domingo, janeiro 17, 2016

O regresso (The revenant), de Alejandro González Iñárritu

Iñárritu parece ter conquistado de vez a indústria cinematográfica. Talento, ele tem de sobra! É um diretor com técnica e estofo, justamente premiado ano passado com Birdman. Agora, com O regresso, é bem capaz de sagrar-se bicampeão. Trata-se de uma obra cinematográfica feita por quem entende do assunto. A prova disso é conseguir transformar um roteiro ordinário em um filme com cadência e estética apuradas.

Muita gente diz que a história Hugh Glass, o protagonista vivido por Leonardo DiCaprio, é real. Mas não é bem assim. Acontece que o roteiro do filme é baseado num livro que é baseado numa lenda das regiões montanhosas da região norte dos Estados Unidos. O tal Glass foi um experiente explorador que viveu lá nos idos de 1800. Acostumado às intempéries e aos perigos desse inóspito lugar, sobreviveu ao ataque de um urso. Dado como morto, foi abandonado e deixado para morrer sem os seus pertences. No entanto, ele sobrevive milagrosamente. Todo estropiado, rastejou milhas na neve para encontrar os dois homens  responsáveis por tê-lo abandonado, buscando vingança. Encontra os dois, em locais diferentes, após anos de procura. Não mata nenhum dos dois porque, vendo-os arrependidos, percebe que a vida vale muito para ser tratada com mesquinharia. Logo, temos aí uma lição cunhada para os homens da montanha: nunca desista de viver.

O filme de Iñárritu dá uma romanceada na narrativa. Coloca Hugh Glass como um ex-membro de uma tribo local que perdeu a esposa e a casa por conta dos conflitos entre o homem branco e os peles-vermelhas. Ele acaba se tornando uma espécie de homem da montanha que serve de guia para os soldados estadunidenses. Carrega com ele seu filho, tudo que lhe resta de lembrança da sua pacata vida como chefe de família. O rapazola, na narrativa de Iñárritu, é um artifício para que o roteiro tenha uma linha dramática que justifique o que virá a seguir. Trata-se, enfaticamente, de mais uma história de vingança, sem aquela mensagem humanista. É sangue nos olhos e faca nos dentes, com a mesma inverossimilhança da lenda original.

Desde a experiência bem sucedida em Birdman, o diretor mexicano parece ter encontrado uma linguagem para chamar de sua. Iñárritu, mais uma vez, usa de forma bastante consciente os planos-sequência que tanto chamaram atenção no premiado filme do homem-pássaro. Aqui, faz com que as cenas nos campos de batalha ganhem um tratamento bem realista. Outro acerto é na fotografia, densa e escurecida, ajudada pela imponência das locações. O diretor opto por usar somente luz natural, o que, apesar da trabalheira que deve ter dado, confere ainda mais beleza à composição estética.

O estranho fica por conta do uso também excessivo da computação gráfica. Há algumas cenas que desmerecem todo esse naturalismo caprichado que é aplicado à fotografia e à direção de arte. Quando Glass é espancado pelo urso, por exemplo, não há como não perceber que se trata de uma animação computadorizada. O mesmo numa rápida sequência na qual há búfalos correndo na neve. Acho que eram búfalos, não lembro aqui, mas não faz diferença - é meio tosco.

Ai ai ai, ui Blau Blau!
Outro ponto fraco é a direção de atores, por mais que DiCaprio mereça o Oscar. Seu personagem é difícil, de composição complexa e com desafios cênicos que não é qualquer ator que topa. Pelo visto, chegou sua hora de ser agraciado com aquela estátua dourada. Apesar disso, os outros personagens não são tão interessantes, construídos sob um maniqueísmo novelesco do qual, confesso, tenho aversão. Atuações muito rasas para um filme do porte de Iñárritu.

No fim das contas, O regresso consegue ser um filme interessante. Nada de muito brilhante, mas bem interessante.

sábado, janeiro 16, 2016

Mad Max - Estrada da Fúria (Mad Max - Fury Road), de George Miller

Ano passado, não tive o menor interesse em assistir ao novo filme da franquia Mad Max. Trinta anos depois daquele com a Tina Turner cantando que eles não precisavam de um outro herói, o mesmo diretor, George Miller, retoma a história do policial que corre as violentas estradas australianas num mundo pós-apocalíptico desértico no qual água e combustível são as commodities mais valiosas. No caminho, encontra pessoas loucas e alucinadas em decorrência dessa luta pela sobrevivência. Atordoado com a morte da família, cuja culpa cai sobre seus ombros, ele também tem um parafuso solto.

