quinta-feira, junho 04, 2015

Mister Lonely, de Harmony Korine

É bastante preocupante vasculhar a rede e notar que a grande maioria das resenhas sobre Mister Lonely - um dos filmes mais, digamos, palatáveis de Harmony Korine - é depreciativa. Os textos alegam que o filme não tem pé nem cabeça, que é uma perda de tempo, que é uma enxurrada de imagens sem propósito, que é isso e que é aquilo. Chega a ser triste e patético constatar que a opinião corrente é de que o cinema precisa ser entretenimento o tempo inteiro, com aquela estrutura narrativa e dramática linear, insossa.

 Esse prólogo aí em cima funciona quase como um desabafo diante dessa incapacidade de se pensar o cinema como suporte artístico, como linguagem, como expressão. Ninguém tem a obrigação de gostar de um filme, ou do que quer que seja - pois, como dizia nosso amigo Kant lá nos idos do século 18, faz tempo, a experiência estética acontece na esfera subjetiva, e por isso não há garantias racionais que possam sustentar sua fruição por todos nós, animais dotados de diferentes estruturas para o ajuizamento de gosto. Por isso, seria mais justo analisar Mister Lonely como produção, e não como produto, como fizeram os colega tudo supracitado.

Isto posto, volto a bater na tecla que Korine é tipo um gênio incompreendido. Com um roteiro bem mais maduro do que Kids e uma direção muito mais segura do que em Gummo, ele faz de seu Mister Lonely uma ótima provocação a diversos conceitos, que vão do valor de culto midiático (a mídia que fez chacota dele, lembra?) até o valor de culto religioso, passando por temas mais complexos, como amor, arte e morte. Dessa vez, conta com as luxuosas participações de dois estupendos diretores, que assim como ele são habitués do underground: Werner Herzog  e Leos Carax.

Acompanhamos a bela história de um artista de rua que faz imitação de Michael Jackson em Paris. Solitário (né?), sem falar o idioma local e com contas a pagar, procura se aperfeiçoar o quanto pode, e vai se mantendo com apresentações em asilos. Um dia, conhece uma artista de rua que também faz imitação - a dela, de Marilyn Monroe. Diante da química inevitável entre os dois, ela o convida para ir até uma comunidade onde todos os habitantes são, também, artistas imitadores de celebridades. Lá estão Abraham Lincoln, Madonna, os Três Patetas, o Papa, James Dean, Sammy Davis Jr., Chapeuzinho Vermelho e outros. O líder da comunidade, e marido de Marilyn, é ninguém menos que Charles Chaplin. E os dois tem uma filha, uma pequena cover de Shirley Temple. Juntos, eles trabalham arduamente para apresentar o maior espetáculo de todos os tempos.

Paralelamente a essa história, um padre - interpretado magistralmente pelo monstro, em todos os sentidos, bons e maus, melhores os maus, inclusive, por Werner Herzog - viaja a América do Sul em missões cristãs. Em determinado ponto, ao sobrevoar uma vila humilde no meio da floresta para jogar alimentos e mantimentos, uma das freiras que o ajuda acaba escorregando do avião e caindo. Milagrosamente, sobrevive. A partir de então, ele obriga suas freirinhas, numa provocação épica ao seriado The flying nun, a pular sem paraquedas como exercício de fé. Aí, muitos daqueles que escreveram espinafrando o filme de Korine reclamaram que uma história não tem nada a ver com a outra. Que é só para encher linguiça. Só que não é bem assim.

Who's bad?

A narrativa de Mister Lonely fala, principalmente, sobre não se reconhecer como indivíduo, sobre não se encaixar, sobre não pertencer a lugar nenhum, mesmo quando você acha que encontrou o seu quinhão - assunto caro ao diretor. O artista, por excelência, é aquele que opera um pequeno milagre toda vez que sobe ao palco. Da mesma maneira que as freiras colocam em xeque sua fé quando pulam de um avião sem paraquedas, um imitador também coloca a sua toda vez que se apresenta. Querer acreditar que aquela figura na sua frente é o Michael Jackson, mesmo sabendo que não se trata da realidade, é um exercício de fé. Cego e comovente, carregado de simbolismo, e que funciona metalinguisticamente quando se assiste ao filme.

