quinta-feira, fevereiro 07, 2008

#9 - Narradores de Javé, de Eliane Caffé


Nelson Rubens já dizia que aumentava, mas não inventava. Em Javé, cidade fictícia do longa de Eliane Caffé, o uso desse lema pode ser a salvação de todos os moradores da cidade.

Prestes a ser inundada por causa da construção de uma barragem, ou seja, em virtude do "progresso", a pequena cidade baiana só tem uma maneira de escapar da catástrofe: se tornar um patrimônio histórico em virtude de algum feito ou ato de bravura. Para escrever as memórias de Javé, o povo confia os trabalhos ao outrora repudiado Antônio Biá, um ex-carteiro que floreava as histórias de outros, difamando quase todos os moradores da região. Uma espécie de Gregório de Matos, o Boca de Inferno, do interior. O que se segue são entrevistas nas quais heróis, mitos e lendas se confundem com a dura realidade de um povo esquecido justamente pelo tal progresso.

Eliane Caffé demonstra segurança na direção, e por isso mesmo o longa foi bastante premiado em festivais de todo o Brasil. Porém, o filme tem certos maneirismos dos quais a maioria das produções ambientadas no Nordeste tem. As principais delas: o perfil dos moradores e o tal sotaque. É estranho ver artistas, alguns deles globais, circulando entre gente sem dente, que fala diferente, se veste diferente e age diferente. Neste quesito, Narradores de Javé perde alguns pontos.

O destaque do filme é, sem dúvida nenhuma, José Dumont - ótimo na pele do tal Biá. A caracterização do sujeito cheio de escárnio e deboche é perfeita, sem nenhum excesso.


No fim das contas, um filme honesto e divertido.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

#8 - A inveja mata (Envy), de Barry Levinson


Se eu tivesse lido sobre A inveja mata, provavelmente não o teria visto. Perceba:

- o filme foi um verdadeiro fracasso de bilheteria nos Estados Unidos;

- foi lançado diretamente para o mercado de home video na Europa;

- aqui, bom, eu não conheço quem já tenho escutado falar. Porém, algumas cenas foram filmadas no Rio de Janeiro porque a equipe não tinha dinheiro para ir à Roma;

- no Festival de Cannes, Jack Black pediu desculpas por ter feito o filme.

Barry Levinson, o responsável pela obra supracitada, nem é dos mais desconhecidos. Para relembrar, ele assinou a direção de alguns clássicos da nossa época, como: Bom dia, Vietnã; Rain man; A revolta dos brinquedos e Sleepers. Nada mal.

A dupla de protagonistas, além de Black, conta também com Ben Stiller. Nada mal novamente, mas é de fato o trabalho mais fraco que eu já vi dos dois. O argumento até que é interessante e divertido: os protagonistas são vizinhos que trabalham na 3M (merchandising desnecessário no filme). Dia desses, um deles (Black) tem uma idéia aparentemente estapafúrdia: um spray que faz sumir cocô de cachorro, o Vapoorizer. O outro (Stiller) recusa uma sociedade e acaba se dando mal, pois o mata-cocô vira sucesso internacional de vendas. Logo, nasce a inveja. E com ela, confusões.

A partir daí a história vai ganhando contornos absurdos. Algumas poucas boas piadas e raras situações constrangedoras vão permeando as quase duas longas e arrastadas horas de filme. O roteiro é esburacado como a BR-101, mas ao final da projeção não compromete o entretenimento.

Os dez minutos finais e as cenas extras já nos créditos de encerramento são muito, mas muito boas! Muito melhores do que os outros 90 minutos de filme. Outro ponto forte é a atuação de Christophen Walken, interpretando um hippie-amigo-de-bar.

Não precisava ter pedido desculpas, Jack.

sábado, fevereiro 02, 2008

#7 - A culpa é do Fidel (La Faute à Fidel!), de Julie Gavras


Filha de peixe, peixinha é? Julie Gavras carrega não só o sobrenome do pai, mas também a construção de um cinema voltado para questões políticas e sociais. Em seu segundo trabalho como diretora, o primeiro a ganhar notoriedade, fica claro que o caminho a ser trilhado é quase igual ao do pai.

Em "A culpa é do Fidel", Anna de la Mesa, uma menina de nove anos, enfrenta as mudanças pelas quais sua família é obrigada a passar após os pais se envolverem com questões políticas. No caso, o governo de Salvador Allende no Chile, evento largamente abordado com maestria por Gavras-pai em "Desaparecido". Logo, a pequena Anna vê a casa cheia de barbudos, é obrigada a sair da aula de catecismo e passa a temer os "comunistas", que expulsaram sua empregada de Cuba e querem, segundo sua avó, roubar seus brinquedos para dá-los a outras crianças.