A quantidade de indicações ao Oscar, mesmo sabendo que isso não quer dizer lá grandes coisas, me aguçou a curiosidade: o que será que aqueles acadêmicos viram num filme que, é sabido, mais parece um videoclipe feito por jovens no ácido? Parece, porque não é. E aí vem outra curiosidade: como será que ficou essa ressurreição de franquia já que ela é dirigida por um cara que, depois daqueles três primeiros filmes lá na década de 1980 (ok, possíveis pentelhos, eu sei que o primeiro é de 1979), foi o responsável por Babe, o porquinho e Happy Fet, o pinguim? Porra, tem que ver!

É mesmo o que se esperava. Parece um videoclipe, só que com duas horas de duração - o que, para um filme cujo argumento tem enfoque em perseguições e explosões, nem é lá um defeito, mesmo estando careca de saber que isso também é um belo de um artifício para encobrir roteiros medíocres.

 E o roteiro - adivinhem? - é mesmo medíocre. Uma historinha patética que envolve um vilão tirânico, oriundo dos primeiros filmes da franquia, que controla água, suprimentos e, por conseguinte, os moradores de uma tal Cidadela. Ele tem um pequeno harém com lindas modelos vestidas de branco (a cena em que elas aparecem em destaque pela primeira vez parece concurso Gata da Camiseta Molhada) que lhe dão filhos. Os ventres, escolhidos a dedo, precisam gerar bebês perfeitos, porque a maioria dos moradores do lugar nasce com alguma deformidade devido ao contato com a radiação. Até que um dia uma de suas filhas, cansada daquilo tudo, foge com as meninas para uma terra que, acredita ela, tem verde e água em abundância. No meio do caminho encontram Max, que havia sido prisioneiro na Cidadela. Aí, os dois passam a fugir e lutar juntos contra o vilão.

Mas o que tem de bom? Ah, o visual é até bacaninha, apesar de, em determinadas sequências, como na que mostra uma comitiva que vai atrás do Max e sua turma, eu ter me sentido assistindo a um desfile de escola de samba. Os carros e seus tripulantes mais pareciam saídos de um barracão da Unidos da Tijuca, no melhor estilo Paulo Barros. Diz aí se não é coisa de carnavalesco aquele veículo em que um guitarrista toca um instrumento que cospe fogo e tem, atrás, uns meninos carecas pintados de branco batendo tambores?

Ops, foto errada!

A edição foi feita pela esposa do diretor, que nunca havia trabalhado em nada parecido. Motivo da escolha: Miller disse que, se o filme fosse dirigido por um homem, seria mais um filme de ação qualquer. Até que ela trabalho direitinho. Durante a projeção, há em abundância momentos nos quais os mais fotossensíveis podem ter uma crise epiléptica deflagrada. Mas o diretor se deu mal, porque deve ter ficado um seis meses sem sexo em casa (só para decupar as cenas, foram três meses de trabalho ininterrupto) e o resultado final é mais um filme de ação qualquer. Quer dizer, indicado ao Oscar, mas um filme de ação qualquer ainda assim.

Os atores? Nada a declarar. Charlize Theron até segura a onda, sexy sem sem vulgar. Vê-la com um braço mecânico, retirado com computação gráfica, é muito interessante. Aliás, isso é outro ponto bacana do filme: quase não há efeitos especiais, é tudo feito à base de dublês. Já o substituto de Mel Gibson, Tom Hardy, pouco faz, logo pouco rende. O destaque fica mesmo para o vilão, de olhar bastante expressivo, o experiente Hugh Keays-Byrne.

We don't need another sequel, mas fiquem avisados que vêm mais dois filmes por aí.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Os oito odiados (The hateful eight), de Quentin Tarantino

Tarantino é um diretor que dispensa apresentações e quem frequenta esse blog sabe que seu modo de fazer cinema me agrada muito. Ele se apropria de uma estética cinematográfica que já existe e faz uma espécie de homenagem, dando ao filme sua rubrica. Em Django livre, o cara se aventurou pelo mundo dos westerns - algo ousado e complicado de ser realizado com sucesso, dado o totemismo com o qual esse gênero sempre foi tratado. Tarantino mandou às favas os tabus e fez um filmaço. Agora, ele repete o esquema em Os oito odiados - seu oitavo filme, seria medo de ser odiado? - e repete o êxito. Aprendeu direitinho o riscado do Velho Oeste.