Bom, o desfecho do argumento (e não do filme, leiam bem) é simplesmente arrebatador. Intenso, mas carregado de lirismo e simplicidade, marcas registradas de Korine. Algumas cenas permanecem na memória após a projeção, tamanha a capacidade do diretor em criar clima, textura e fantasia. Uma delas é esta abaixo, a sequência em que Chapeuzinho Vermelho entoa uma canção folclórica - cuja letra é de arrepiar os pentelhos - enquanto caminha pela linha do trem.


domingo, maio 10, 2015

Gummo, de Harmony Korine

Harmony Korine ainda era um moleque skatista de Nova York quando escreveu, aos 19 anos, o roteiro de Kids, clássico hiper-realista dirigido por Larry Clark que deixou muitos adultos de cabelos em pé e semanas sem dormir direito de tão alarmante e assustador que era. Depois disso, com certa notoriedade no meio underground, o rapazola juntou uma grana e resolveu estrear como diretor de longas. E aí fez essa produção desconcertante e escalafobética, ainda que linda e cheia de lirismo, chamada Gummo, que o projetou de vez. Para o bem e para o mal.

Para o bem > Foi o primeiro (e talvez o único, teria que pesquisar) diretor de fora da Europa a ser convidado para integrar o movimento Dogma 95, de Lars Von Trier. O enfant terrible dinamarquês cedeu seu mega estúdio particular para que ele acabesse Julien Donkey-Boy, ou Dogma #6. Tem admiradores e colaboradores do quilate de Werner Herzog e Gus Van Sant. E já compôs música com a Björk - só isso.

Para o mal > Por conta de seu temperamento nada convencional, quase disfuncional, e por causa da pouca idade quando os holofotes se voltaram a ele, Korine foi meio que massacrado e hostilizado pela grande mídia em troca de audiência. Mídia esta que não deu a devida atenção a seus filmes, de linguagem e montagem experimentais. Essa campanha vergonhosa pode ser conferida no YouTube, com as passagens do diretor pelo programa de David Letterman.

Gummo é experimental até o talo. Filmado de forma crua, interpretado da mesma maneira e todo trabalhado na estética da miséria. O roteiro fala sobre as vidas sem rumo de personagens bizarros que vivem em uma cidade do interior dos Estados Unidos recém devastada por um tornado. O diferencial está na forma de abordar tudo isso. Por mais que o que se veja seja explícito e chocante - tipo animais sendo executados e vendidos a um açougueiro, um jovem que ganha dinheiro usando a irmã com síndrome de Down como prostituta, dois irmãos caindo na porrada de verdade até sangrarem, menores de idade usando drogas e crianças se comportando de maneira muito, mas muito errada - a direção de Korine faz com que tudo esteja no lugar.

A escolha de dar lirismo a tudo isso, a todo esse mundo sujo e podre, é perfeita. Se manifesta, por exemplo, na cena em que um dos jovens que faz sexo com a prostituta supracitada dá uma piscadela a ela quando vai embora, deixando nítida uma relação de afeto em meio àquele deserto. Além disso, o texto de Korine é fantástico, e vai reforçando seu argumento, bastante contundente, ao longo da projeção, sem precisar de um encadeamento lógico e sequencial. É uma sociedade que não precisa necessariamente de uma calamidade para se ver chafurdada na lama. A calamidade é a própria sociedade, a maneira como ela se estrutura e traça seus caminhos. Isso fica mais claro ainda quando sabemos que muitas das cenas foram filmadas com pessoas reais, nas ruas da cidade natal do diretor, em uma local onde nenhuma catástrofe natural de fato ocorreu.

A famosa cena da banheira! Notem o bacon colado na parede...

