Gente, o mundo está cada vez mais doido. Qual era a intenção de Clint Eastwood com esse filme? Seria uma crônica de guerra sobre um episódio recente da História? Uma homenagem póstuma para inspirar e arregimentar novos combatentes? Uma crítica ao crescimento e fortalecimento da indústria bélica? Um manifesto pacifista? - aí, não, né? Não combina com o cara. Bom, seria um alerta de utilidade pública sobre os problemas psicológicos que os soldados que retornam da guerra enfrentam? Quase isso. E o problema é justamente esse quase.
O roteiro de Sniper americano é baseado em fatos reais. Conta a história de Chris Kyle, um redneck texano que resolve se alistar no exército estadunidense depois de ver as torres gêmeas do WTC se esfarelando céu abaixo naquele fatídico dia 9 de setembro. Inflado pelo senso de patriotismo exacerbado, sua dedicação ufanista o leva a ser um dos melhores atiradores de precisão dos Estados Unidos, alçando-o ao estrelato. Sua dedicação é tamanha, que ele inclusive abre mão de estar com a família para proteger e salvaguardar o país que tanto ama.
Só que nem tudo são flores. Como a maioria dos combatentes que retornam ao seio da pátria, Kyle também sofre com disfunções psiquiátricas. Se torna um cara temperamental, explosivo, paranoico, introspectivo etc. Essa é a parte do filme em que pensamos que o velho Clint está criticando a situação em que se encontram os veteranos de guerra do seu país - e haja veterano, porque haja guerra, amigo! Mas nem... Kyle resolve que só vai abandonar a vida no front depois de cumprir uma missão movida, também, por questões pessoais: ele precisa colocar uma bala na cabeça do líder dos rebeldes iraquianos que matou seu amigo. Líder este de um grupo que mais tarde ficaria conhecido como... Estado Islâmico!
Aí vem a piração. Como a maioria dos atuais filmes desse gênero produzidos nos EUA atesta, parece que eles só conseguem fazer uma crítica às atrocidades da guerra, tanto em civis quanto em militares, depois que se passa muito tempo e a poeira da cólera se assenta. Assim como em Guerra ao terror, o que parece ser um alerta sobre os efeitos da guerra nos seres humanos acaba se transformando numa ode ao belicismo, uma justificativa para a doentia relação que os estadunidenses têm não somente com conflitos bélicos, mas com as armas de fogo. A diferença é que, se no vencedor do Oscar o protagonista volta à guerra, aqui no filme de Clint é a guerra que volta ao protagonista - uma estúpida ode ao que há de pior nesse mundo.
Conclusão, e ela pode parecer dura > Sniper americano é uma homenagem à guerra, e não ao ser humano.
domingo, março 22, 2015
sábado, março 14, 2015
A entrevista (The interview), de Evan Goldberg e Seth Rogen
Para quem não ligou o título à celeuma, A entrevista foi aquele que fez com que a Sony e a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos ficassem de cabelos em pé, alimentando um imbróglio diplomático que só não foi para frente porque a Coreia do Norte se supera em ser um país estranho, com um líder que de tão misterioso e imprevisível chega a ser caricato. Antes mesmo do lançamento do filme, um grupo de hackers invadiu o site da distribuidora e ameaçou botar pra quebrar, quebrar mesmo, toda e qualquer sala de cinema estadunidense que exibisse o dito cujo. O recado estava dado > eles ficaram bastante irritados.
Ora, ficaram boquiabertos com a ousadia de dois comediantes dos Estados Unidos em fazer um filme cujo roteiro gira em torno de uma missão secreta para assassinar Kim Jong-un - que, pasmem, fala inglês fluentemente e é um exímio conhecedor da cultura pop daquele país. Os protagonistas são dois janistroques que têm um programa sensacionalista de entrevistas na televisão. Por sorte, acabam conseguindo marcar uma exclusiva com o ditador norte-coreano em território inimigo. Logo, a CIA cresce os olhos e pede esse "favorzinho" - normal, né? - a eles, que têm a chance de se tornarem heróis.
Bom, vamos às observações. Uma sobre o papel de cada país envolvido nessa cambulhada.
Gente, A entrevista é tão bobo, tão infantiloide e tão insosso que, francamente, norte-coreanos, se ofender com isso é como levar a sério disputa de bola de gude entre alunos da quarta série do primário. Os Estados Unidos já pegaram bem mais pesado em outros filmes, com outros tantos desafetos. Inclusive, alguns deles ganhando prêmios - vejam só, norte-coreanos, prêmios! Esse aí o máximo que conseguiu foi uma discussão na web, e que não foi focada em política internacional, se limitando a uma horda de suítes nos jornais sobre o lançamento ou não lançamento do filme nos cinemas.