Aqui, o argumento é bem simples. As oito personagens do filme se encontram em uma espécie de estalagem, a caminho da cidade de Red Rock, onde se abrigam de uma forte tempestade no severo inverno de Wyoming. Como nos westerns clássicos, de Sergio Leone, Sam Peckinpah e John Ford, todos os "odiados" são apresentados com calma, em seus minuciosos detalhes, com escrúpulos à prova, para pouco depois haver um impasse - este, resolvido de forma inesperada e imprevisível, dada a permissividade daquela época, quando a pistola era a lei. Essa essência dos roteiros westerns, que os torna tão bacanas, em Os oito odiados é resolvida com aquela criatividade peculiar de Tarantino.

Os acertos são muitos, a começar pela direção de atores. Todos que entram em quadro - todos mesmo - são imprescindíveis para o filme. As atuações são irretocáveis, ajudadas, justiça seja feita, pela imaginação fértil de Tarantino que criou figuras tão peculiares: o major negro pós-Guerra Civil caçador de recompensas de Samuel L. Jackson; a bandida desbocada e desinibida de Jennifer Jason Leigh, irreconhecível; o vaqueiro estoico de Michael Madsen; e o divertido carrasco inglês de Tim Roth (apesar da inevitável comparação do trabalho do ator com Christopher Waltz, que lamentavelmente ficou de fora dessa vez).

Western que se preze tem que ter impasse.

A trilha sonora de Ennio Morricone, justamente premiada no Globo de Ouro, é a cereja no bolo. Originalmente composta para o filme, mesmo com uma pequena implicância do compositor para com o diretor, é absolutamente incrível. Já nos minutos iniciais, o tema principal gruda na cabeça. Dá o clima ideal para ambientar a história. Coisa de gênio mesmo. Ninguém tinha dúvida de que seria assim, né?

E que fotografia! Ajudada pela mixagem de som, sim. O barulho do vento frio fora da estalagem sibila pelas caixas de som, fazendo com que o guisado servido às personagens lá pelo meio do filme, quentinho, com direito à fumaça saindo, parecesse delicioso (para quem não sabe, trata-se de um ensopado feito com miúdos, zero gourmet). O mesmo acontece com o café, que acaba se tornando, de forma bastante criativa, um objeto de cena. Sem contar a ousadia de Tarantino não só em filmar, mas também em insistir que o filme tivesse algumas exibições em 70mm, um tipo de celuloide que quase não encontra mais projetores no mundo. Apenas algumas dezenas foram disponibilizadas ao redor do globo, para que um seleto grupo de sortudos tivesse essa experiência estética típica dos westerns de antigamente.

São três horas de filme editadas perfeitamente em capítulos que, dada a montagem competente, passam voando. Uma experiência cinematográfica para quem gosta de apreciar os detalhes e as referências - coisa que Tarantino sabe fazer como ninguém.

Filmaço!

domingo, janeiro 10, 2016

O clã (El clan), de Pablo Trapero

Pablo Trapero foi alçado ao estrelato mundial após seu belíssimo trabalho de direção em Abutre - um filmaço! O clã, sua mais nova produção, chegou ao Brasil com aquelas ovações todas, o poster cheio de estrelinhas, de "magnífico" escrito em caixa alta etc. Ou seja, estão fazendo com o filme o mesmo que fizeram com o bem mediano Relatos selvagens, do então inexperiente Damián Szifrón, ambos produzidos por Pedro Almodóvar. Finalmente, estaríamos diante de algo digno da qualidade audiovisual argentina?

Não. Nem foi dessa vez. Não que seja um filme ruim, mas é regular novamente. O argumento parte de uma história verídica acontecida na Argentina pós-ditadura, uma das mais violentas da América Latina. Conta a história de um zeloso pai de família que, acostumado a sequestrar e torturar opositores do governo, agora ganha a vida e mantém seu status social com outra clientela: os mais abastados dos bairros nobres de Buenos Aires. Para isso, envolve um de seus filhos nos negócios. O resto da família faz vista grossa para os sequestrados que eles levam para casa e prendem num quartinho, ignorando com naturalidade choros, gritos e pedidos de socorro.

Trapero, diferentemente de seu conterrâneo Szifrón, é um diretor que entende do ofício. Logo, seu filme merecia uma montagem mais dinâmica, menos careta. Aqui, ele tenta contar a história em dois momentos passados distintos e acaba meio que se embananando com o ritmo da narrativa. Fato que comprova isso é a sequência final, quando não há mais essa divisão temporal. São pouco mais de 15 minutos de tirar o fôlego que valem o ingresso. A direção de atores acaba sendo relapsa, com personagens que a todo instante estão em quadro, mas que são mal desenvolvidos. Pelo menos os dois protagonistas, pai e filho, têm atuações irretocáveis. O grande público não vai sentir tanta falta assim do Ricardo Darín.