Dá para entender ao final da projeção por que Herzog e Van Sant ficaram tão impressionados com Korine, a ponto do primeiro inclusive participar de seus filmes seguintes (que em breve serão devidamente resenhados por aqui). Mal e porcamente comparando, ouso dizer que ele é o Terrence Malick do underground, casando como poucos imagem, som e texto para contextualizar uma história - o que é bem mais do que simplesmente contar uma história. Dá para entender também porque tanta gente odeia seus filmes e o reduz, injustamente, a um niilista cinematográfico. Korine propõe uma experiência audiovisual nada convencional e de recompensa não muito satisfatória se o que se busca é o entretenimento.

Um diretor de linguagem diferenciada. E não há dúvida de que é disso que precisamos cada vez mais.

segunda-feira, maio 04, 2015

Cineminha com a Duda > História sem fim

Vejam só que luxo, senhoras e senhores, donairosos e garbosos leitores deste blog: apresento a vocês a visão de uma menina de sete anos sobre um filme da nossa infância (isso vale se você é balzaquiano feito eu), uma produção de 1984 - ah meus tempos... Diz aí, Dudinha, o que você achou.

Eu vi esse filme no videogame do meu pai, no Netflix. O nome é História sem fim. Eu vi esse filme com meu pai e minha mãe. É sobre um garoto e a mãe dele morreu. Ele ia para a escola quando três garotos apareceram no caminho e perseguiram ele. E ele foi acabar na loja de livros. Aí ele viu um idoso lendo um livro chamado História sem fim e o garoto pegou o livro e foi até o sótão da escola. Ele abriu e começou a ler uma história sem fim. Mas ele não sabia que tinha entrado na história do livro.

O personagem que eu mais gostei foi o dragão da sorte, mas ele parece um cachorro comprido. Eu achei ele fofo e queria ter um igual para poder voar. A parte que eu mais gostei foi a que o garoto voou nas nuvens com o dragão da sorte. O personagem que eu menos gostei foi aquele bicho que morava numa caverna. Ele tinha orelha pontuda, gostava de estudar medidas e coisas. E a outra mulher que gostava de fazer as comidas. Achei eles muito feios. A parte que eu menos gostei foi a parte que os três garotos jogaram o menino novo da escola na lata de lixo. Tem outra parte que eu mais gostei, e essa parte foi a que o dragão da sorte joga os três garotos que estavam implicando com o menino mais novo da escola na mesma lata de lixo. Essa parte foi muito boa!

Eu achei a Imperatriz muito bonita!

É um filme muito antigo e o preferido da minha mãe. Eu também vi mais dois filmes nesse dia, mas esse foi o que eu mais gostei de todos. Eu achei a cena que mostra a terra Fantasia uma cena bonita, com muitos personagens estranhos. Tinha um que era feito de rocha e era gigaaaaaaaaaaaaaaaaaaante. Eu gostei muito desse personagem.

Eu acho esse filme maravilhoso. E que vale 10 vezes muito de ver.

sábado, maio 02, 2015

Magia ao luar, de Woody Allen

O velho Allen sabe mesmo fazer cinema. Isso já estava comprovado faz tempo. Parece, no entanto, que a idade lhe caiu muito bem. Sem aquela pretensão anterior de fundamentar seus filmes com inesgotáveis referências intelectuais, uma vez que não precisa mais provar nada a ninguém, suas produções têm a despretensão que tão bem faz à sétima arte. Em Magia ao luar, ele tem as luxuosas participações de duas grandes estrelas, igualmente despretensiosas: Colin Firth e seu sotaque refinadamente britânico e Emma Stone - na minha singela opinião, uma das atrizes mais fodas da atualidade.

Assumidamente (estranho ter que usar este advérbio, mas vá lá...) ateu, cético de carteirinha, Allen conta uma divertida história sobre uma moça que, ao que parece, tem poderes de ler o passado e o futuro. Quando uma rica família aristocrata se encanta com seus poderes sobrenaturais, a ponto de querer investir muito dinheiro nisso, um mágico especialista em truques de ilusionismo é chamado para tentar verificar se há uma emboscada por trás de tais dons adivinhatórios.