Já os Estados Unidos, ah, os Estados Unidos. Sempre trocam as mãos pelos pés quando o assunto é diplomacia, sempre trocam o pênis pela bunda quando o assunto é política internacional... Pois até quando o filme é uma comédia, tem lá no argumento um detalhe torto, aquela coisa que os torna meio que bundões, literalmente. A entrevista tem a sua freada na cueca: pouca gente percebeu - e aqui eximo os norte-coreanos, coitados, de culpa - que este filme despretensioso e imemorável entrou para uma minúscula lista de obras fictícias cujo mote principal é uma missão secreta para matar um líder máximo de outra nação que estivesse vivo. Hitler foi alvo de Fritz Lang em O homem que quis matar Hitler, produção de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial. Fritz Lang e Hitler, sacou?
Fato é que A entrevista é bem sem graça. Chato pra caramba. A dupla Seth Rogen e James Franco não está tão boa como em seus trabalhos anteriores e rende poucas piadas. Não fosse a repercussão dos ataques ao website da Sony, teria sido um verdadeiro fiasco. O mais bacana do filme, justamente, está fora da tela. No fato, por exemplo, de jovens sul-coreanos planejarem comprar centenas de cópias e milhares de pendrives contendo o filme e jogar tudo em território norte-coreano do alto de um drone. Ou do fato de existir um mercado negro na Coreia do Norte que faturou uma boa grana não só vendendo o filme, mas agendando sessões clandestinas, já que é proibido assisti-lo - coitados, perderam tempo e correram risco à toa.
Muito barulho por nada.
Ora, ficaram boquiabertos com a ousadia de dois comediantes dos Estados Unidos em fazer um filme cujo roteiro gira em torno de uma missão secreta para assassinar Kim Jong-un - que, pasmem, fala inglês fluentemente e é um exímio conhecedor da cultura pop daquele país. Os protagonistas são dois janistroques que têm um programa sensacionalista de entrevistas na televisão. Por sorte, acabam conseguindo marcar uma exclusiva com o ditador norte-coreano em território inimigo. Logo, a CIA cresce os olhos e pede esse "favorzinho" - normal, né? - a eles, que têm a chance de se tornarem heróis.
Bom, vamos às observações. Uma sobre o papel de cada país envolvido nessa cambulhada.
Gente, A entrevista é tão bobo, tão infantiloide e tão insosso que, francamente, norte-coreanos, se ofender com isso é como levar a sério disputa de bola de gude entre alunos da quarta série do primário. Os Estados Unidos já pegaram bem mais pesado em outros filmes, com outros tantos desafetos. Inclusive, alguns deles ganhando prêmios - vejam só, norte-coreanos, prêmios! Esse aí o máximo que conseguiu foi uma discussão na web, e que não foi focada em política internacional, se limitando a uma horda de suítes nos jornais sobre o lançamento ou não lançamento do filme nos cinemas.
Já os Estados Unidos, ah, os Estados Unidos. Sempre trocam as mãos pelos pés quando o assunto é diplomacia, sempre trocam o pênis pela bunda quando o assunto é política internacional... Pois até quando o filme é uma comédia, tem lá no argumento um detalhe torto, aquela coisa que os torna meio que bundões, literalmente. A entrevista tem a sua freada na cueca: pouca gente percebeu - e aqui eximo os norte-coreanos, coitados, de culpa - que este filme despretensioso e imemorável entrou para uma minúscula lista de obras fictícias cujo mote principal é uma missão secreta para matar um líder máximo de outra nação que estivesse vivo. Hitler foi alvo de Fritz Lang em O homem que quis matar Hitler, produção de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial. Fritz Lang e Hitler, sacou?
Fato é que A entrevista é bem sem graça. Chato pra caramba. A dupla Seth Rogen e James Franco não está tão boa como em seus trabalhos anteriores e rende poucas piadas. Não fosse a repercussão dos ataques ao website da Sony, teria sido um verdadeiro fiasco. O mais bacana do filme, justamente, está fora da tela. No fato, por exemplo, de jovens sul-coreanos planejarem comprar centenas de cópias e milhares de pendrives contendo o filme e jogar tudo em território norte-coreano do alto de um drone. Ou do fato de existir um mercado negro na Coreia do Norte que faturou uma boa grana não só vendendo o filme, mas agendando sessões clandestinas, já que é proibido assisti-lo - coitados, perderam tempo e correram risco à toa.
Muito barulho por nada.
sexta-feira, março 06, 2015
Resenha e homenagem póstuma > Jornada nas Estrelas, de Robert Wise
Faz um tempo que eu queria escrever sobre Star Trek, o filme de 1979 dirigido Robert Wise. Agora que Leonard Nimoy se foi, com certo atraso faço aqui uma resenha e uma homenagem póstuma ao ator, eterno Spock, com suas orelhas pontiagudas e sua incrível prestidigitadora forma de comunicação com civilizações extra-terrestres.
Comprei o filme nas Americanas, numa daquelas gôndolas promocionais que vendem DVDs, essas mídias fadadas ao olvido, a versão original que foi às telas de cinema. Uma produção caprichada, mas que dividiu os fãs da série televisiva que já existia desde a década de 1960. Alguns gostaram, outros odiaram. Eu não fui verdadeiramente um fã da série, apesar de acompanhá-la naquelas tardes da extinta Rede Manchete (se não me engano, ia ao ar logo após Incrível Hulk, aquela série com o Bill Bixby). Pois eu adorei.
