
Buscando fugir do rigor e da austeridade que norteavam a Nouvelle Vague, o cineasta francês Louis Malle resolveu, em 1960, filmar uma comédia rasgada. Adaptou para a tela grande um romance publicado apenas um ano antes, o homônimo Zazie no metrô. Porém, mesmo tentando se distanciar do enfoque proposto pela "nova onda", realizou uma obra bastante caprichada, charmosa e repleta de ousadia estética.
O roteiro conta a história de Zazie (a ótima Catherine Demongeot), uma menina de 12 anos, desbocada e desinibida, que chega a Paris para passar dois dias com o tio (Philippe Noiret, fantástico). Impedida de conhecer o metrô da cidade, que está em greve, ela flana livremente pelas ruas, conhecendo tipos estranhos e arrumando encrenca. Mais do que uma simples comédia, o filme funciona como uma divertida observação dos costumes da sociedade francesa da época, evocando de forma descontraída discussões sobre a arte e a sexualidade.
O que realmente chama a atenção no filme de Malle é a montagem, absolutamente estonteante! Com o rigor técnico de sempre, o diretor cria sequências inesquecíveis. Os frames são manipulados em diferentes velocidades, o que remete à fotografia das antigas produções cômicas do cinema mudo. A música, orquestrada, acompanha cada ação com precisão jônica. Os atores obedecem a marcações quase teatrais, e é isso que proporciona jogos de cena bastante criativos, usando apenas a câmera e a edição para criar efeitos cômicos.
Duas sequências inesquecíveis demonstram o talento de Malle, anos-luz à frente de seus contemporâneos: uma perseguição cartunesca que começa num mercado de pulgas e uma visita nada convencional à Torre Eiffel. É de bater palmas em pé, sozinho, na sala da sua casa!
Maravilhoso!