"Essa família é muito unida e também muito ouriçada."
O outro problema está, vejam só, surpreendentemente, no roteiro. Há um buraco enorme, escancarado, que deve ter sido aberto para romancear a história verídica. Buraco esse que talvez passe despercebido pela maioria dos espectadores, mas que inviabiliza o tratamento romanesco que Trapero quis dar ao seu roteiro. Sem spoilers, ele acontece logo no início do filme, quando uma das vítimas sequestradas é o amigo do filho envolvido - e este participa da emboscada como isca, encenando ser sequestrado também.

Mais um filme superestimado. O cinema argentino tem coisa bem melhor para oferecer e Trapero, também.

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Nocaute (Southpaw), de Antoine Fuqua

Você vai ler por aí uma penca de resenhas comparando Nocaute a Rocky. A comparação parece inevitável. Afinal, trata-se daquela velha história de superação utilizando a lona como metáfora e os assaltos como obstáculos e os adversários como alter-egos a serem superados e a família como pilar cristão e a humildade como redenção etc. Só que aqui, nesse blog, não vai ter comparação. Para colocar os dois filmes numa só sentença, basta escrever o seguinte: Nocaute podia ser muito melhor que qualquer episódio da franquia de Rocky.

O roteiro, que tem lá um buraco amadorístico em minha singela opinião, mostra a ascensão e queda de um pugilista que, além de deter o título de campeão, se mantém invicto com um invejoso cartel em que não há derrotas. Até o dia em que um drama familiar, que começa com a provocação de um possível adversário, faz com que tudo se torne poeira. Ele perde o dinheiro, a casa, os treinadores e até a guarda da filha. Tudo de forma muito maniqueísta, previsível e até infantil - e com o tal buraco no roteiro escancarado ali na sua frente, sobre o qual não vou comentar para não desagradar leitores que não suportam spoilers (estes devem ser dois ou três dos meus 11 leitores, e prezo muito pela presença deles aqui, por mais que não suportem spoilers, o que eu acho uma besteira, mas vá lá, depois explico porque acho besteira).   

A verdade é que o diretor Antoine Fuqua tinha em mãos um argumento que poderia ter sido muito melhor aproveitado se o roteiro optasse, logo após a reviravolta que dá início ao drama do protagonista, por um tratamento mais denso e pesado. Portanto, o que promete ser uma história contundente, acaba sendo uma mera lição de vida, daquelas risíveis, usando as regras e curiosidades do boxe como mensagens de efeito para um aprendizado sobre a luta pela sobrevivência. Por exemplo, notem o nome do  lutador: Billy Hope. Esperança, sacou? E o filme faz questão de deixar isso bem claro (o poster gingo, pior, traz escrito believe in hope). Faltou explorar mais o lado sombrio das lutas de boxe, cavar um poço um pouco mais fundo e sem uma escada de emergência para a saída. 

Adriaaaaaan! Pera, não. Esse é diferente...
Quanto às atuações, de fato, Jake Gyllenhaal segura a onda e faz um excelente trabalho. Outro que não deixa a peteca cair é o experiente Forest Whitaker, que tem seu trabalho de composição dramática atrapalhado pela superficialidade do personagem, uma espécie de Senhor Miyagi do boxe, com uma profusão de chavões chatões.

Curiosidade para o público brasileiro: tem uma hora, lá na segunda metade de projeção, em que o protagonista vai alugar um apartamento. Há uma moça que mostra a ele os cômodos e fala sobre o pagamento. Percebe-se, pelo jeito como se expressa, que é latina. E aí ela abre a boca pra falar com alguém em sua língua nativa e... é do Brasil il il! E com direito a sotaque do Nordeste. O nome dela é Juliana Guedes, e está devidamente cadastrada no IMDB, aqui. Ao que parece, é assistente de Jake Gyllenhaal.

domingo, dezembro 27, 2015

Perdido em Marte (The Martian), de Ridley Scott

A ideia é muito boa: a história parte de um ponto no futuro próximo em que o homem já domina a técnica de exploração em Marte, o que pelo jeito não vai demorar tanto assim. Pelos planos da NASA, se tudo der certo, a primeira missão tripulada deve acontecer daqui a 14 anos (já é quase ano novo), em 2030. O livro homônimo de Andy Weir, no qual se baseia o filme, cria uma espécie de drama centrado na sobrevivência em um ambiente inóspito, colocando em destaque conceitos morais. Ridley Scott pega esse argumento e faz um filme que funciona como um Náufrago - ou Esqueceram de mim, para aproveitar essa onda de festas de fim de ano - futurista, dirigindo sua história exatamente como manda o figurino hollywoodiano, o que nem sempre é uma ideia muito boa.