A primeira vez que vi a versão cinematográfica de Jornada nas Estrelas eu ainda era menino, e confesso que Guerra nas Estrelas, com sua aura de aventura fantástica, me enchia mais os olhos. Aliás, essa era uma diferença fundamental entre as duas franquias. Enquanto Luke e os jedis seguiam os moldes das narrativas heroicas, no melhor estilo Joseph Campbell (vide O mito do herói), a turma da USS Enterprise seguia a linha mais científica, ousando não somente numa argumentação sustentada pela astrofísica, mas também no design de produção.
O ótimo roteiro do filme de Wise surpreende. Inclusive, por ser ele o diretor. Explico aqui > é ele o responsável por um dos filmes que mais detesto neste mundo, a saber, A Noviça Rebelde. Ok, ele dirigiu o fantástico O dia em que a Terra parou - e uma vez que Spock não sai correndo e cantando feliz da vida em nenhuma pradaria alienígena, a minha implicância com Wise fica de lado. Aqui, no primeiro longa de Jornada nas Estrelas, o já lendário capitão Kirk precisa levar a Enterprise até uma misteriosa nuvem que destrói o que encontra pela frente e, pior, está a caminho da Terra. Para isso, conta com alguns personagens da série televisiva, incluindo o diplomata estelar (predicado por minha conta) Dr. Spock.
O clima de suspense é realmente fantástico! O desfecho, quando conhecemos as reais intenções por trás da força alienígena que ameaça os humanos, é bastante criativo e suscita questões que seriam abordadas intensamente nos filmes de ficção-científica a partir de então. Os efeitos especiais são bem bacanas. Há também uma cena curiosa e emblemática que mostra um dos ícones da série televisiva, o teletransporte, dando errado.
Um excelente exemplar cinematográfico de boa ficção-científica, por mais que os fãs ardorosos da série possam ter se decepcionado.
Comprei o filme nas Americanas, numa daquelas gôndolas promocionais que vendem DVDs, essas mídias fadadas ao olvido, a versão original que foi às telas de cinema. Uma produção caprichada, mas que dividiu os fãs da série televisiva que já existia desde a década de 1960. Alguns gostaram, outros odiaram. Eu não fui verdadeiramente um fã da série, apesar de acompanhá-la naquelas tardes da extinta Rede Manchete (se não me engano, ia ao ar logo após Incrível Hulk, aquela série com o Bill Bixby). Pois eu adorei.
A primeira vez que vi a versão cinematográfica de Jornada nas Estrelas eu ainda era menino, e confesso que Guerra nas Estrelas, com sua aura de aventura fantástica, me enchia mais os olhos. Aliás, essa era uma diferença fundamental entre as duas franquias. Enquanto Luke e os jedis seguiam os moldes das narrativas heroicas, no melhor estilo Joseph Campbell (vide O mito do herói), a turma da USS Enterprise seguia a linha mais científica, ousando não somente numa argumentação sustentada pela astrofísica, mas também no design de produção.
O ótimo roteiro do filme de Wise surpreende. Inclusive, por ser ele o diretor. Explico aqui > é ele o responsável por um dos filmes que mais detesto neste mundo, a saber, A Noviça Rebelde. Ok, ele dirigiu o fantástico O dia em que a Terra parou - e uma vez que Spock não sai correndo e cantando feliz da vida em nenhuma pradaria alienígena, a minha implicância com Wise fica de lado. Aqui, no primeiro longa de Jornada nas Estrelas, o já lendário capitão Kirk precisa levar a Enterprise até uma misteriosa nuvem que destrói o que encontra pela frente e, pior, está a caminho da Terra. Para isso, conta com alguns personagens da série televisiva, incluindo o diplomata estelar (predicado por minha conta) Dr. Spock.
O clima de suspense é realmente fantástico! O desfecho, quando conhecemos as reais intenções por trás da força alienígena que ameaça os humanos, é bastante criativo e suscita questões que seriam abordadas intensamente nos filmes de ficção-científica a partir de então. Os efeitos especiais são bem bacanas. Há também uma cena curiosa e emblemática que mostra um dos ícones da série televisiva, o teletransporte, dando errado.
Um excelente exemplar cinematográfico de boa ficção-científica, por mais que os fãs ardorosos da série possam ter se decepcionado.
quinta-feira, fevereiro 26, 2015
Selma, de Ava DuVernay
Filmes de personalidades históricas parecem estar em alta em Hollywood. Em alguns casos, isso é positivo, como acontece com Selma. Trata-se de um registro histórico que merece estar nas salas de cinema. Mais precisamente, fala sobre um momento crucial na vida e na militância de Martin Luther King Jr. - a marcha organizada de Selma, a cidade que dá nome ao filme, até Montgomery, ambas no estado do Alabama, palco de lamentáveis cenas de violência e desrespeito à população negra dos Estados Unidos. A série de protestos pacíficos tinha como objetivo garantir que os negros pudessem exercer livremente seu direito de voto.