"Madame lê passada, presenta e futura... e faz as unhas."

O feijão com arroz para uma boa diversão está lá. Personagens interessantes, trilha sonora caprichada, figurinos nos trinques e ótimos diálogos, apoiados nas atuações irrepreensíveis dos dois protagonistas. Firth funciona como um alter ego de Allen, colocando a racionalidade combativa do diretor a favor da comédia de costumes.

Ponto para Allen!

sexta-feira, maio 01, 2015

Pelo malo, de Mariana Rondón

A Venezuela midiática é famosa por duas coisas: mulheres bonitas e Hugo Chávez. As primeiras, estão sempre em voga por conta dos concursos de misses. O segundo... Bom, foi figura com cadeira cativa nos noticiários do mundo inteiro - mais pelos erros do que pelos acertos, visto que tinha essa mania incorrigível de transformar pequenos êxitos em grandes fracassos. Apesar da máquina audiovisual venezuelana ter trabalhado incessantemente, enquanto o líder bolivariano era vivo, para construir a imagem de um grande Bonaparte, a sétima arte quase não foi acionada (salvo alguns documentários, como A revolução não será televisionada) para esse fim. Logo, é desalumiada essa relação das plateias latinas com o cinema venezuelano.

Isto posto, Pelo malo é um grande êxito. Lançado pouco tempo após a morte de Chávez, é capaz de contar uma história e contextualizá-la sem se tornar panfletário. E faz isso debruçado sobre um argumento que questiona valores arraigados na maioria das economias periféricas. Escorado na estética da miséria, o filme da diretora Mariana Rondón fala sobre sexualidade, racismo, patriarcalismo e subdesenvolvimento. O roteiro usa os cabelos crespos de um menino de nove anos como signo de uma sociedade que não enxerga o próprio umbigo e é incapaz de reconhecer a própria imagem. Lembra alguma coisa, Brasil?

Qual é o pente que te penteia?

Junior vive em um bairro pobre de Caracas. Sua mãe, solteira, precisa dar conta de criar também um bebê. Tenta, a todo o custo, conseguir novamente um emprego de segurança particular numa grande empresa, de onde foi afastada por indisciplina. Junior vive vagando pela comunidade onde mora, sem ter muito o que fazer. Sonha em ser cantor. E para isso, cisma que precisa alisar os cabelos seja lá como isso tiver que ser feito: sabão, óleo ou chapinha. Ele aprendeu que cabelo crespo é cabelo ruim - como mostra um programa na TV no qual uma moça negra repete exatamente esse discurso, enquanto luta pateticamente para alisar os próprios cabelos. Franzino e introspectivo, Junior precisa lidar com a personalidade inconstante de sua mãe, que acredita que ele está doente, "tornando-se um homossexual" - o que a deixa, além de apavorada, enfurecida.

Samuel Zambrano, o protagonista, enche a tela de franqueza e transparência com uma atuação emocionante e vibrante, como poucas crianças conseguem fazer. Samantha Castillo, atriz que interpreta sua mãe, está em plena sintonia com o ator mirim. Ela cumpre a difícil tarefa de dar vida a uma personagem bastante complexa, cuja beleza é áspera e dolorosamente sensual. A cena final, com os dois em plano fechado, é de nocautear qualquer um. Magnificamente executada e capaz de deixar um nó na garganta que dura por algum tempo após os créditos finais.

Que a Venezuela possa nos dar mais desses. Com ou sem regimes bonapartistas.

segunda-feira, abril 27, 2015

Cineminha com a Duda > Cada um na sua casa

Mais um texto da Maria Eduarda, essa mais nova - e bota nova nisso - colaboradora deste blog. Dessa vez, fomos assistir à nova animação da Dreamworks. Ela estava doida para conferir o filme e, depois, escrever o que achou para vocês lerem aqui. Ei-la, abaixo, a resenha.

