sábado, maio 02, 2015

Magia ao luar, de Woody Allen

O velho Allen sabe mesmo fazer cinema. Isso já estava comprovado faz tempo. Parece, no entanto, que a idade lhe caiu muito bem. Sem aquela pretensão anterior de fundamentar seus filmes com inesgotáveis referências intelectuais, uma vez que não precisa mais provar nada a ninguém, suas produções têm a despretensão que tão bem faz à sétima arte. Em Magia ao luar, ele tem as luxuosas participações de duas grandes estrelas, igualmente despretensiosas: Colin Firth e seu sotaque refinadamente britânico e Emma Stone - na minha singela opinião, uma das atrizes mais fodas da atualidade.

Assumidamente (estranho ter que usar este advérbio, mas vá lá...) ateu, cético de carteirinha, Allen conta uma divertida história sobre uma moça que, ao que parece, tem poderes de ler o passado e o futuro. Quando uma rica família aristocrata se encanta com seus poderes sobrenaturais, a ponto de querer investir muito dinheiro nisso, um mágico especialista em truques de ilusionismo é chamado para tentar verificar se há uma emboscada por trás de tais dons adivinhatórios.

"Madame lê passada, presenta e futura... e faz as unhas."

O feijão com arroz para uma boa diversão está lá. Personagens interessantes, trilha sonora caprichada, figurinos nos trinques e ótimos diálogos, apoiados nas atuações irrepreensíveis dos dois protagonistas. Firth funciona como um alter ego de Allen, colocando a racionalidade combativa do diretor a favor da comédia de costumes.

Ponto para Allen!

sexta-feira, maio 01, 2015

Pelo malo, de Mariana Rondón

A Venezuela midiática é famosa por duas coisas: mulheres bonitas e Hugo Chávez. As primeiras, estão sempre em voga por conta dos concursos de misses. O segundo... Bom, foi figura com cadeira cativa nos noticiários do mundo inteiro - mais pelos erros do que pelos acertos, visto que tinha essa mania incorrigível de transformar pequenos êxitos em grandes fracassos. Apesar da máquina audiovisual venezuelana ter trabalhado incessantemente, enquanto o líder bolivariano era vivo, para construir a imagem de um grande Bonaparte, a sétima arte quase não foi acionada (salvo alguns documentários, como A revolução não será televisionada) para esse fim. Logo, é desalumiada essa relação das plateias latinas com o cinema venezuelano.

Isto posto, Pelo malo é um grande êxito. Lançado pouco tempo após a morte de Chávez, é capaz de contar uma história e contextualizá-la sem se tornar panfletário. E faz isso debruçado sobre um argumento que questiona valores arraigados na maioria das economias periféricas. Escorado na estética da miséria, o filme da diretora Mariana Rondón fala sobre sexualidade, racismo, patriarcalismo e subdesenvolvimento. O roteiro usa os cabelos crespos de um menino de nove anos como signo de uma sociedade que não enxerga o próprio umbigo e é incapaz de reconhecer a própria imagem. Lembra alguma coisa, Brasil?

Qual é o pente que te penteia?

Junior vive em um bairro pobre de Caracas. Sua mãe, solteira, precisa dar conta de criar também um bebê. Tenta, a todo o custo, conseguir novamente um emprego de segurança particular numa grande empresa, de onde foi afastada por indisciplina. Junior vive vagando pela comunidade onde mora, sem ter muito o que fazer. Sonha em ser cantor. E para isso, cisma que precisa alisar os cabelos seja lá como isso tiver que ser feito: sabão, óleo ou chapinha. Ele aprendeu que cabelo crespo é cabelo ruim - como mostra um programa na TV no qual uma moça negra repete exatamente esse discurso, enquanto luta pateticamente para alisar os próprios cabelos. Franzino e introspectivo, Junior precisa lidar com a personalidade inconstante de sua mãe, que acredita que ele está doente, "tornando-se um homossexual" - o que a deixa, além de apavorada, enfurecida.

Samuel Zambrano, o protagonista, enche a tela de franqueza e transparência com uma atuação emocionante e vibrante, como poucas crianças conseguem fazer. Samantha Castillo, atriz que interpreta sua mãe, está em plena sintonia com o ator mirim. Ela cumpre a difícil tarefa de dar vida a uma personagem bastante complexa, cuja beleza é áspera e dolorosamente sensual. A cena final, com os dois em plano fechado, é de nocautear qualquer um. Magnificamente executada e capaz de deixar um nó na garganta que dura por algum tempo após os créditos finais.