O ponto forte do filme de Ava DuVernay é o clima de embate e suspense que percorre toda a narrativa. As cenas de conflito entre manifestantes e policiais são de tirar o fôlego e de descredenciar o ser humano como um organismo inteligente dotado de razão e sensibilidade. Uma vez que o pastor Martin Luther King Jr. pregava a resistência não violenta, seus seguidores, fossem negros ou brancos, católicos ou protestantes, ricos ou pobres, eram vítimas da covardia que tentava a todo custo dispersar as manifestações.
Outra característica interessante de Selma é mostrar os bastidores do poder, com foco na argumentação do então presidente dos Estados Unidos Lyndon B. Johnson em declarar apoio a Martin Luther King Jr., mas não exercer seu poder para garantir a correta aplicação do direito ao voto. Selma acabou chamando a atenção da mídia, atraindo holofotes de todos os cantos do país, arregimentando grande parte da sociedade civil a apoiar e exigir uma política social mais justa - um dos grandes pilares da campanha vencedora do partido democrata na época, e talvez até hoje.
As atuações estão todas em seus devidos lugares, rendendo bons momentos. Inclusive, a interpretação da apresentadora Oprah Winfrey, que segura a peteca e não a deixa cair. É ela quem assina a produção do filme ao lado de Brad Pitt, que diferentemente do que fez em outra produção sua, 12 anos de escravidão, não faz aqui nenhum papel de herói que salva o dia.
Mais que um bom filme, Selma é um filme necessário. Um justo registro sobre uma grande personalidade histórica que marcou líderes políticos e de movimentos sociais no mundo inteiro.
O ponto forte do filme de Ava DuVernay é o clima de embate e suspense que percorre toda a narrativa. As cenas de conflito entre manifestantes e policiais são de tirar o fôlego e de descredenciar o ser humano como um organismo inteligente dotado de razão e sensibilidade. Uma vez que o pastor Martin Luther King Jr. pregava a resistência não violenta, seus seguidores, fossem negros ou brancos, católicos ou protestantes, ricos ou pobres, eram vítimas da covardia que tentava a todo custo dispersar as manifestações.
Outra característica interessante de Selma é mostrar os bastidores do poder, com foco na argumentação do então presidente dos Estados Unidos Lyndon B. Johnson em declarar apoio a Martin Luther King Jr., mas não exercer seu poder para garantir a correta aplicação do direito ao voto. Selma acabou chamando a atenção da mídia, atraindo holofotes de todos os cantos do país, arregimentando grande parte da sociedade civil a apoiar e exigir uma política social mais justa - um dos grandes pilares da campanha vencedora do partido democrata na época, e talvez até hoje.
As atuações estão todas em seus devidos lugares, rendendo bons momentos. Inclusive, a interpretação da apresentadora Oprah Winfrey, que segura a peteca e não a deixa cair. É ela quem assina a produção do filme ao lado de Brad Pitt, que diferentemente do que fez em outra produção sua, 12 anos de escravidão, não faz aqui nenhum papel de herói que salva o dia.
Mais que um bom filme, Selma é um filme necessário. Um justo registro sobre uma grande personalidade histórica que marcou líderes políticos e de movimentos sociais no mundo inteiro.
Mesmo se nada der certo (Begin again), de John Carney
Posso resumir em apenas uma frase esse filme, e aí nem precisaria escrever mais nada > um filme mediano de muita música merda. Mas em respeito aos meus queridos e poucos leitores eu vou adiante para espinafrar um pouco mais essa perda de tempo chamada Mesmo se nada der certo - uma comédia romântica que tem apenas um mérito. Falaremos dele adiante. Por enquanto, o linchamento.
Logo nos primeiros minutos de projeção, a primeira música, os primeiros acordes menores, o primeiro lamento e eu já pensei cá com meus botões: nossa, parece aquela banda horrível, Maroon 5. Desconhecedor assíduo da música popularesca estadunidense - sou do tipo que confunde Nicki Minaj com Kylie Minogue (que é australiana) e não sabe a grafia correta de Beyoncé (tive que pesquisar no Google) -, foi só mais tarde que descobri que um dos protagonistas, ora, vejam só, é o vocalista da dita banda. Soubesse desde o início, teria me poupado de assistir ao filme.
Para piorar, Mesmo se nada der certo tem um dos atores mais insossos da atualidade, mesmo com a cara de bonachão simpático. Mark Ruffalo é fraco, muito fraco. E aqui está bem fraquinho, coitado. Faz par não romântico, mas cheio de tensão sexual, com a boa atriz Keira Knightley, cuja personagem, coitada, mais parece um fiapo de Madalena-arrependida, chata demais. No roteiro, os dois planejam dar a volta por cima. Ela, esquecer o pé na bunda do Maroon 5 e gravar um disco com suas composições próprias. Ele, dar a volta por cima no mercado fonográfico e provar ao ex-sócio que ainda pode produzir um artista de sucesso.
Ei, mas você não falou que tinha um mérito? - perguntam.