Acontece assim, em sinopse informal: tem lá uma tempestade monstruosa em solo marciano e os astronautas são obrigados a abortar a missão. O personagem de Matt Damom, o botânico da equipe, leva uma estocada nos cornos e desaparece. Dado como morto, é deixado para trás pelo resto da tripulação, que se pirulita rapidinho do planeta vermelho. Acontece que, por milagre (sim, deus está presente em Marte), ele sobrevive. A partir daí, a NASA fica mal na fita e precisa decidir se vai deixá-lo lá, já que é difícil pra caramba se manter vivo num lugar daqueles, ou se vai se descabelar - e se descapitalizar - para traçar um plano de resgate. Bom, se você viu o trailer, já sabe que opção eles escolhem.

Não li o livro, mas se o filme for fidedigno a ele, trata-se de um grande desperdício de tinta, assim como foi esse grande desperdício de película de um diretor que vem acumulando equívocos ao longo do tempo, talvez por seguir austeramente a cartilha do mercado cinematográfico. O protagonista mais parece uma mistura de MacGyver com Kevin McCallister. Ao mesmo tempo em que usa seus conhecimentos avançados de botânica, faz piadas o tempo inteiro. O tempo inteiro mesmo, ainda que não se trate de uma comédia - o que faria sentido num livro, uma vez que o narrador solitário tem suas sacadas em um fluxo de memória consciente, sem precisar concretizar sua comicidade diante do perigo em ações tresloucadas. Apesar do tema empolgante, o filme é chato. Não decola, para fazer um trocadilho. Não há uma cena sequer na qual a imprevisibilidade seja tratada com carinho. É tudo completamente previsível...

Outbacks australianos? Nem.. É tudo computadorizado.

Talvez isso não faça parte nem do livro, mas seria bastante interessante fazer um filme no qual a figura de um deus partisse de um humano. Em Marte, um botânico faz surgir a vida e dá aos marcianos sapiens, milhões de nos após uma evolução, um motivo para que seja criada a eterna pergunta que tanto move os viventes: de onde viemos? Nisso, entraria no balaio ciência, religião, ética, moral, cultura etc. Mas nem rola aqui. Perdido em Marte vai pelo caminho mais fácil e traz um desfecho que mais parece o de um filme de super-herói. Chega a ser patético.

O que me fez ficar até o fim foi essa possibilidade de vislumbrar, agora que já sabemos, graças ao Curiosity, como é Marte, a interação entre o planeta e os seres humanos. De resto, é pura perda de tempo.

Nota, em 11/01/2016 > O filme foi premiado no Globo de Ouro na categoria Comédia! Metalinguagem? Ai, que comédia...

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Para ler a música de uma Legião

Hoje o assunto por aqui é música. A resenha abaixo é da autobiografia do Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana.

A mim, música sempre foi textura. Comecei a tocar guitarra na época em que os heróis do instrumento, de cabelos compridos revoltos e calças de couro apertadas, executavam arpejos em velocidade extrema. Muita técnica, pouca textura. Eu estava mais interessado em barulhos estranhos. Meus heróis sempre foram aqueles que conseguiam fazer com que a guitarra não soasse simplesmente como um instrumento de corda amplificado, e sim como uma agulha que vai entrelaçando timbres, tons, notas, semínimas.

Contrariando a massa, que ovacionava Malmsteen, Satriani e Vai, a santíssima trindade àquela época, eu queria ser diferente. Gostava de Pixies, Sonic Youth e Dinosaur Jr. - além dos representantes da MPB, Música Popular Britânica, como Clash, Joy Division, Specials e tantos outros. De gente de verdade que tocava guitarra para fazer barulho bom. Eu preferia, por exemplo, o Dado Villa-Lobos.

Parte da minha adolescência foi vivida na saudosa loja que o guitarrista da Legião e o baixista da Plebe Rude - outra banda que sempre admirei -, André X, mantinham numa galeria do Leblon off-Manoel Carlos. Foi lá, aos 13 anos, que adquiri o meu primeiro disco do Pavement, Slanted and Enchanted, de 1991 – o que me custou toda a mesada, algo em torno de NCz$ 1.500,00. A Rock it! era um dos únicos lugares onde eu podia trocar uma ideia sobre as bandas e artistas dos quais gostava. Foi uma época de fruição quase solitária e de extrema mudança de paradigmas.

