quarta-feira, janeiro 30, 2008

Voltamos a nossa programação normal...

Não. Eu não abandonei meu querido blog. Depois de mudanças, as físicas mesmo, de espaço, de casa etc, agora tenho novamente uma televisão, ligada em um aparelho de DVD, um computador, acesso à grande rede e filmes para assistir!

Aguardem...

quarta-feira, janeiro 16, 2008

#5 - Zen and Zero, de Michael Ginthor


Depois de "Endless summer", na década de 60, clássico de Bruce Brown que trazia uma narrativa completamente diferenciada para os filmes de surfe da época, as produções do gênero deram uma boa esfriada. Poucas eram as películas sobre o esporte e a maioria delas mostrava apenas os surfistas em ação. O panorama começou a mudar recentemente, com belos documentários sobre o surfe - incluindo o brasileiro "Surf adventures". Porém, o melhor deles é, sem dúvida, esse aqui.

O argumento de "Zen and Zero" é sensacional!

Cinco austríacos viajam até Los Angeles para encontrar Allan Weisbecker, um surfista lendário que perdeu sua casa após uma ressaca e, para continuar se sustentando, resolveu entrar para o ramo do comércio. Ele e seu amigo, Christopher, passaram a vender maconha. Um belo dia, eles abarrotaram uma lancha de erva colombiana da boa. Porém, a Guarda Costeira os pegou e o barco afundou. Após esse fatídico episódio, os dois amigos se separaram.

O tempo passou e Weisbecker virou escritor e roteirista da série televisiva "Miami Vice". Um de seus livros, "In search of Captain Zero", motivou os surfistas austríacos a fazer uma viagem até a Costa Rica para promover o encontro dos dois velhos amigos. Para os europeus, se o mar estivesse flat (sem ondas, para os leigos), no mínimo teriam uma boa reportagem.

Se o argumento por si só já vale, a parte técnica não fica para trás. Belíssima fotografia, enquadramentos espetaculares, trilha sonora excelente e o mais delicioso disso tudo: um texto sensacional! A busca pela onda perfeita e pelo Captain Zero, como Christopher ficou conhecido, também se transforma em uma narrativa contundente, com tiradas filosóficas, matemáticas, esotéricas e existenciais. Aos moldes do mestre Hunther Thompson e seu Jornalismo Gonzo.

Perfeito!

sábado, janeiro 12, 2008

#4 - Quarto 666 (Chambre 666), de Wim Wenders

É muito reconfortante saber que há gente interessada em, além de fazer cinema, discutir o fazer cinematográfico, o papel dos filmes e, por conseguinte, discutir o seu futuro. Foi o que um dos meus cineastas favoritos, Wim Wenders, propôs em seu média-metragem "Quarto 666".

Durante o festival de Cannes de 1982, o diretor reuniu um time de primeira categoria de realizadores para discutir o assunto. A concepção foi a mais simples possível. Em um quarto de hotel, com uma TV ligada, solitariamente, cada um dava seu depoimento sobre diversas reflexões levantadas por Wenders. Por exemplo: os filmes estão ficando cada vez mais televisivos? Os videocassetes vão acabar com as salas de cinema? Vivemos a era da morte da arte cinematográfica? Tópicos que mais tarde, em 1994, Wenders retomaria no fantástico “O céu de Lisboa”.

As opiniões são as mais diversas possíveis. Algumas rasas, outras extremamente contundentes. O mais interessante é perceber os contrastes que já existiam na época entre cinema de arte e cinema comercial - além da constatação de uma produção romanesca de todo o conteúdo da TV. Novas tecnologias (para a época, claro) também entram em atrito com os mais conservadores.

Só um Wim Wenders para reunir tanta gente boa. Ficou claro que as minhas escolhas como cinéfilo foram felizes, pois batem com as minhas convicções. Godard, Antonioni e Herzog dão um show à parte.

Spielberg só fala de cifras. Em dólares.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

#3 - The notorious Bettie Page, de Mary Harron


Nossos avôs provavelmente devem seus momentos de onanismo à Bettie Page, uma morena de curvas arredondadas, salto agulha, meia arrastão, chicote em punho, atitude sadomasoquista e aquela carinha de virgem de um lado, safada do outro. Era a década de 50, e a pin-up mais famosa do mundo enfrentava as cortes estadunidenses, acusada de deturpar a mente de jovens por todo o país.