Tem. E lembrei de outros enquanto escrevia aqui. O bacana é que o argumento tem lá uma crítica ao star system do mundo da música. Questiona o que é o sucesso, para que serve uma composição, qual é o valor de um disco etc. De maneira meio torta, mas questiona. Outro ponto forte é o coadjuvante James Corden, responsável por uma cena interessante na qual, durante uma festa, desafia as pessoas a não se entregar e dançar uma determinada música. Dá vontade de fazer a brincadeira na próxima festa em que eu estiver presente. E, por último, é preciso admitir, o filme não acaba com o clichê máximo do gênero, o que o salva de ser uma catástrofe total e o mantém na linha da hombridade.
Ou seja, um filme mediano de música merda.
Logo nos primeiros minutos de projeção, a primeira música, os primeiros acordes menores, o primeiro lamento e eu já pensei cá com meus botões: nossa, parece aquela banda horrível, Maroon 5. Desconhecedor assíduo da música popularesca estadunidense - sou do tipo que confunde Nicki Minaj com Kylie Minogue (que é australiana) e não sabe a grafia correta de Beyoncé (tive que pesquisar no Google) -, foi só mais tarde que descobri que um dos protagonistas, ora, vejam só, é o vocalista da dita banda. Soubesse desde o início, teria me poupado de assistir ao filme.
Para piorar, Mesmo se nada der certo tem um dos atores mais insossos da atualidade, mesmo com a cara de bonachão simpático. Mark Ruffalo é fraco, muito fraco. E aqui está bem fraquinho, coitado. Faz par não romântico, mas cheio de tensão sexual, com a boa atriz Keira Knightley, cuja personagem, coitada, mais parece um fiapo de Madalena-arrependida, chata demais. No roteiro, os dois planejam dar a volta por cima. Ela, esquecer o pé na bunda do Maroon 5 e gravar um disco com suas composições próprias. Ele, dar a volta por cima no mercado fonográfico e provar ao ex-sócio que ainda pode produzir um artista de sucesso.
Ei, mas você não falou que tinha um mérito? - perguntam.
Tem. E lembrei de outros enquanto escrevia aqui. O bacana é que o argumento tem lá uma crítica ao star system do mundo da música. Questiona o que é o sucesso, para que serve uma composição, qual é o valor de um disco etc. De maneira meio torta, mas questiona. Outro ponto forte é o coadjuvante James Corden, responsável por uma cena interessante na qual, durante uma festa, desafia as pessoas a não se entregar e dançar uma determinada música. Dá vontade de fazer a brincadeira na próxima festa em que eu estiver presente. E, por último, é preciso admitir, o filme não acaba com o clichê máximo do gênero, o que o salva de ser uma catástrofe total e o mantém na linha da hombridade.
Ou seja, um filme mediano de música merda.
domingo, fevereiro 22, 2015
A teoria de tudo (The Theory of Everything), de James Marsh
Não se deixe enganar > A teoria de tudo é um filme sobre a relação - linda, diga-se de passagem - entre Stephen Hawking e sua companheira, Jane. O roteiro é uma adaptação do livro dela, que conta em detalhes os momentos, tanto os felizes quanto os difíceis, que ambos passaram juntos. E que não deixam de ser, como a obra do maior cosmólogo vivo do nosso tempo, inspiradores.
O filme também tem como foco a evolução da doença de Hawking, bem como o modo como ele a supera, já que seu cérebro não é afetado - ufa, hein humanidade? Mostra, inclusive, como foi desacreditado pelos médicos, que lhe deram apenas dois anos de vida. Atualmente, ele já passa dos 70...
Comparando A teoria de tudo ao filme do outro gênio britânico, resenhado aí embaixo, trata-se de uma obra mais bem acabada. A edição é melhor, a fotografia é melhor, o figurino é melhor, a direção de arte (que agora se chama design de produção, seguindo a onda) é melhor. Mas o roteiro fica um pouco aquém. Monstruosa mesmo, arrebatadora, impecável, e podia ficar aqui escrevendo uma centena de adjetivos e ainda assim seria pouco, é a atuação de Eddie Redmayne no papel principal. Aliás, parece que direção de atores é um ponto forte do até então desconhecido, ao menos a mim, James Marsh - dele, conheço apenas o bom documentário O Equilibrista. O elenco inteiro rende e não se deixa ser ofuscado pela opulência da interpretação de Redmayne.
Por ser entusiasta do assunto e leitor de Hawking, confesso que esperava um pouco mais de ciência e bem menos melodrama. No entanto, tenho que admitir que, mesmo com cenas bastante dramáticas, A teoria de tudo foge de forma elegante dos clichês comuns a esse gênero de filme, as famosas biografias de fundo romântico.
O filme também tem como foco a evolução da doença de Hawking, bem como o modo como ele a supera, já que seu cérebro não é afetado - ufa, hein humanidade? Mostra, inclusive, como foi desacreditado pelos médicos, que lhe deram apenas dois anos de vida. Atualmente, ele já passa dos 70...