Não é a primeira vez que o olhar infantil se torna o guia e a lente para criar um universo ingênuo em torno de questões políticas. Porém, Gavras-filha demonstra segurança e sensibilidade, fazendo um filme divertido, sim, mas extremamente dramático e comovente, que trata não só da opção partidária, mas do enfrentamento das mudanças e o que elas acarretam na vida de qualquer um.

Nina Kervel-Bey, atriz que interpreta Anna, é simplesmente sensacional! Semblante fechado, ar blasé, sorriso duro. Junto ao seu irmão menor, François de la Mesa, interpretado pelo minúsculo Benjamin Feuillet, a dupla rende bons momentos.

Fica a vontade de saber como Julie Gavras se sairia em um filme com temática atual, sobre conflitos contemporâneos. Longe de ser panfletário, o que "A culpa é do Fidel" faz é uma singela homenagem, de filha para pai, pela bagagem cinematográfica e humana adquirida.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

#6 - Onde os fracos não têm vez (No country for old men), de Joel e Ethan Coen

Taí um filme que eu fazia questão de ver na tela grande. Películas dos irmãos Coen são mais bem digeridas na sala escura. Pena que essa máxima só foi percebida por mim quando do lançamento de "Fargo" no circuitão, nos idos de 1996 - minha primeira experiência coeniana (esse neologismo ainda vai pegar!).


Hoje, tudo o que eu esperava estava lá. De fato, "Onde os fracos não têm vez" é um filmaço, irretocável. Porém, me estranha muito o fato do mesmo ter sido indicado, e ainda por cima ser o favorito, para o Oscar de melhor filme. Explico-me.

A produção dos irmãos Coen é grandiosa, mas ainda tem o carisma e o espírito do cinema independente que tornou as histórias da dupla famosas. Independente, no sentido passional de se fazer cinema. De se preocupar com os mínimos detalhes, de preferir a criatividade ao tecnicismo, de dar prioridade ao conteúdo, sempre. Por isso, o filme conta com cenários incríveis, atuações primorosas, planos com tempos diferenciados, clímax na hora e na quantidade certa e o mais importante: imprevisibilidade! Pontos fracos, principalmente o último, na minha opinião, dos recentes premiados pela tal academia.

E olha que nem tem trilha sonora! E isso não diminui, de forma nenhuma, o envolvimento do espectador com o roteiro. Tem que ser gênio para dirigir um projeto assim... Você imagina um filme que não tem música vencendo uma estatueta?

O roteiro é baseado em um livro, e a maioria dos diálogos foi transcrita de forma literal para a grande tela. Conta a história de um sujeito aposentado que encontra corpos furados à bala, carros abandonados, vários quilos de droga e uma mala com milhões de dólares. Por causa de seus princípios, ele acaba se metendo com gente malvada. Muito malvada. Um deles é Anton Chigurh, interpretado magistralmente por Javier Barden, que rouba a cena toda vez em que é enquadrado. Perfeito! Da cabeça aos pés, um vilão inesquecível. E mais ainda, da cabeça: ao ver o corte de cabelo do seu personagem, Barden soltou a seguinte frase:

"Droga! Agora vou ficar pelo menos uns dois meses sem transar."

Vale registrar o diálogo da turma que estava sentada na minha frente ao término da projeção:

A: Putz, que merda de filme!
B: Mas você que escolheu...
A: Como é que eu ia saber que era ruim assim?
C: Era melhor ter visto o das pipas.
B: Então, vamos comer pizza?

Diálogo que reforça a minha desconfiança e espanto caso haja dentro de um daqueles envelopes os nomes dos irmãos Coen.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Voltamos a nossa programação normal...

Não. Eu não abandonei meu querido blog. Depois de mudanças, as físicas mesmo, de espaço, de casa etc, agora tenho novamente uma televisão, ligada em um aparelho de DVD, um computador, acesso à grande rede e filmes para assistir!

Aguardem...

quarta-feira, janeiro 16, 2008

#5 - Zen and Zero, de Michael Ginthor


Depois de "Endless summer", na década de 60, clássico de Bruce Brown que trazia uma narrativa completamente diferenciada para os filmes de surfe da época, as produções do gênero deram uma boa esfriada. Poucas eram as películas sobre o esporte e a maioria delas mostrava apenas os surfistas em ação. O panorama começou a mudar recentemente, com belos documentários sobre o surfe - incluindo o brasileiro "Surf adventures". Porém, o melhor deles é, sem dúvida, esse aqui.