Que a Venezuela possa nos dar mais desses. Com ou sem regimes bonapartistas.

segunda-feira, abril 27, 2015

Cineminha com a Duda > Cada um na sua casa

Mais um texto da Maria Eduarda, essa mais nova - e bota nova nisso - colaboradora deste blog. Dessa vez, fomos assistir à nova animação da Dreamworks. Ela estava doida para conferir o filme e, depois, escrever o que achou para vocês lerem aqui. Ei-la, abaixo, a resenha.

Eu fui ao cinema ver Cada um na sua casa com o meu pai e a minha melhor amiga, Gabriela. Comi uma pipoca mega e levei balas e pirulitos. Isso é muito bom para acompanhar filmes, ainda mais porque são minhas comidas preferidas.

Agora eu vou contar como é o filme. Tinha um planeta em que viviam os boovs, e eles sempre fugiam do inimigo deles. O Oh, que era um dos boovs, era o mais engraçado e bonzinho. Eles mudam para o planeta Terra e o Oh encontra uma garota chamada Tip Tucci. Só que os boovs pegaram uma máquina e colocaram as pessoas, menos a Tip, em outro país para eles poderem morar no planeta Terra. A Tip acaba sendo separada da mãe. O Oh ajuda a Tip a procurar a mãe. Só que ele fez besteira: ele mandou um convite para sua festa e acabou mandando para todos no universo, inclusive os inimigos.

Esses são os boovs recebendo a mensagem que o Oh mandou.

A parte que eu mais gostei foi quando a Tip encontra o Oh. Ela está se escondendo dos boovs numa cabana e bota a cabeça para fora. Quando ela sai, vê o Oh e fica assustada. A parte que eu menos gostei foi quando a nave dos inimigos dos boovs anda na Terra. Era muito barulhenta. O meu personagem preferido é o Oh. Quando ele está rosa, é que gosta de uma pessoa. Quando está azul é porque está triste e quando ele está amarelo é porque está dançando. E quando ele está vermelho é porque está bravo. E quando ele está roxo é porque ele está normal. O personagem que eu menos gostei foi o boov do sinal. Ele é um boov que é um guarda de trânsito. Nem ele nem ninguém era amigo do Oh.

No final do filme eu fiz xixi por 20 horas, porque eu bebi muito suco de uva. A minha amiga Gabriela também, porque bebeu uma Coca-Cola de tamanho gigante.

Vale muito muito muito a pena ver esse filme no cinema.

terça-feira, abril 21, 2015

White zombie, de Victor Halperin

Se eu disser a vocês que o nome deste clássico do horror de 1932 em português é Zumbi - Legião dos mortos, todos vão compreender o fato de preferir, ali no título, o nome original, não é mesmo? Até mesmo pela importância de White zombie: estamos diante do que se supõe fortemente ser o primeiro filme sobre mortos-vivos da história do cinema - anterior até mesmo ao espetacular I walked with a zombie, que instaurou de uma vez por todas os zumbis como figura alegórica.

Aqui, os personagens ainda não comiam cérebro. À época, os Estados Unidos, país em que o filme foi produzido, saiam da Grande Depressão de 1929, que deixou estragos consideráveis não somente na economia, mas na organização social dos estadunidenses. O então presidente Franklin Roosevelt estava prestes a dar início ao New Deal, o plano de recuperação econômica que pretendia, no fim das contas, levantar o moral da população. O cinema serviu, inegavelmente, como uma ferramenta poderosa na mitigação da tal depressão e na disseminação do american way of life. Por isso, em, 1932, zumbis eram pobres incautos vítimas de transes provocados por magia negra - uma prática de "povos bárbaros" (leia-se sul-americanos com origens africanas) e que ia contra todos os princípios cristãos dessa nova América que precisava ser urgentemente higienizada.

Para o papel do mago de sotaque britânico que comanda um exército de zumbis em Porto Príncipe, capital do Haiti, foi escalado por módicos 800 obamas ninguém menos que Bela Lugosi, que mais tarde ficaria imortalizado como Drácula. Seus expressivos olhos esbugalhados dão vida a Murder Legendre, um sinistro habitante da ilha que, apesar de não ser insulano, usa rituais de voodoo para escravizar mentalmente seus inimigos, os quais mata antes, obviamente.