Comparando A teoria de tudo ao filme do outro gênio britânico, resenhado aí embaixo, trata-se de uma obra mais bem acabada. A edição é melhor, a fotografia é melhor, o figurino é melhor, a direção de arte (que agora se chama design de produção, seguindo a onda) é melhor. Mas o roteiro fica um pouco aquém. Monstruosa mesmo, arrebatadora, impecável, e podia ficar aqui escrevendo uma centena de adjetivos e ainda assim seria pouco, é a atuação de Eddie Redmayne no papel principal. Aliás, parece que direção de atores é um ponto forte do até então desconhecido, ao menos a mim, James Marsh - dele, conheço apenas o bom documentário O Equilibrista. O elenco inteiro rende e não se deixa ser ofuscado pela opulência da interpretação de Redmayne.
Por ser entusiasta do assunto e leitor de Hawking, confesso que esperava um pouco mais de ciência e bem menos melodrama. No entanto, tenho que admitir que, mesmo com cenas bastante dramáticas, A teoria de tudo foge de forma elegante dos clichês comuns a esse gênero de filme, as famosas biografias de fundo romântico.
O jogo da imitação (The Imitation Game), de Morten Tyldum
Quando eu era criança, sempre ouvia meu pai contar a história de Alan Turing. Estamos falando daqueles tempos do monitor verde e preto, de DOS, de disquete Verbatim. Lá na casa dele, todas as senhas dos diversos serviços no computador tinham a ver com o matemático britânico. Era uma espécie de homenagem, reconhecimento, honra ao mérito. Já dizia meu progenitor, um especialista à época dele em computação e programação, que se não fosse o Turing, a gente não teria um computador em casa. Mais tarde, falou a mesma coisa sobre o notebook. Depois, mais tarde ainda, sobre o iPhone. E até hoje ele continua repetindo isso, não sem razão.
Por isso, já estava mesmo na hora das grandes plateias no mundo inteiro conhecerem a interessantíssima, ainda que lamentavelmente triste, história de Turing. Apesar de alguns exageros do roteiro, e de algum atraso na ideia de se fazer um filme sobre sua vida, O jogo da imitação é uma justa homenagem ao sujeito que conseguiu abreviar a Segunda Guerra Mundial quebrando o código das comunicações criptografadas do exército nazista - mas que foi exposto à humilhação pública por ser homossexual.
Atenção para possíveis spoilers adiante! Se bem que, vamos combinar, biografia não tem spoiler porra nenhuma, né?
O que o filme conta é que após a guerra Turing se envolveu com um garoto de programa que roubou sua casa. Inevitavelmente, as investigações acabaram levando os policiais a descobrir sua sexualidade. Acusado de depravação simplesmente por ser gay, o que era crime naquela época, ele foi processado. No entanto, uma vez que era notoriamente um herói de guerra, foi-lhe dada a opção de fazer um tratamento hormonal para castrar seus desejos sexuais. Cansado e com graves sequelas, ele não aguentou a pressão e acabou cometendo suicídio.
Porém...
O que o filme não conta é que Turing foi expulso da marinha britânica por ser gay, e não dispensado por causa do fim da guerra. Pior ainda, foi impedido de continuar suas pesquisas mesmo após o desenvolvimento, que também não aparece no filme, de seu primeiro grande computador, pai de todas as máquinas digitais, o Colossus. Outro ponto divergente ressaltado por quem realmente conhece a vida de Turing (aka meu pai) é que seu temperamento era calmo e amigável, muito diferente do retratado pelo roteiro.
Dissemelhanças à parte, o enredo é bastante interessante, envolvendo no mesmo caldo o suspense da guerra, a beleza da matemática e o absurdo da homofobia. A interpretação de Benedict Cumberbatch, ainda que talvez descolada da realidade, é perfeita. É, no fim das contas, o que dá ritmo e charme ao filme. Digno de premiação.
Por isso, já estava mesmo na hora das grandes plateias no mundo inteiro conhecerem a interessantíssima, ainda que lamentavelmente triste, história de Turing. Apesar de alguns exageros do roteiro, e de algum atraso na ideia de se fazer um filme sobre sua vida, O jogo da imitação é uma justa homenagem ao sujeito que conseguiu abreviar a Segunda Guerra Mundial quebrando o código das comunicações criptografadas do exército nazista - mas que foi exposto à humilhação pública por ser homossexual.
Atenção para possíveis spoilers adiante! Se bem que, vamos combinar, biografia não tem spoiler porra nenhuma, né?
O que o filme conta é que após a guerra Turing se envolveu com um garoto de programa que roubou sua casa. Inevitavelmente, as investigações acabaram levando os policiais a descobrir sua sexualidade. Acusado de depravação simplesmente por ser gay, o que era crime naquela época, ele foi processado. No entanto, uma vez que era notoriamente um herói de guerra, foi-lhe dada a opção de fazer um tratamento hormonal para castrar seus desejos sexuais. Cansado e com graves sequelas, ele não aguentou a pressão e acabou cometendo suicídio.
Porém...
O que o filme não conta é que Turing foi expulso da marinha britânica por ser gay, e não dispensado por causa do fim da guerra. Pior ainda, foi impedido de continuar suas pesquisas mesmo após o desenvolvimento, que também não aparece no filme, de seu primeiro grande computador, pai de todas as máquinas digitais, o Colossus. Outro ponto divergente ressaltado por quem realmente conhece a vida de Turing (aka meu pai) é que seu temperamento era calmo e amigável, muito diferente do retratado pelo roteiro.