Por isso, ler o livro que o meu querido e estimado amigo Felipe Demier ajudou a dar corpo, a autobiografia do guitarrista de uma das minhas bandas prediletas, foi uma jornada profunda a um passado que ajudou a construir o meu caráter e a dar forma ao que sou hoje. Li Dado Villa-Lobos - Memórias de um Legionário, da editora Mauad, em uma semana de folga do trabalho. Foi a minha viagem de férias.

A leitura é como uma visita íntima aos ídolos, que gentil e humildemente descem do oratório e se mostram tão humanos quanto o leitor. O livro permite acompanhar o surgimento do rock de Brasília, os percalços políticos e econômicos que influenciaram a produção cultural do país, o processo criativo de quem tentava remar contra a corrente e as relações humanas que se estabeleceram dentro desse caldeirão que continua em ebulição. É cômico, denso, tenso, emocionante e até deprimente em certas passagens. Senti-me tão perto do Dado, que é como se tivesse estado numa mesa de bar dividindo uma cerveja gelada com ele e os outros dois autores - além do Felipe, o Romulo Mattos, outro cara bom de papo.

Olha a camisa do Bonfá ali. Sempre relacionei as duas bandas.

Página a página, ou seja, disco a disco, fui entendo como minha predileção pela guitarra do Dado, com suas texturas diversas e elegantes, fazia sentido. Perpassar, dessa espécie de bastidores, todas as etapas - composição, ensaio, gravação, lançamento, apresentações - de cada álbum da Legião Urbana foi uma possibilidade inestimável de entender por que a música pode ter essa força avassaladora na vida de muita gente.

Escrevo isso porque Legião Urbana é parte indelével da minha vida. Quando criança morria de medo de que a usina nuclear de Angra dos Reis causasse um desastre ambiental. Meu temor era corroborado pelo grotesco acidente em Chernobyl, em 1986, que transformou a cidade da antiga União Soviética em um cenário abandonado de filme de terror. Mesmo se as estrelas começassem a cair / E a luz queimasse tudo ao redor / E fosse o fim chegando cedo / Você visse o nosso corpo em chamas! Perdi a conta de quantas vezes escutei esses versos com aquela mistura de temor e arrebatamento.

Quando ainda estava no colégio, prestes a completar o que hoje equivale ao Ensino Fundamental, havia uma Mônica na minha sala. Uma menina completamente diferente de mim: ela do reggae e eu, do rock. No entanto, éramos muito próximos. Também perdi a conta de quantas vezes nós dois ouvimos as pessoas cantando, ao fim do ano letivo, que naquelas férias não iríamos viajar porque o nosso filhinho estava de recuperação.

Teve a vez em que, tentando me aproximar do sexo oposto, utilizei-me dos versos que descreviam com perfeição o olhar da menina que eu queria conquistar. Empunhei o violão e cantei: Veja o sol dessa manhã tão cinza / A tempestade que chega é da cor dos seus olhos / Castanhos. Se deu certo? Nem deu. Além do mais, a música era tão conhecida que praticamente todos os garotos que foram atraídos por aqueles tais olhos castanhos tiveram a mesma ideia.

Para além desse registro afetivo, a leitura foi uma excelente oportunidade de reviver as tardes da minha adolescência na Rock It! Assim que fechei o livro, fui buscando todas as referências que o Dado cita - não somente as musicais, mas também as literárias e cinematográficas. Um garimpo muito valioso, que me revelou influências que haviam passado despercebidas.

As 256 páginas de Dado Villa-Lobos - Memórias de um Legionário são intensas como foi a passagem da Legião Urbana pelo cenário musical brasileiro. É muito bom estender a experiência para além dos ouvidos. Ler sobre aquelas músicas que se tornaram pequenos hinos, que contundentemente questionaram a geração Coca-Cola, é refletir sobre a nossa própria juventude e sobre sua força destrutiva e renovadora. Não há dúvidas: não aprendemos a lição. Precisamos refazer nosso dever de casa. E aí, então, eles vão ver.



sexta-feira, dezembro 18, 2015

Guerra nas Estrelas - O despertar da Força (Star Wars - The Force awakens), de JJ Abrams

Pode ler, rapaziada! Não tem spoilers.