Assim começa esse filme sobre a vida da moçoila que não tinha o menor pudor em ficar nua diante das câmeras, nem de se deixar fotografar amarrada ou amordaçada. O roteiro volta no tempo e mostra como Page encarava os valores religiosos de sua família conservadora e os constantes galanteios que recebia. Acompanhamos os primeiros trabalhos fotográficos, a tentativa de emplacar uma carreira como atriz e as desilusões pelo tortuoso caminho de um símbolo sexual.

O problema é que tudo isso é mostrado muito rapidamente. A diretora Mary Harron perde o pulso e acaba acelerando uma cronologia de fatos que poderia ser mais bem explorada. A montagem e a edição não exploram cenas que poderiam render bons momentos cênicos. A maior parte dos percalços que atingiram Page ficam subentendidos em cenas curtas, herméticas, como se o espectador fosse poupado de presenciar os dramas pessoais da pin-up.

Porém, justiça seja feita à direção de arte, ao figurino e à Gretchen Mol, de cabelos tingidos, que encarna uma Bettie Page extremamente sensual e verossímil. A fotografia em preto e branco, sem ajustes ou retoques, ajuda a recriar o clima dos anos 50.

Dizem que Scorsese também estava realizando um filme sobre a vida de Page. Porém, abriu mão do projeto depois que seu "O Aviador" emplacou. Sei não, mas acho que seria uma biografia bem mais contundente.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

#2 - The Harlem Globetrotters: The Team That Changed the World, de Michael Sear e Joseph Sharman


A NBA ajudou, sem dúvida alguma, a popularizar o esporte da bola laranja pelo mundo. Trata-se do melhor basquete jogado no planeta - coisa linda de deus. Conseqüência direta: estrangeiros na liga estadunidense, seleções do mundo todo fortemente competitivas e Argentina campeã olímpica. E quem ajudou a NBA a ganhar status de espetáculo foram os jogadores do Harlem Globetrotters.


É incrível como é fácil identificar quais produções foram feitas estritamente para TV, caso deste documentário sobre "o time que mudou o mundo". Não deveria ser assim, mas funciona desse jeito: edição, videografismo e som perfeitos. Conteúdo, direção, montagem e , o principal, valor documentacional, reprováveis.

O filme conta com boas imagens de arquivo de jogos na década de 40 e 50 e excelentes personagens dando depoimentos meia-boca demais. Samuel L. Jackson, Bill Cosby e até o candidato democrata popstar do momento, Barak Obama, ganham voz ativa para falar da paixão pelo basquete. Mas é tudo muito raso.

A discussão sobre segregação racial e o fato dos Globetrotters terem sido os primeiros negros a jogar na NBA estão lá - e consomem até grande parte do documentário. Porém, segundos depois, lá estão os comunistas, os alemães do pós-guerra e demais estrangeiros, todos em um grande caldeirão xenofóbico, ameaçando a tal democracia estadunidense, representada pelos jogadores que, até pouco tempo, segundo o próprio doc, eram xingados quando entravam nas quadras de seu próprio país. Dicotômico demais. Era inevitável que uma produção desse tipo, feita com provincianismo, não caísse num discurso político que já virou marca registrada dos nossos amigos norte-americanos.

Ora bolas, mas não está escrito ali no subtítulo que eles mudaram o mundo? De fato mudaram. Não o mundo, mas a maneira como esse mundo passou a ver, jogar e consumir basquete. Mas esqueceram de incluir essa parte no roteiro.

Fora tudo isso, se você, assim como eu, é apaixonado por basquete, vale a pena somente para ver alguns lances geniais e divertidos. Nada demais. Não pesquisei, mas acredito que existam documentários melhores sobre o mesmo assunto. Documentários sobre esportes.

domingo, janeiro 06, 2008

#1 - Ligeiramente grávidos (Knocked up), de Judd Apatow

Ano novo, vida nova, novos filmes e, para não perder o ritmo, nova contagem. E para início de conversa, ou melhor, de resenha, nada mais apropriado do que uma comédia. E nada mais apropriado ainda do que uma comédia sobre gravidez - uma vez que eu também estou ligeiramente grávido.


Esperava uma comédia hilária, incorreta e competente como foi o trabalho anterior de Apatow, "O virgem de 40 anos", que apesar do título canhestro e infantilóide é um filme engraçado sem cair em lugares comuns. Esse aqui é até engraçado e divertido. Porém, conhecendo o trabalho do diretor, era de se esperar algo um pouco mais transgressor.