"Olhos nos olhos... Quero ver o que você faz!"

Um deles é o ricaço e excêntrico Dr. Bruner, que se apaixona por uma moça durante uma viagem a Nova York, e planeja colocá-la em transe para viver ao lado dela. Para isso, pede ajuda a Legendre. No entanto, precisa antes de mais nada se livrar do noivo da moçoila. Como? Convidando o casal para desfrutar das belezas naturais da paradisíaca ilha.

Em White zombie, a caracterização dos zumbis remete ao expressionismo alemão, que ainda era uma corrente estética europeia recente e influente. A maquiagem é pesada e o olhar, vivaz. A pantomima do morto-vivo criada por Halperin, caminhando sem controle a ponto até mesmo de cair de um desfiladeiro, seria mais tarde copiada por todas as produções do gênero (vide o comportamento dos zumbis do seriado The Walking Dead, sete décadas mais tarde).

Um excelente filme para entendermos melhor o papel narrativo desses desafortunados seres - que, mais tarde, seriam também vítimas da ganância nuclear da Guerra Fria. Mais tarde ainda, pobres coitados infectados por um vírus geneticamente modificado por temíveis armas biológicas.

Qual será a próxima hecatombe que nos transformará em zumbis?

sexta-feira, abril 17, 2015

Ida, de Pawel Pawlikowski

O vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro é diferente por vários motivos. Os estéticos, são muitos. Por exemplo, a ousadia de filmar em 3:4, o antigo formato televisivo, ao invés do tradicional 16:9. Há também a ausência completa e total de trilha sonora. No entanto, o que mais chama a atenção em Ida é a força narrativa que o filme consegue sem muito esforço.

O roteiro mostra uma noviça que, prestes a fazer o voto pelo celibato e pela reclusão para o resto da vida, vai em busca da única parente de que tem notícia. Sua tia, a quem pouco conhece, é uma juíza de raízes judaicas em um tribunal da Polônia dos anos 1960, durante o regime comunista pós-guerra. Mesmo levando vidas bastante opostas, as duas parecem ter em comum o gene da melancolia e a falta de perspectiva com os mundos que as cercam.

Para falar a verdade, nada é assim tão maravilhoso em Ida. Nem a fotografia em preto e branco, que é apenas acertada tendo em vista que o filme fala sobre tristeza. Além disso, é inverno. Ou seja, toda a Polônia está coberta de neve branca. As atuações também não são lá um destaque. Convincentes, sem dúvida. E então fica a questão: ué, mas é um filme para ser tão premiado - para quem não sabe, Ida recebeu nada menos que 67 condecorações ao redor do mundo, tirando o Oscar - assim?

É que em menos de 90 minutos - e está aí outra característica pitoresca desse filme -, Pawel Pawlikowski vai conduzindo o espectador com muita calma até um desfecho arrebatador, que vale pelo resto todo. É perturbador, daquele jeito polonês de ser perturbador.

Ida é uma Noviça Rebelde da vida real.

sábado, abril 11, 2015

Cineminha com a Duda > A Casa Monstro

Pois então! A partir de hoje, terei uma nova - e bota nova nisso - colaboradora para este pequeno e singelo blog. Maria Eduarda Moreira é o nome dela. Tem sete anos, está na segunda série e adora ler e escrever. E, obviamente, feito o pai, também curte ficar de bolete no sofá vendo um filminho. Abaixo, a sua resenha de estreia, sobre uma animação que vimos juntos.

Com as palavras, Duda. Palavras dela mesmo, de verdade.

Eu vi esse filme no meu Now. O filme é sobre um homem que tinha uma casa mostro e dos meninos que se chamavam DJ e Bocão. É assim: tinha um menino e a mãe dele viajou. E o DJ ficou um pouco com o amigo dele, que era o Bocão. O Bocão acabou jogando a bola na casa do vizinho que tinha uma casa-monstro. Só que o Bocão e o DJ não sabiam que a casa era um monstro. Aí eles foram até a casa do vizinho para pegar a bola. E quando caiu essa bola o vizinho saiu da casa e brigou com eles. Aí eles encontram uma menina chamada Jenny e ficam apaixonados e o DJ convida ela para ajudar a ver o problema da casa. Eles acabaram numa aventura monstruosa!