Dissemelhanças à parte, o enredo é bastante interessante, envolvendo no mesmo caldo o suspense da guerra, a beleza da matemática e o absurdo da homofobia. A interpretação de Benedict Cumberbatch, ainda que talvez descolada da realidade, é perfeita. É, no fim das contas, o que dá ritmo e charme ao filme. Digno de premiação.
Birdman, de Alejandro González Iñárritu
Filmes com metalinguagem são difíceis de se fazer e de agradar. Para piorar, eu tenho um pé bem atrás com o Iñarritu, cuja estrutura narrativa costuma se repetir a cada novo trabalho. Por isso, as expectativas não eram das maiores com Birdman - apesar do cartaz prometer catapultar a carreira de Michael Keaton para o estrelato pós-ostracismo, como já foi feito com tanta gente em Hollywood (olha cheirinho de Oscar aí). Porém, preciso tirar o chapéu para Iñarritu > que filme bacana!
Acompanhamos a história de um ator que monta um espetáculo dramático na Broadway como último esforço para se livrar do estigma da personagem que lhe rendeu os louros da fama no passado, mas que ainda insiste em lhe fazer companhia - inclusive, na forma de uma presença esquizofrênica. Qualquer semelhança com a carreira de Keaton, o Batman mais criticado da franquia do super-herói, não é mera coincidência e só adiciona ainda mais conteúdo à metalinguagem proposta.
De forma voyeurística, somos testemunhas dos ensaios para a grande estreia. Para dar andamento ao projeto que pode mudar a sua vida, Riggan, o protagonista do filme e da peça dentro do filme, conta com uma atriz que realiza seu sonho de pisar na Broadway e um ator de métodos hiper-realistas. Não bastasse a ótima direção de elenco, com a brilhante Emma Stone e o sempre surpreendente Edward Norton (além das luxuosas presenças da bela Naomi Watts e do polivalente Zach Galifianakis), a montagem do filme é fantástica.
A câmera passeia pelos bastidores em closes extremos. A entrada e saída dos atores de cena não respeita a cronologia cinematográfica, e sim a teatral: não importa se um ator está declamando sua fala, a câmera se volta a ele em um momento aleatório, do mesmo jeito que o olhar se comporta no teatro. A metalinguagem se reforça aqui com o jogo de câmera virando o jogo de cena.
Mais impressionante ainda, e o grande trunfo de Birdman, é o casamento da linguagem cinematográfica com a metalinguagem. Iñárritu acerta em cheio ao dar ao drama contornos irreais, confundindo seu espectador a todo momento sobre o que é real e o que é imaginário. Vale destacar também a trilha sonora, que entra na proposta da metalinguagem uma vez que é executada somente por um baterista (olha aí, galera do Whiplash), artista de rua, que se torna vez em quando personagem.
Um filmaço! O primeiro que realmente gosto do Iñárritu.
Acompanhamos a história de um ator que monta um espetáculo dramático na Broadway como último esforço para se livrar do estigma da personagem que lhe rendeu os louros da fama no passado, mas que ainda insiste em lhe fazer companhia - inclusive, na forma de uma presença esquizofrênica. Qualquer semelhança com a carreira de Keaton, o Batman mais criticado da franquia do super-herói, não é mera coincidência e só adiciona ainda mais conteúdo à metalinguagem proposta.
De forma voyeurística, somos testemunhas dos ensaios para a grande estreia. Para dar andamento ao projeto que pode mudar a sua vida, Riggan, o protagonista do filme e da peça dentro do filme, conta com uma atriz que realiza seu sonho de pisar na Broadway e um ator de métodos hiper-realistas. Não bastasse a ótima direção de elenco, com a brilhante Emma Stone e o sempre surpreendente Edward Norton (além das luxuosas presenças da bela Naomi Watts e do polivalente Zach Galifianakis), a montagem do filme é fantástica.
A câmera passeia pelos bastidores em closes extremos. A entrada e saída dos atores de cena não respeita a cronologia cinematográfica, e sim a teatral: não importa se um ator está declamando sua fala, a câmera se volta a ele em um momento aleatório, do mesmo jeito que o olhar se comporta no teatro. A metalinguagem se reforça aqui com o jogo de câmera virando o jogo de cena.
Mais impressionante ainda, e o grande trunfo de Birdman, é o casamento da linguagem cinematográfica com a metalinguagem. Iñárritu acerta em cheio ao dar ao drama contornos irreais, confundindo seu espectador a todo momento sobre o que é real e o que é imaginário. Vale destacar também a trilha sonora, que entra na proposta da metalinguagem uma vez que é executada somente por um baterista (olha aí, galera do Whiplash), artista de rua, que se torna vez em quando personagem.