Eu fui ao cinema ver Cada um na sua casa com o meu pai e a minha melhor amiga, Gabriela. Comi uma pipoca mega e levei balas e pirulitos. Isso é muito bom para acompanhar filmes, ainda mais porque são minhas comidas preferidas.

Agora eu vou contar como é o filme. Tinha um planeta em que viviam os boovs, e eles sempre fugiam do inimigo deles. O Oh, que era um dos boovs, era o mais engraçado e bonzinho. Eles mudam para o planeta Terra e o Oh encontra uma garota chamada Tip Tucci. Só que os boovs pegaram uma máquina e colocaram as pessoas, menos a Tip, em outro país para eles poderem morar no planeta Terra. A Tip acaba sendo separada da mãe. O Oh ajuda a Tip a procurar a mãe. Só que ele fez besteira: ele mandou um convite para sua festa e acabou mandando para todos no universo, inclusive os inimigos.

Esses são os boovs recebendo a mensagem que o Oh mandou.

A parte que eu mais gostei foi quando a Tip encontra o Oh. Ela está se escondendo dos boovs numa cabana e bota a cabeça para fora. Quando ela sai, vê o Oh e fica assustada. A parte que eu menos gostei foi quando a nave dos inimigos dos boovs anda na Terra. Era muito barulhenta. O meu personagem preferido é o Oh. Quando ele está rosa, é que gosta de uma pessoa. Quando está azul é porque está triste e quando ele está amarelo é porque está dançando. E quando ele está vermelho é porque está bravo. E quando ele está roxo é porque ele está normal. O personagem que eu menos gostei foi o boov do sinal. Ele é um boov que é um guarda de trânsito. Nem ele nem ninguém era amigo do Oh.

No final do filme eu fiz xixi por 20 horas, porque eu bebi muito suco de uva. A minha amiga Gabriela também, porque bebeu uma Coca-Cola de tamanho gigante.

Vale muito muito muito a pena ver esse filme no cinema.

terça-feira, abril 21, 2015

White zombie, de Victor Halperin

Se eu disser a vocês que o nome deste clássico do horror de 1932 em português é Zumbi - Legião dos mortos, todos vão compreender o fato de preferir, ali no título, o nome original, não é mesmo? Até mesmo pela importância de White zombie: estamos diante do que se supõe fortemente ser o primeiro filme sobre mortos-vivos da história do cinema - anterior até mesmo ao espetacular I walked with a zombie, que instaurou de uma vez por todas os zumbis como figura alegórica.

Aqui, os personagens ainda não comiam cérebro. À época, os Estados Unidos, país em que o filme foi produzido, saiam da Grande Depressão de 1929, que deixou estragos consideráveis não somente na economia, mas na organização social dos estadunidenses. O então presidente Franklin Roosevelt estava prestes a dar início ao New Deal, o plano de recuperação econômica que pretendia, no fim das contas, levantar o moral da população. O cinema serviu, inegavelmente, como uma ferramenta poderosa na mitigação da tal depressão e na disseminação do american way of life. Por isso, em, 1932, zumbis eram pobres incautos vítimas de transes provocados por magia negra - uma prática de "povos bárbaros" (leia-se sul-americanos com origens africanas) e que ia contra todos os princípios cristãos dessa nova América que precisava ser urgentemente higienizada.

Para o papel do mago de sotaque britânico que comanda um exército de zumbis em Porto Príncipe, capital do Haiti, foi escalado por módicos 800 obamas ninguém menos que Bela Lugosi, que mais tarde ficaria imortalizado como Drácula. Seus expressivos olhos esbugalhados dão vida a Murder Legendre, um sinistro habitante da ilha que, apesar de não ser insulano, usa rituais de voodoo para escravizar mentalmente seus inimigos, os quais mata antes, obviamente.

"Olhos nos olhos... Quero ver o que você faz!"