A parte que eu achei mais monstruosa foi a parte em que a casa virou um monstro terrível. E os personagens que eu mais gostei foram o DJ e a Jenny. Também gostei do Bocão. Todos são bons. E tem um personagem aterrorizante que é o velhinho que morava na casa. A parte que eu mais gostei foi quando os policiais foram engolidos pela casa.

Eu acho que vale a pena conhecer esse filme.

quinta-feira, abril 09, 2015

Tusk, de Kevin Smith

Posso ser rápido e rasteiro e fazer um trocadilho besta para definir o novo filme do rei dos geeks, um cara legal, Kevin Smith > Tusk é tosco. Mas é um tosco complexo. Não é qualquer tosqueira, não. É um daqueles casos que se enquadra na categoria das coisas que deixam você boquiaberto e sem saber se são boas ou ruins, mas que são certamente dignas de recomendação.

O roteiro, tosco, foi inspirado numa brincadeira que surgiu num dos episódios do podcast de Smith - que, diga-se de passagem, é um sucesso estrondoso entre os nerds do mundo todo. Após ler uma notícia verídica sobre um canadense excêntrico que oferecia hospedagem gratuita aos hóspedes que aceitassem vestir uma fantasia de morsa, o velho Kevin lançou duas hashtags no Twitter: uma delas, dizia sim para um filme fictício com o argumento baseado na tal notícia; o outro, um não. Qual delas vocês acham que ganhou?

Então, lá foi ele, Kevin Smith, o cara dos nossos filmes preferidos, tipo O balconista, Mallrats, Procura-se Amy e até Red State, fazer um filme sobre um sujeito que é sequestrado por um velho excêntrico que sonha em transformar um ser humano em uma morsa. Tosco?

Pois bem, Tusk tem lá suas semelhanças com a labuta de seu criador. O protagonista que sofre a transformação é um podcaster que publica na internet um vídeo de um moleque estranho cortando a própria perna acidentalmente. As semelhanças acabam aqui. Porque o resto é uma viagem! O vídeo faz tanto sucesso que ele vai até o Canadá entrevistar o pobre coitado desmembrado. No entanto, quando chega lá, acaba descobrindo que o garoto tirou a própria vida, motivado pela repercussão negativa do vídeo. Sem qualquer remorso, procura desesperadamente um personagem estranho que pague os 500 obamas gastos com a passagem de avião. Acaba seduzido por um anúncio no banheiro de um bar que fala sobre um marinheiro cheio de aventuras. Uma delas, envolvendo... uma morsa.

Aí, vocês já devem imaginar o que acontece. É uma espécie de Centopeia humana dirigida por um nerd. Dá para entender? A transformação do sujeito em morsa é lenta, dolorosa e angustiante - muita gritaria, muita agulha e linha, muito sangue, muita pele, muitos nacos de carne. O filme, que até o fim da primeira metade é uma comédia de humor negro com tons sombrios, se torna um híbrido de filme B com gore, com um desfecho que de tão vil e bizarro confunde a cabeça de quem aguenta a projeção até o fim (partindo de mim, isso é um baita elogio, não se enganem).

O pior, ou melhor, ou sei lá, é que Kevin Smith é um diretor de mão cheia. A fotografia do filme é ótima, sombria, fria. A montagem é bem bacana também, com sequências atemporais que vão construindo a imagem humanizada (olha aí a narrativa bacana) do protagonista para depois desconstruí-la completamente. A maquiagem é muito, muito, mas muito boa! Ou seja, a morsa humana é realmente asquerosa e dá até um certo incômodo - principalmente na cena em que ela é forçada a nadar pela primeira vez num tanque de água. Imagina aí.

No fim das contas, Tusk é como aquelas brincadeiras que acabam passando um pouco do limite: você até dá risada, mas meio cabreiro.

E eu só pensava naquela música dos Beatles!

domingo, março 22, 2015

Sniper americano (American sniper), de Clint Eastwood

Gente, o mundo está cada vez mais doido. Qual era a intenção de Clint Eastwood com esse filme? Seria uma crônica de guerra sobre um episódio recente da História? Uma homenagem póstuma para inspirar e arregimentar novos combatentes? Uma crítica ao crescimento e fortalecimento da indústria bélica? Um manifesto pacifista? - aí, não, né? Não combina com o cara. Bom, seria um alerta de utilidade pública sobre os problemas psicológicos que os soldados que retornam da guerra enfrentam? Quase isso. E o problema é justamente esse quase.