Foi uma longa espera. Literalmente! Era uma quarta-feira, 23h40, sessão de pré-estreia no Cinemark, quando a iluminação foi reduzida e a tela, acesa. O que era para ser 11 minutos de anúncios e trailers (por razões contratuais, a projeção estava marcada para começar 0h01), se estendeu por lamentáveis 50 minutos. Precisamente às 0h41 de quinta-feira, a cartela com aquela frase emblemática - Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante... - apareceu. O público foi ao delírio. Começava Guerra nas Estrelas - O despertar da Força.

Ao meu lado, quem também ia ao delírio era minha pequena princesa rebelde de apenas 7 anos, já iniciada na saga de George Lucas, devidamente indumentada com vestido branco e penteado da Leia no Episódio 4 - os famosos coques-rosquinha. Logo na abertura, que se assemelha muito a tantas outras com as quais nos acostumamos, temos uma pequena amostra de que sim, veremos basicamente a mesma trama de sempre, mas com um adicional de velocidade na edição.

Sem spoilers, o que se pode dizer é que o novo filme da franquia tem tudo para agradar os fãs da série. J J Abrams, calejado com o público geek, tem os paranauê necessários para voltar a realizar a tarefa que a primeira trilogia fez com maestria, mas que foi esquecida pela segunda: contar uma história simples. Nada de tramas mirabolantes, reviravoltas inesperadas e sistemas políticos intergaláticos complexos.

Não é que o argumento seja tão simples assim, nem tampouco mais do mesmo. Tem lá aquela enxurrada de referências, tanto nos diálogos, quanto na ação. No entanto, mérito do diretor, os novos personagens adicionam algo que não vimos anteriormente. Em primeiro lugar, Finn, o Stormtrooper arrependido que larga as armas para fugir, nos dá uma perspectiva inédita e humaniza um personagem que, anteriormente, era apenas decorativo - para citar Michel Temer. BB8, o pequeno dróide esférico, tem a difícil tarefa de substituir o imbatível R2-D2 - e o faz com uma eficiência absurdamente incrível! Impossível não querer ter um boneco dele em casa.

O vilão da história, Kylo Ren, acrescenta outra novidade que, no meu ponto de vista, é o grande trunfo desse primeiro filme da nova trilogia: podemos ver a fisionomia e a expressão do vilão enquanto ele age. Bem diferente do que acontecia com Darth Vader, cuja voz e pantomima eram marcantes por conta da figura estática da máscara. Essa humanização de Kylo Ren proporciona a construção de um antagonista complexo e bastante interessante, interpretado à altura por Adam Driver.

Só gente bonita nessa tal Millennium Falcon!

As cenas de batalha ganharam ângulos bastante interessantes, com passagens de tirar o fôlego. E o mais bacana é que aquelas tomadas do cockpit das X-Wings, com os pilotos em primeiro plano, continuam as mesmas de anos atrás!

No fim das contas, o filme é entretenimento como entretenimento deve ser. Divertido, empolgante e com aquele desfecho que deixa o espectador desesperado para conferir o próximo capítulo.

Curioso foi, ao término da projeção, o comentário de um rapaz, catedrático de Guerra nas Estrelas, sobre o que havia acabado de ver. Meio cabisbaixo, me confessou:

- Achei o filme muito infantil.

Olhei para o lado. Lá estava minha pequena princesa rebelde, completamente excitada por tudo que tinha acabado de ver. Tive que fazer a réplica, inevitável:

- Me diga qual filme de Guerra nas Estrelas não é infantil. Inclusive, não é por isso mesmo que estamos aqui?

Que a Força esteja com vocês.

sexta-feira, outubro 30, 2015

Que horas ela volta?, de Anna Muylaert

No Brasil, esse país repleto de contrastes sociais, no qual a mercantilização da cultura é apenas uma pequena parte da grande mazela, o acesso ao cinema é cada vez mais dificultado. Para se ter uma ideia de como a coisa ficou elitizada por aqui, teve até crítico (?) de site famoso (??) de cinema criticando (né?) promoções com ingressos mais baratos, com medo de ser assaltado dentro da sala de projeção. É sério, teve isso mesmo!

E por que esse nariz de cera (expressão jornalística) antes da resenha (tô adorando esses parênteses todos) de Que horas ela volta? É que, parágrafo inicial posto, a maior parte dos espectadores que vai assistir ao filme é também aquela que faz o papel de antagonista na produção de Anna Muylaert - um antagonismo que, de tão arraigado pelos anos de colonialidade do nosso Brasil varonil, chegou até a passar despercebido por algumas patroas que, após a projeção, viram "nada demais, gente..." - tamanha a incapacidade de se colocarem no lugar  do outro.