O roteiro, sobre uma gravidez completamente inesperada, é bacana. Estão lá todas as fases a serem transpostas, contadas por semanas, e não mais por dias ou meses, bem como as frases que todos os grávidos, invariavelmente, são obrigados a escutar. Os comediantes têm um timing perfeito e até a trilha sonora colabora, com a bela "We are nowhere and it's now", do Bright Eyes, pontuando momentos de puro mimo e júbilo materno. Há, sim, pitadas de humor negro e algumas cenas graficamente mirabolantes, principalmente na hora do parto, mas nada de mais.

Eu até me emocionei nas últimas seqüências, obviamente, por minha condição gestacional. Ou seja, o filme fica mais cativante, e talvez por isso menos engraçado, para quem já passou ou está passando por esta indescritível experiência - seja ela fruto de uma trepada inconseqüente, como no filme, ou fruto de um relacionamento sólido e sadio.

É, casais... temei!

quinta-feira, dezembro 27, 2007

#92 - Ano passado em Marienbad (L'année dernière à Marienbad), de Alain Resnais


Sim, é uma história de amor. Sim, ambientada em um belo hotel. E, sim, envolvendo um intrigante triângulo amoroso. Os ingredientes podem até parecer romanescos demais. Porém, tratando-se de Alain Resnais, é um cinema muito diferente do que se costuma ver por aí.

A história gira em torno de um sujeito, X, obcecado por uma bela mulher, A, acompanhada por um frio e misterioso homem. Todos hospedados em um luxuoso e suntuoso hotel em Marienbad. Segundo X, os dois já haviam se encontrado anteioromente, há um ano. Ela diz não se lembrar, enquanto ele tenta convencê-la a largar tudo e fugir para viverem juntos. O que se segue é um jogo de sedução onde memória e lirismo se fundem. Testemunha-se, por entre os corredores retos e intermináveis do hotel, a incapacidade de concretização do desejo entre A e X, bem como a distância de um e do outro em um alfabeto.


A arquitetura clássica, quase barroca, do hotel se mistura perfeitamente ao roteiro, tornando-se praticamente um personagem. Espelhos, estátuas, objetos de decoração e um gigantesco jardim servem de moldura para enquadramentos requintados e angulosos, deixando o filme com uma aura de obra de arte. O simbolismo e as comparações com Bergman, inevitavelmente, se tornam muito fortes. A fotografia p&b chega a brilhar de tão bem cuidada. É cinema de luxo, de arte, na mais pura acepção da palavra.

O tempo narrativo é longo, quase estático. Uma locução repetitiva e monocórdica pontua com perfeição a frieza na maneira como uma paixão fugaz é contada por Resnais. As atuações são teatrais, com a valorização da expressão corporal de todos os atores - principalmente do casal protagonista.

Mais do que um filme, uma verdadeira obra de arte.

sábado, dezembro 22, 2007

#91 - Death proof, de Quentin Tarantino


Se fosse para escolher qual dos dois filmes levar para casa, "Planet terror" ou "Death proof", certamente ficaria com o segundo. Road movies furiosos me atraem mais do que zumbis comedores de cérebro. Portanto, depois de conferir e gostar do que Rodriguez fez em seu segmento de "Grindhouse", não pude aguentar a ansieadade e baixei "Death proof", o segmento de Tarantino, que por aqui só vai ganhar as grandes telas em março do ano que vem.

Esteticamente, apesar da semelhança de propostas, o filme de Tarantino é muito superior ao de Rodriguez. Ainda que conte com os mesmos recursos para dar efeito de falha nos fotogramas, com cortes abruptos, quedas no áudio e muitos arranhões na cópia, os enquadramentos são simplesmente sensacionais. Lembram muito as produções baratas, porém extremamente caprichadas, de Russ Meyer. Capricho também na trilha sonora, na escolha do elenco e, principalmente, nos diálogos - marca registrada de Tarantino.

O roteiro é fiel ao cinema trash com conteúdo. Nada de novo: um dublê alucinado dirige um carro negro "à prova de morte" com o qual inferniza a vida de outros motoristas. Para ser mais preciso, de "outras" motoristas. E algumas dessas motoristas também são más, fazendo claras referências ao trio de "Faster, pussycat! Kill! Kill!", de Meyer.