Um deles é o ricaço e excêntrico Dr. Bruner, que se apaixona por uma moça durante uma viagem a Nova York, e planeja colocá-la em transe para viver ao lado dela. Para isso, pede ajuda a Legendre. No entanto, precisa antes de mais nada se livrar do noivo da moçoila. Como? Convidando o casal para desfrutar das belezas naturais da paradisíaca ilha.

Em White zombie, a caracterização dos zumbis remete ao expressionismo alemão, que ainda era uma corrente estética europeia recente e influente. A maquiagem é pesada e o olhar, vivaz. A pantomima do morto-vivo criada por Halperin, caminhando sem controle a ponto até mesmo de cair de um desfiladeiro, seria mais tarde copiada por todas as produções do gênero (vide o comportamento dos zumbis do seriado The Walking Dead, sete décadas mais tarde).

Um excelente filme para entendermos melhor o papel narrativo desses desafortunados seres - que, mais tarde, seriam também vítimas da ganância nuclear da Guerra Fria. Mais tarde ainda, pobres coitados infectados por um vírus geneticamente modificado por temíveis armas biológicas.

Qual será a próxima hecatombe que nos transformará em zumbis?

sexta-feira, abril 17, 2015

Ida, de Pawel Pawlikowski

O vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro é diferente por vários motivos. Os estéticos, são muitos. Por exemplo, a ousadia de filmar em 3:4, o antigo formato televisivo, ao invés do tradicional 16:9. Há também a ausência completa e total de trilha sonora. No entanto, o que mais chama a atenção em Ida é a força narrativa que o filme consegue sem muito esforço.

O roteiro mostra uma noviça que, prestes a fazer o voto pelo celibato e pela reclusão para o resto da vida, vai em busca da única parente de que tem notícia. Sua tia, a quem pouco conhece, é uma juíza de raízes judaicas em um tribunal da Polônia dos anos 1960, durante o regime comunista pós-guerra. Mesmo levando vidas bastante opostas, as duas parecem ter em comum o gene da melancolia e a falta de perspectiva com os mundos que as cercam.

Para falar a verdade, nada é assim tão maravilhoso em Ida. Nem a fotografia em preto e branco, que é apenas acertada tendo em vista que o filme fala sobre tristeza. Além disso, é inverno. Ou seja, toda a Polônia está coberta de neve branca. As atuações também não são lá um destaque. Convincentes, sem dúvida. E então fica a questão: ué, mas é um filme para ser tão premiado - para quem não sabe, Ida recebeu nada menos que 67 condecorações ao redor do mundo, tirando o Oscar - assim?

É que em menos de 90 minutos - e está aí outra característica pitoresca desse filme -, Pawel Pawlikowski vai conduzindo o espectador com muita calma até um desfecho arrebatador, que vale pelo resto todo. É perturbador, daquele jeito polonês de ser perturbador.

Ida é uma Noviça Rebelde da vida real.

sábado, abril 11, 2015

Cineminha com a Duda > A Casa Monstro

Pois então! A partir de hoje, terei uma nova - e bota nova nisso - colaboradora para este pequeno e singelo blog. Maria Eduarda Moreira é o nome dela. Tem sete anos, está na segunda série e adora ler e escrever. E, obviamente, feito o pai, também curte ficar de bolete no sofá vendo um filminho. Abaixo, a sua resenha de estreia, sobre uma animação que vimos juntos.

Com as palavras, Duda. Palavras dela mesmo, de verdade.

Eu vi esse filme no meu Now. O filme é sobre um homem que tinha uma casa mostro e dos meninos que se chamavam DJ e Bocão. É assim: tinha um menino e a mãe dele viajou. E o DJ ficou um pouco com o amigo dele, que era o Bocão. O Bocão acabou jogando a bola na casa do vizinho que tinha uma casa-monstro. Só que o Bocão e o DJ não sabiam que a casa era um monstro. Aí eles foram até a casa do vizinho para pegar a bola. E quando caiu essa bola o vizinho saiu da casa e brigou com eles. Aí eles encontram uma menina chamada Jenny e ficam apaixonados e o DJ convida ela para ajudar a ver o problema da casa. Eles acabaram numa aventura monstruosa!