O roteiro traz uma Regina Casé irretocável no papel de Val, uma empregada doméstica nordestina que trabalha numa casa da alta burguesia paulista. Como tantas outras, ela abdicou de sua vida (e família) para cuidar das dos outros - inclusive, afastando-se da própria filha. É esta que, logo no começo do filme, chega a São Paulo para prestar vestibular e se instala num colchão no quartinho 2 por 2 que fica na área de serviço da mansão.

A presença da jovem provoca reações das mais diversas intensidades em todos os moradores da casa. Guardadas as devidas proporções, o roteiro de Que horas ela volta acaba lembrando, de leve (até mesmo porque a intenção é essa), o magistral e inesquecível Teorema, de Pasolini (tava sentindo falta de uns parênteses). Se no filme italiano o drama é psico-erótico, na produção brasileira é psicossocial.

Não tive uma Val, mas tive camisa dos Ramones lavada e passada por outrem.

O filme emociona ao mesmo tempo em que incomoda - porque nos faz pensar muito sobre essa realidade da qual a gente, inegavelmente, de maneiras obtusas até, faz parte. Na verdade, emociona e incomoda quem tem um mínimo de capacidade de análise social, o que anda em falta por aí. Mas vá lá, em épocas na qual as pessoas reclamam porque as empregadas domésticas estão ganhando mais direitos (agora reclamam do tal cadastro para recolher FGTS), não deixa de ser um filme importante. Bom para espanar a poeira (sem trocadilhos) daquele canto do cérebro que tem a ver com a capacidade de enxergar o outro.

Cinema pode ser uma boa faxina vez em quando.

quarta-feira, agosto 12, 2015

O sal da Terra, de Wim Wenders


Wim Wenders, um dos meus diretores prediletos, resolveu fazer um filme sobre um dos artistas prediletos de uma esmagadora maioria de terráqueos, o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. A nova produção do cineasta alemão, em parceria com o filho da personagem documentada, acerta em cheio ao se debruçar não no conteúdo, mas nas histórias - e bota história nisso - por trás de cada registro imagético feito por um sujeito que tem o olhar, sim, diferenciado. Eu preciso, antes de continuar, deixar isto claro, sob pena de não ser mal interpretado: não gosto, tanto assim, das fotografias do Sebastião Salgado.

Isto posto, me causou bastante estranheza, logo na abertura do filme, Wenders dizer que comprou por um punhado de dólares, aliás, muitos dólares, uma fotografia de seu objeto documentado para pendurar na parede de casa. Começar seu documentário assim foi um erro.

Continuo com o que pode parecer mero acinte, mas garanto que não é: a obra do fotógrafo brasileiro tem muito mais apelo referencial do que propriamente artístico. Óbvio que eu sei que foto não é estética na essência. Esta vem depois, com o apuro da sensibilidade. Mas esses registros instantâneos que Sebastião Salgado faz, ainda que singulares, têm sua força estética muito mais concentrada na documentação do real.

Por exemplo, quando a lente dele focaliza a dura situação dos trabalhadores brasileiros, ali há mais apresentação do que representação. Apresenta a ideia de uma forma como poucos conseguem, e aí é que está o talento desigual dele. Admito que é uma questão minha comigo mesmo: enxergo um Salgado mais fotojornalista do que artista. E esse é o Salgado que quase admiro, ou melhor, que admiro de vez em quando: o fotojornalista de olhar brutalmente referencial. Que se esmera em um tema e busca realizar projetos a longo prazo, que geram livros - ao invés de mostras ou exposições de curta duração, daquelas que geram filas em centros culturais. Não existe aí uma diferença enorme para o que se proporia uma dita fotografia de arte?

Taí um Salgado  mais artístico que referencial. Bacana!
Posso, então, repetir que Wenders acertou em cheio em documentar o olhar, e não o suporte para o qual se olha. A câmera vai atrás da experiência do fotógrafo. E aí, Sebastião Salgado vira uma personagem das mais interessantes. É muito bacana ver como o humanismo permeia toda a vida de uma pessoa que abriu mão do conforto e da segurança, pessoal e financeira, para buscar novos olhares e novos ângulos para velhas questões.

Não comentarei aqui o trocadilho infame e meio ridículo que dá nome ao filme. Precisava mesmo disso que o Sebastião é salgado, é o sal da Terra? A expressão é retirada da bíblia, numa passagem que diz que os seres humanos são o sal da Terra. Então, podemos dizer que esse deus aí errou a mão e salgou a Terra demais. Mas isso é papo para outra mesa de bar...