O argumento de "Zen and Zero" é sensacional!

Cinco austríacos viajam até Los Angeles para encontrar Allan Weisbecker, um surfista lendário que perdeu sua casa após uma ressaca e, para continuar se sustentando, resolveu entrar para o ramo do comércio. Ele e seu amigo, Christopher, passaram a vender maconha. Um belo dia, eles abarrotaram uma lancha de erva colombiana da boa. Porém, a Guarda Costeira os pegou e o barco afundou. Após esse fatídico episódio, os dois amigos se separaram.

O tempo passou e Weisbecker virou escritor e roteirista da série televisiva "Miami Vice". Um de seus livros, "In search of Captain Zero", motivou os surfistas austríacos a fazer uma viagem até a Costa Rica para promover o encontro dos dois velhos amigos. Para os europeus, se o mar estivesse flat (sem ondas, para os leigos), no mínimo teriam uma boa reportagem.

Se o argumento por si só já vale, a parte técnica não fica para trás. Belíssima fotografia, enquadramentos espetaculares, trilha sonora excelente e o mais delicioso disso tudo: um texto sensacional! A busca pela onda perfeita e pelo Captain Zero, como Christopher ficou conhecido, também se transforma em uma narrativa contundente, com tiradas filosóficas, matemáticas, esotéricas e existenciais. Aos moldes do mestre Hunther Thompson e seu Jornalismo Gonzo.

Perfeito!

sábado, janeiro 12, 2008

#4 - Quarto 666 (Chambre 666), de Wim Wenders

É muito reconfortante saber que há gente interessada em, além de fazer cinema, discutir o fazer cinematográfico, o papel dos filmes e, por conseguinte, discutir o seu futuro. Foi o que um dos meus cineastas favoritos, Wim Wenders, propôs em seu média-metragem "Quarto 666".

Durante o festival de Cannes de 1982, o diretor reuniu um time de primeira categoria de realizadores para discutir o assunto. A concepção foi a mais simples possível. Em um quarto de hotel, com uma TV ligada, solitariamente, cada um dava seu depoimento sobre diversas reflexões levantadas por Wenders. Por exemplo: os filmes estão ficando cada vez mais televisivos? Os videocassetes vão acabar com as salas de cinema? Vivemos a era da morte da arte cinematográfica? Tópicos que mais tarde, em 1994, Wenders retomaria no fantástico “O céu de Lisboa”.

As opiniões são as mais diversas possíveis. Algumas rasas, outras extremamente contundentes. O mais interessante é perceber os contrastes que já existiam na época entre cinema de arte e cinema comercial - além da constatação de uma produção romanesca de todo o conteúdo da TV. Novas tecnologias (para a época, claro) também entram em atrito com os mais conservadores.

Só um Wim Wenders para reunir tanta gente boa. Ficou claro que as minhas escolhas como cinéfilo foram felizes, pois batem com as minhas convicções. Godard, Antonioni e Herzog dão um show à parte.

Spielberg só fala de cifras. Em dólares.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

#3 - The notorious Bettie Page, de Mary Harron


Nossos avôs provavelmente devem seus momentos de onanismo à Bettie Page, uma morena de curvas arredondadas, salto agulha, meia arrastão, chicote em punho, atitude sadomasoquista e aquela carinha de virgem de um lado, safada do outro. Era a década de 50, e a pin-up mais famosa do mundo enfrentava as cortes estadunidenses, acusada de deturpar a mente de jovens por todo o país.

Assim começa esse filme sobre a vida da moçoila que não tinha o menor pudor em ficar nua diante das câmeras, nem de se deixar fotografar amarrada ou amordaçada. O roteiro volta no tempo e mostra como Page encarava os valores religiosos de sua família conservadora e os constantes galanteios que recebia. Acompanhamos os primeiros trabalhos fotográficos, a tentativa de emplacar uma carreira como atriz e as desilusões pelo tortuoso caminho de um símbolo sexual.

O problema é que tudo isso é mostrado muito rapidamente. A diretora Mary Harron perde o pulso e acaba acelerando uma cronologia de fatos que poderia ser mais bem explorada. A montagem e a edição não exploram cenas que poderiam render bons momentos cênicos. A maior parte dos percalços que atingiram Page ficam subentendidos em cenas curtas, herméticas, como se o espectador fosse poupado de presenciar os dramas pessoais da pin-up.