Aliás, referências não faltam em "Death Proof". Tarantino brinca com sua própria filmografia o tempo todo. Utiliza as cores de "Kill Bill", as músicas de "Jackie Brown", as sequências de "Cães de aluguel" e uma penca de outros detalhes que, para os conhecedores da obra do diretor, são um deleite!

Um filme que vale muito ser conferido na tela grande. Agora é aguardar...

quinta-feira, dezembro 20, 2007

#90 - Planet terror, de Robert Rodriguez

O problema com a maioria dos filmes de zumbis é que eles se levam a sério demais. Não os zumbis, mas os filmes. Pode até dar medo, ou fazer com que você esconda o rosto por detrás de uma almofada, ou deixe os dedos caírem levemente sobre os olhos enquanto finge estar coçando a testa. Em "Planet Terror", nada é levado a sério, e esse é o grande trunfo do diretor Robert Rodriguez.


A premissa é clássica: um gás biológico é lançado sobre uma cidade e transforma os moradores em espécies de zumbis deformados que se alimentam de tripas humanas. Previsível. Porém, o recheio do roteiro é que dá o tom diferencial que Rodriguez busca em todos os seus filmes. São milhares e milhares de intermináveis clichês de filmes de zumbis, mas todos recheados com diálogos insólitos, ações inesperadas e desfechos inverossímeis. Marca registrada do diretor.

Para fazer com que o espectador entre mais ainda no clima, os fotogramas foram desgastados propositalmente para dar a sensação de se estar realmente diante de uma pérola do cinema trash, exatamente como era feito no começo da década de 70 - o que pode parecer um retrocesso na técnica aos mais desavisados. Logo, montagem, fotografia e edição são experimentações cinematográficas que tornam a produção de Rodriguez ainda mais atraente. Fica nítida a habilidade do diretor em fazer e reinventar cinema.

Talvez o único problema de "Planet Terror" seja a quantidade absurda de sangue, gosmas e restos putrefatos dos pobres personagens. Algumas cenas e as maquiagens são completamente toscas, mas é um pouco incômodo ter que agüentar quase duas horas de exploitation puro. Precisa ter um pouco de estômago. Além dos que você vai ver na tela.

O destaque, indubitavelmente, fica por conta das cenas com a bela Rose McGowan, que interpreta Cherry Darling, a tal dançarina que tem no lugar da perna amputada um fuzil. Suas cenas são realmente inesquecíveis.

Uma grande, e nojenta, mais nojenta do que grande, inclusive, homenagem ao cinema trash.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

#89 - The Devil and Daniel Johnston, de Jeff Feuerzeig


Pouca gente sabe quem é Daniel Johnston. Porém, quem é fã de Pearl Jam, Sonic Youth ou Nirvana, talvez já tenha estado muito perto da obra desse artista e compositor sem saber. No premiado documentário de Jeff Feuerzeig, Daniel, sua família, seus trabalhos, seus amigos e seus demônios são revelados em fotograma.

Com um extenso arquivo de imagens e áudios, Feuerzeig vai mostrando aos poucos como Daniel Johnston, que era maníaco depressivo, se tornou um ícone nos bastidores da música. Vindo de uma família religiosa da Virginia, afirmava ser perseguido pelo Diabo. Apesar de levar uma vida conturbada, com freqüentes internações em hospitais psiquiátricos e prisões por comportamento agressivo, conseguiu chamar a atenção de músicos e produtores com suas composições sinceras e diretas. Tecnicamente, nada demais: ele mesmo gravava fitas cassete tocando violão e cantando e desenhava à caneta todas as artes que ilustravam seus álbuns. O diferencial estava justamente no conteúdo, extraordinariamente lírico e verdadeiro. Obra tão valorosa, que foi executada por mais de 150 artistas: Tom Waits, Beck, Mercury Rev, Flaming Lips, Wilco, Teenage Fanclub e mais uma penca de gente boa, além dos supracitados.

A montagem do documentário é sensacional. Nada fica de fora, nenhuma passagem é descartada e o rico material de arquivo é bem dosado com as entrevistas. Inclusive, uma ótima com Gibby Haynes, vocalista do Butthole Surfers, enquanto faz uma obturação no dentista.

Denso, tocante, bizarro e bem feito. "The Devil and Daniel Johnston" venceu o prêmio de melhor direção no Festival de Sundance em 2005. Premiação justíssima!