O roteiro de Sniper americano é baseado em fatos reais. Conta a história de Chris Kyle, um redneck texano que resolve se alistar no exército estadunidense depois de ver as torres gêmeas do WTC se esfarelando céu abaixo naquele fatídico dia 9 de setembro. Inflado pelo senso de patriotismo exacerbado, sua dedicação ufanista o leva a ser um dos melhores atiradores de precisão dos Estados Unidos, alçando-o ao estrelato. Sua dedicação é tamanha, que ele inclusive abre mão de estar com a família para proteger e salvaguardar o país que tanto ama.

Só que nem tudo são flores. Como a maioria dos combatentes que retornam ao seio da pátria, Kyle também sofre com disfunções psiquiátricas. Se torna um cara temperamental, explosivo, paranoico, introspectivo etc. Essa é a parte do filme em que pensamos que o velho Clint está criticando a situação em que se encontram os veteranos de guerra do seu país - e haja veterano, porque haja guerra, amigo! Mas nem... Kyle resolve que só vai abandonar a vida no front depois de cumprir uma missão movida, também, por questões pessoais: ele precisa colocar uma bala na cabeça do líder dos rebeldes iraquianos que matou seu amigo. Líder este de um grupo que mais tarde ficaria conhecido como... Estado Islâmico!

Aí vem a piração. Como a maioria dos atuais filmes desse gênero produzidos nos EUA atesta, parece que eles só conseguem fazer uma crítica às atrocidades da guerra, tanto em civis quanto em militares, depois que se passa muito tempo e a poeira da cólera se assenta. Assim como em Guerra ao terror, o que parece ser um alerta sobre os efeitos da guerra nos seres humanos acaba se transformando numa ode ao belicismo, uma justificativa para a doentia relação que os estadunidenses têm não somente com conflitos bélicos, mas com as armas de fogo. A diferença é que, se no vencedor do Oscar o protagonista volta à guerra, aqui no filme de Clint é a guerra que volta ao protagonista - uma estúpida ode ao que há de pior nesse mundo.

Conclusão, e ela pode parecer dura > Sniper americano é uma homenagem à guerra, e não ao ser humano.

sábado, março 14, 2015

A entrevista (The interview), de Evan Goldberg e Seth Rogen

Para quem não ligou o título à celeuma, A entrevista foi aquele que fez com que a Sony e a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos ficassem de cabelos em pé, alimentando um imbróglio diplomático que só não foi para frente porque a Coreia do Norte se supera em ser um país estranho, com um líder que de tão misterioso e imprevisível chega a ser caricato. Antes mesmo do lançamento do filme, um grupo de hackers invadiu o site da distribuidora e ameaçou botar pra quebrar, quebrar mesmo, toda e qualquer sala de cinema estadunidense que exibisse o dito cujo. O recado estava dado > eles ficaram bastante irritados.

Ora, ficaram boquiabertos com a ousadia de dois comediantes dos Estados Unidos em fazer um filme cujo roteiro gira em torno de uma missão secreta para assassinar Kim Jong-un - que, pasmem, fala inglês fluentemente e é um exímio conhecedor da cultura pop daquele país. Os protagonistas são dois janistroques que têm um programa sensacionalista de entrevistas na televisão. Por sorte, acabam conseguindo marcar uma exclusiva com o ditador norte-coreano em território inimigo. Logo, a CIA cresce os olhos e pede esse "favorzinho" - normal, né? - a eles, que têm a chance de se tornarem heróis.

Bom, vamos às observações. Uma sobre o papel de cada país envolvido nessa cambulhada.

Gente, A entrevista é tão bobo, tão infantiloide e tão insosso que, francamente, norte-coreanos, se ofender com isso é como levar a sério disputa de bola de gude entre alunos da quarta série do primário. Os Estados Unidos já pegaram bem mais pesado em outros filmes, com outros tantos desafetos. Inclusive, alguns deles ganhando prêmios - vejam só, norte-coreanos, prêmios! Esse aí o máximo que conseguiu foi uma discussão na web, e que não foi focada em política internacional, se limitando a uma horda de suítes nos jornais sobre o lançamento ou não lançamento do filme nos cinemas.