Um filmaço! O primeiro que realmente gosto do Iñárritu.
sábado, fevereiro 21, 2015
Whiplash, de Damien Chazelle
Não entendo tanto assim de jazz. Gosto muito, mas não sou dos mais estudiosos, o que nunca me impediu de ouvir discos de Miles Davis, John Coltrane, Thelonious Monk e Charlie Parker. Também nunca estudei música a ponto de ser especialista. Fiz lá minhas aulas de violão no Centro Musical Antonio Adolfo, mas era plenamente consciente das minhas limitações. Aliás, nunca toquei jazz - meu negócio era o rock de garagem, com minha guitarra distorcida a serviço do barulho. No entanto, acho que a minha paixão por música me permite definir Whiplash - e escrevo isso de forma lamuriosa - como a vitória da técnica sobre a sensibilidade.
O roteiro é simples: um jovem de 19 anos que quer se tornar o próximo Buddy Rich entra para a banda do conservatório de música. Lá, é desafiado por um professor que usa métodos nada tradicionais para levar seus pupilos ao limite. Só assim, alega, será possível surgir um novo Bird - a saber, o apelido de Charlie Parker. O grande desafio surge quando ele precisa tocar uma música (que dá nome ao filme) cujo tempo é bastante complexo - a saber novamente, 7/8. O garoto sua, sangra, tem ataque de pelanca e persegue isso como se fosse a coisa mais importante da sua vida.
Não há dúvidas de que se trata de um filme interessante em sua forma. As cenas musicais são muito bem filmadas, a trilha sonora, obviamente, é bem bacana e os atores estão fantásticos, em grande parte porque conhecem realmente os instrumentos que manipulam. Além disso, outro fato que torna Whiplash simpático é que ele é o concorrente ao Oscar de Melhor Filme com orçamento mais humilde da história da premiação. Um típico filme independente no meio de grandalhões com orçamentos astronômicos.
O problema é, repito, a vitória da técnica sobre a sensibilidade. É assim que se encara o mundo da música? Não é possível que o sucesso profissional de um músico amador seja proporcional ao número de vitórias em concursos musicais. Não é possível que tocar um duplo suingue em 7/8 o mais rápido possível faça dele um músico diferenciado. Mas é o que o argumento sublinha durante todo o filme, com duas cenas que reforçam a exaltação da técnica. A primeira é quando um jogador de futebol americano, tratado pelo roteiro como um janistroques, faz uma pergunta pertinente que é totalmente ignorada durante o filme todo: como é possível reconhecer o mérito de forma justa num concurso musical? A outra, patética, é quando o protagonista se senta diante da bateria e, sem a partitura, não consegue tocar a música. E o improviso? Não é o jazz também sobre isso? Usar a sua técnica, conseguida com muito suor e dedicação, para improvisar?
O desfecho é um cruel ato final de sadomasoquismo, fetiche que rasteja pelos cantos do filme todo, tanto na relação aluno x professor, quanto filho x pai, namorado x namorada etc. Uma demonstração enfadonha e inócua do virtuosismo, da técnica, passando por cima da sensibilidade como um rolo compressor.
O roteiro é simples: um jovem de 19 anos que quer se tornar o próximo Buddy Rich entra para a banda do conservatório de música. Lá, é desafiado por um professor que usa métodos nada tradicionais para levar seus pupilos ao limite. Só assim, alega, será possível surgir um novo Bird - a saber, o apelido de Charlie Parker. O grande desafio surge quando ele precisa tocar uma música (que dá nome ao filme) cujo tempo é bastante complexo - a saber novamente, 7/8. O garoto sua, sangra, tem ataque de pelanca e persegue isso como se fosse a coisa mais importante da sua vida.
Não há dúvidas de que se trata de um filme interessante em sua forma. As cenas musicais são muito bem filmadas, a trilha sonora, obviamente, é bem bacana e os atores estão fantásticos, em grande parte porque conhecem realmente os instrumentos que manipulam. Além disso, outro fato que torna Whiplash simpático é que ele é o concorrente ao Oscar de Melhor Filme com orçamento mais humilde da história da premiação. Um típico filme independente no meio de grandalhões com orçamentos astronômicos.
O problema é, repito, a vitória da técnica sobre a sensibilidade. É assim que se encara o mundo da música? Não é possível que o sucesso profissional de um músico amador seja proporcional ao número de vitórias em concursos musicais. Não é possível que tocar um duplo suingue em 7/8 o mais rápido possível faça dele um músico diferenciado. Mas é o que o argumento sublinha durante todo o filme, com duas cenas que reforçam a exaltação da técnica. A primeira é quando um jogador de futebol americano, tratado pelo roteiro como um janistroques, faz uma pergunta pertinente que é totalmente ignorada durante o filme todo: como é possível reconhecer o mérito de forma justa num concurso musical? A outra, patética, é quando o protagonista se senta diante da bateria e, sem a partitura, não consegue tocar a música. E o improviso? Não é o jazz também sobre isso? Usar a sua técnica, conseguida com muito suor e dedicação, para improvisar?
O desfecho é um cruel ato final de sadomasoquismo, fetiche que rasteja pelos cantos do filme todo, tanto na relação aluno x professor, quanto filho x pai, namorado x namorada etc. Uma demonstração enfadonha e inócua do virtuosismo, da técnica, passando por cima da sensibilidade como um rolo compressor.
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