A parte que eu achei mais monstruosa foi a parte em que a casa virou um monstro terrível. E os personagens que eu mais gostei foram o DJ e a Jenny. Também gostei do Bocão. Todos são bons. E tem um personagem aterrorizante que é o velhinho que morava na casa. A parte que eu mais gostei foi quando os policiais foram engolidos pela casa.

Eu acho que vale a pena conhecer esse filme.

quinta-feira, abril 09, 2015

Tusk, de Kevin Smith

Posso ser rápido e rasteiro e fazer um trocadilho besta para definir o novo filme do rei dos geeks, um cara legal, Kevin Smith > Tusk é tosco. Mas é um tosco complexo. Não é qualquer tosqueira, não. É um daqueles casos que se enquadra na categoria das coisas que deixam você boquiaberto e sem saber se são boas ou ruins, mas que são certamente dignas de recomendação.

O roteiro, tosco, foi inspirado numa brincadeira que surgiu num dos episódios do podcast de Smith - que, diga-se de passagem, é um sucesso estrondoso entre os nerds do mundo todo. Após ler uma notícia verídica sobre um canadense excêntrico que oferecia hospedagem gratuita aos hóspedes que aceitassem vestir uma fantasia de morsa, o velho Kevin lançou duas hashtags no Twitter: uma delas, dizia sim para um filme fictício com o argumento baseado na tal notícia; o outro, um não. Qual delas vocês acham que ganhou?

Então, lá foi ele, Kevin Smith, o cara dos nossos filmes preferidos, tipo O balconista, Mallrats, Procura-se Amy e até Red State, fazer um filme sobre um sujeito que é sequestrado por um velho excêntrico que sonha em transformar um ser humano em uma morsa. Tosco?

Pois bem, Tusk tem lá suas semelhanças com a labuta de seu criador. O protagonista que sofre a transformação é um podcaster que publica na internet um vídeo de um moleque estranho cortando a própria perna acidentalmente. As semelhanças acabam aqui. Porque o resto é uma viagem! O vídeo faz tanto sucesso que ele vai até o Canadá entrevistar o pobre coitado desmembrado. No entanto, quando chega lá, acaba descobrindo que o garoto tirou a própria vida, motivado pela repercussão negativa do vídeo. Sem qualquer remorso, procura desesperadamente um personagem estranho que pague os 500 obamas gastos com a passagem de avião. Acaba seduzido por um anúncio no banheiro de um bar que fala sobre um marinheiro cheio de aventuras. Uma delas, envolvendo... uma morsa.

Aí, vocês já devem imaginar o que acontece. É uma espécie de Centopeia humana dirigida por um nerd. Dá para entender? A transformação do sujeito em morsa é lenta, dolorosa e angustiante - muita gritaria, muita agulha e linha, muito sangue, muita pele, muitos nacos de carne. O filme, que até o fim da primeira metade é uma comédia de humor negro com tons sombrios, se torna um híbrido de filme B com gore, com um desfecho que de tão vil e bizarro confunde a cabeça de quem aguenta a projeção até o fim (partindo de mim, isso é um baita elogio, não se enganem).

O pior, ou melhor, ou sei lá, é que Kevin Smith é um diretor de mão cheia. A fotografia do filme é ótima, sombria, fria. A montagem é bem bacana também, com sequências atemporais que vão construindo a imagem humanizada (olha aí a narrativa bacana) do protagonista para depois desconstruí-la completamente. A maquiagem é muito, muito, mas muito boa! Ou seja, a morsa humana é realmente asquerosa e dá até um certo incômodo - principalmente na cena em que ela é forçada a nadar pela primeira vez num tanque de água. Imagina aí.

No fim das contas, Tusk é como aquelas brincadeiras que acabam passando um pouco do limite: você até dá risada, mas meio cabreiro.

E eu só pensava naquela música dos Beatles!