quarta-feira, maio 01, 2013

#18 - Rota irlandesa (Route irish), de Ken Loach

Cinema político é para muito poucos. Não adianta, Ben Affleck. Não adianta, Kathryn Bigelow. Para argumentar politicamente em roteiros dramáticos é preciso ser, tipo assim, um Ken Loach - alguém comprometido com uma visão de mundo que vai além do estrelato e da fortuna ofuscantes de Hollywood. Anos depois de ser produzido e lançado lá fora, em 2010, Rota irlandesa chegou aos cinemas daqui no ano passado. Passou despercebido, coitado.

O filme dramatiza uma espécie de denúncia pertinente do pós-guerra no Iraque. Trata-se da proliferação de mercenários e grupos paramilitares atuando em Bagdá em busca de lucro com a situação de tensão permanente em que o país se encontra. O título do filme faz menção a uma das estradas mais perigosas do mundo, a tal rota irlandesa, que liga o aeroporto de Bagdá à chamada Zona Verde, uma área militarizada de segurança máxima que se tornou, também, o símbolo máximo da ocupação estadunidense no Iraque.

Acompanhamos a história de Fergus, um ex-militar inglês que trabalha para uma empresa de segurança privada que escolta estrangeiros pela rota irlandesa. Depois que seu amigo, também segurança, é assassinado brutalmente em serviço na região, ele busca desvendar o que realmente aconteceu. E dá de cara com uma realidade cruel e assustadora, onde manipula-se a guerra para benefícios escusos.

Loach não tem orçamento milionário. Seu filme é simples na estética, sem ousadias, sem explosões pirotécnicas, sem edição ligeira, sem atores badalados. É o conteúdo a grande estrela de Rota irlandesa, que se sobressai e salta aos olhos do espectador.

Ken Loach sempre vale a pena. Vale por uma aula de política internacional.

domingo, março 31, 2013

#17 - Moonrise Kingdom, de Wes Anderson

Muita gente por aí diz que Wes Anderson é um diretor indie. E por dois motivos. O primeiro, meio óbvio, é que o cara faz filmes independentes, sem estar atrelado aos grandes estúdios, o que lhe dá uma certa liberdade para exercer sua criatividade - e que criatividade! O segundo motivo, de cunho pejorativo, faz menção àquele estilo meio hipster que frequentemente é mal interpretado. Indie, hipster, cool ou não, fato é que pouquíssimos diretores sabem se utilizar tão bem da linguagem cinematográfica quando vão contar uma história. E, além disso, menos ainda sabem que cinema ainda é, lá no fundo, em sua essência, uma forma de contar histórias.

Seu novo filme é uma pequena fábula sobre o amor juvenil. No caso, entre um escoteiro órfão e uma adolescente lacônica superprotegida pelos pais. Ele foge do acampamento e ela, de casa. O casal de pombinhos marca um encontro no meio das pradarias da ilha onde moram, em busca de emancipação. Logo, colocam toda a localidade em alerta.

Como em todos os filmes de Anderson, os personagens são geniais. Ordinários por fora, complexos por dentro. E, justamente por serem tão simples, meio antiquados, esquisitões até, a identificação com pelo menos um deles é certa. Justamente o que faz com que a narrativa funcione, ainda que o argumento seja boboca. E é justamente por isso que Anderson tem o seu valor > estivesse esse roteiro nas mãos de outro realizador, um que não tivesse o apreço e o gosto pela direção de arte hipster ou indie, o resultado seria enfadonho.

Anderson é sujeito que conhece a fundo o ofício. Sua produção é tão caprichada, que dá gosto de ver. Fotografia, figurinos, trilha sonora, diálogos. É nítida a preocupação que ele tem com cada detalhe, o que faz, no fim das contas, com que o filme seja ímpar, só dele e de mais ninguém. Uma rubrica indelével. Além disso, sua habilidade para direção de atores é genial. Não à toa, seu elenco é primoroso e rende irretocavelmente. O casal protagonista é absolutamente incrível. Dois atores mirins com um futuro formidável. Tem Frances McDormand, uma das melhores atrizes em atividade há muito tempo. Tem Bruce Willis em um papel que não é de Bruce Willis. Tem o fantástico Bill Murray. E tem até Edward Norton, que ficou meio esquecido.

