfeição o olhar da menina que eu queria
conquistar. Empunhei o violão e cantei: Veja
o sol dessa manhã tão cinza / A tempestade que chega é da cor dos seus olhos /
Castanhos. Se deu certo? Nem deu. Além do mais, a música era tão conhecida
que praticamente todos os garotos que foram atraídos por aqueles tais olhos
castanhos tiveram a mesma ideia.
Para além desse registro afetivo, a leitura foi uma excelente
oportunidade de reviver as tardes da minha adolescência na Rock It! Assim que
fechei o livro, fui buscando todas as referências que o Dado cita - não somente
as musicais, mas também as literárias e cinematográficas. Um garimpo muito
valioso, que me revelou influências que haviam passado despercebidas.


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