Porém, justiça seja feita à direção de arte, ao figurino e à Gretchen Mol, de cabelos tingidos, que encarna uma Bettie Page extremamente sensual e verossímil. A fotografia em preto e branco, sem ajustes ou retoques, ajuda a recriar o clima dos anos 50.

Dizem que Scorsese também estava realizando um filme sobre a vida de Page. Porém, abriu mão do projeto depois que seu "O Aviador" emplacou. Sei não, mas acho que seria uma biografia bem mais contundente.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

#2 - The Harlem Globetrotters: The Team That Changed the World, de Michael Sear e Joseph Sharman


A NBA ajudou, sem dúvida alguma, a popularizar o esporte da bola laranja pelo mundo. Trata-se do melhor basquete jogado no planeta - coisa linda de deus. Conseqüência direta: estrangeiros na liga estadunidense, seleções do mundo todo fortemente competitivas e Argentina campeã olímpica. E quem ajudou a NBA a ganhar status de espetáculo foram os jogadores do Harlem Globetrotters.


É incrível como é fácil identificar quais produções foram feitas estritamente para TV, caso deste documentário sobre "o time que mudou o mundo". Não deveria ser assim, mas funciona desse jeito: edição, videografismo e som perfeitos. Conteúdo, direção, montagem e , o principal, valor documentacional, reprováveis.

O filme conta com boas imagens de arquivo de jogos na década de 40 e 50 e excelentes personagens dando depoimentos meia-boca demais. Samuel L. Jackson, Bill Cosby e até o candidato democrata popstar do momento, Barak Obama, ganham voz ativa para falar da paixão pelo basquete. Mas é tudo muito raso.

A discussão sobre segregação racial e o fato dos Globetrotters terem sido os primeiros negros a jogar na NBA estão lá - e consomem até grande parte do documentário. Porém, segundos depois, lá estão os comunistas, os alemães do pós-guerra e demais estrangeiros, todos em um grande caldeirão xenofóbico, ameaçando a tal democracia estadunidense, representada pelos jogadores que, até pouco tempo, segundo o próprio doc, eram xingados quando entravam nas quadras de seu próprio país. Dicotômico demais. Era inevitável que uma produção desse tipo, feita com provincianismo, não caísse num discurso político que já virou marca registrada dos nossos amigos norte-americanos.

Ora bolas, mas não está escrito ali no subtítulo que eles mudaram o mundo? De fato mudaram. Não o mundo, mas a maneira como esse mundo passou a ver, jogar e consumir basquete. Mas esqueceram de incluir essa parte no roteiro.

Fora tudo isso, se você, assim como eu, é apaixonado por basquete, vale a pena somente para ver alguns lances geniais e divertidos. Nada demais. Não pesquisei, mas acredito que existam documentários melhores sobre o mesmo assunto. Documentários sobre esportes.

domingo, janeiro 06, 2008

#1 - Ligeiramente grávidos (Knocked up), de Judd Apatow

Ano novo, vida nova, novos filmes e, para não perder o ritmo, nova contagem. E para início de conversa, ou melhor, de resenha, nada mais apropriado do que uma comédia. E nada mais apropriado ainda do que uma comédia sobre gravidez - uma vez que eu também estou ligeiramente grávido.


Esperava uma comédia hilária, incorreta e competente como foi o trabalho anterior de Apatow, "O virgem de 40 anos", que apesar do título canhestro e infantilóide é um filme engraçado sem cair em lugares comuns. Esse aqui é até engraçado e divertido. Porém, conhecendo o trabalho do diretor, era de se esperar algo um pouco mais transgressor.

O roteiro, sobre uma gravidez completamente inesperada, é bacana. Estão lá todas as fases a serem transpostas, contadas por semanas, e não mais por dias ou meses, bem como as frases que todos os grávidos, invariavelmente, são obrigados a escutar. Os comediantes têm um timing perfeito e até a trilha sonora colabora, com a bela "We are nowhere and it's now", do Bright Eyes, pontuando momentos de puro mimo e júbilo materno. Há, sim, pitadas de humor negro e algumas cenas graficamente mirabolantes, principalmente na hora do parto, mas nada de mais.

Eu até me emocionei nas últimas seqüências, obviamente, por minha condição gestacional. Ou seja, o filme fica mais cativante, e talvez por isso menos engraçado, para quem já passou ou está passando por esta indescritível experiência - seja ela fruto de uma trepada inconseqüente, como no filme, ou fruto de um relacionamento sólido e sadio.

É, casais... temei!