Já os Estados Unidos, ah, os Estados Unidos. Sempre trocam as mãos pelos pés quando o assunto é diplomacia, sempre trocam o pênis pela bunda quando o assunto é política internacional... Pois até quando o filme é uma comédia, tem lá no argumento um detalhe torto, aquela coisa que os torna meio que bundões, literalmente. A entrevista tem a sua freada na cueca: pouca gente percebeu - e aqui eximo os norte-coreanos, coitados, de culpa - que este filme despretensioso e imemorável entrou para uma minúscula lista de obras fictícias cujo mote principal é uma missão secreta para matar um líder máximo de outra nação que estivesse vivo. Hitler foi alvo de Fritz Lang em O homem que quis matar Hitler, produção de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial. Fritz Lang e Hitler, sacou?

Fato é que A entrevista é bem sem graça. Chato pra caramba. A dupla Seth Rogen e James Franco não está tão boa como em seus trabalhos anteriores e rende poucas piadas. Não fosse a repercussão dos ataques ao website da Sony, teria sido um verdadeiro fiasco. O mais bacana do filme, justamente, está fora da tela. No fato, por exemplo, de jovens sul-coreanos planejarem comprar centenas de cópias e milhares de pendrives contendo o filme e jogar tudo em território norte-coreano do alto de um drone. Ou do fato de existir um mercado negro na Coreia do Norte que faturou uma boa grana não só vendendo o filme, mas agendando sessões clandestinas, já que é proibido assisti-lo - coitados, perderam tempo e correram risco à toa.

Muito barulho por nada.

sexta-feira, março 06, 2015

Resenha e homenagem póstuma > Jornada nas Estrelas, de Robert Wise

Faz um tempo que eu queria escrever sobre Star Trek, o filme de 1979 dirigido Robert Wise. Agora que Leonard Nimoy se foi, com certo atraso faço aqui uma resenha e uma homenagem póstuma ao ator, eterno Spock, com suas orelhas pontiagudas e sua incrível prestidigitadora forma de comunicação com civilizações extra-terrestres.

Comprei o filme nas Americanas, numa daquelas gôndolas promocionais que vendem DVDs, essas mídias fadadas ao olvido, a versão original que foi às telas de cinema. Uma produção caprichada, mas que dividiu os fãs da série televisiva que já existia desde a década de 1960. Alguns gostaram, outros odiaram. Eu não fui verdadeiramente um fã da série, apesar de acompanhá-la naquelas tardes da extinta Rede Manchete (se não me engano, ia ao ar logo após Incrível Hulk, aquela série com o Bill Bixby). Pois eu adorei.

A primeira vez que vi a versão cinematográfica de Jornada nas Estrelas eu ainda era menino, e confesso que Guerra nas Estrelas, com sua aura de aventura fantástica, me enchia mais os olhos. Aliás, essa era uma diferença fundamental entre as duas franquias. Enquanto Luke e os jedis seguiam os moldes das narrativas heroicas, no melhor estilo Joseph Campbell (vide O mito do herói), a turma da USS Enterprise seguia a linha mais científica, ousando não somente numa argumentação sustentada pela astrofísica, mas também no design de produção.

O ótimo roteiro do filme de Wise surpreende. Inclusive, por ser ele o diretor. Explico aqui > é ele o responsável por um dos filmes que mais detesto neste mundo, a saber, A Noviça Rebelde. Ok, ele dirigiu o fantástico O dia em que a Terra parou - e uma vez que Spock não sai correndo e cantando feliz da vida em nenhuma pradaria alienígena, a minha implicância com Wise fica de lado. Aqui, no primeiro longa de Jornada nas Estrelas, o já lendário capitão Kirk precisa levar a Enterprise até uma misteriosa nuvem que destrói o que encontra pela frente e, pior, está a caminho da Terra. Para isso, conta com alguns personagens da série televisiva, incluindo o diplomata estelar (predicado por minha conta) Dr. Spock.

O clima de suspense é realmente fantástico! O desfecho, quando conhecemos as reais intenções por trás da força alienígena que ameaça os humanos, é bastante criativo e suscita questões que seriam abordadas intensamente nos filmes de ficção-científica a partir de então. Os efeitos especiais são bem bacanas. Há também uma cena curiosa e emblemática que mostra um dos ícones da série televisiva, o teletransporte, dando errado.

Um excelente exemplar cinematográfico de boa ficção-científica, por mais que os fãs ardorosos da série possam ter se decepcionado.