Se você catar pelo YouTube, vai encontrar vídeos humorísticos de como seriam alguns sucessos de bilheteria se fossem dirigidos por Wes Anderson. Tem Guerra nas Estrelas e Senhor dos Anéis. Uma piada com o jeito dele de fazer filmes. Ou seria um lisonjeiro reconhecimento pelo talento?

Fico com a segunda opção.

quinta-feira, março 21, 2013

#16 - Pindorama - A verdadeira história dos 7 anões, de Roberto Berliner, Lula Queiroga e Leo Crivelare

Documentários precisam de personagens. É a chave para que essa linguagem possa ser explorada de forma a prender o espectador na poltrona. E quando o objeto documental é interessante, o filme faz sentido por si mesmo - a proposta ganha forma naturalmente, quase espontaneamente, seguindo um curso que muitas vezes deixa diretores e produtores à deriva. Um argumento que tem bons personagens se apruma logo. É o caso de Pindorama - A verdadeira história dos 7 anões, documentário que retrata a vida de sete irmãos, todos anões, que mantém um circo em atividade no nordeste brasileiro.

A rotina é dura, o lucro é pouco e a fama é questionável. Pindorama é um circo regional nos moldes antigos, daqueles que são montados e desmontados da noite para o dia, com lona gasta e pano de roda desbotado. O documentário dirigido por Roberto Berliner, Lula Queiroga e Leo Crivelare se apoia, acertadamente, em dois caminhos diferentes. O primeiro é estético: as cores, os tons e os sons de uma arte que é cada vez mais rara no Brasil. O segundo é fetichista: o fascínio e a estranheza que anões podem provocar no público simplesmente por serem adultos muito pequenos.

Todos os sete irmãos, cinco homens e duas mulheres, têm suas vidas esmiuçadas. Compartilham histórias bonitas, tristes, dramáticas e românticas - do mesmo tamanho e intensidade que as nossas, de estatura dentro do padrão global. Seus parceiros, familiares e amigos, que vivem no entorno do circo, também ganham voz. Há, inclusive, depoimentos de pessoas que fugiram com o circo, numa das formas mais poéticas de rebeldia e emancipação, que ainda é possível somente nesse pequeno universo explorado pelo filme. Vale ressaltar a trilha sonora, composta por Lula Queiroga. Um show à parte, que complementa com sutileza a fala dos personagens.

Pode parecer que não há lá muitos objetivos em Pindorama, ou que o roteiro não justifique o trabalho. No entanto, o resultado é um divertido e inusitado estudo sobre o comportamento humano. Este, então, o motivo pelo qual vale tanto a pena investir no cinedocumentário.

Agradecimento especial a minha querida amiga Anna Julia, que me emprestou o filme, e com quem compartilho, além de uma certa visão de mundo, o apreço pelos documentários.

domingo, março 17, 2013

#15 - Raul - o início, o fim e o meio, de Walter Carvalho

Assistindo ao documentário de Raul Seixas, a gente percebe que sabe cantar junto quase todas as músicas dele. Cujas letras são, em sua maioria, geniais! Um artista carismático e, de certa forma, subversivo, flertando com o ocultismo e as sociedades secretas, merecia mesmo um filme. Raul era um baita personagem nos palcos. Não podia ser diferente num argumento que justificasse um documentário. Demorou, mas Walter Carvalho fez o favor de dirigir a cinebiografia de um dos maiores ícones do rock nacional. Ou alguém discorda?

O material de apoio é bastante rico. Há gravações inéditas, fotografias antigas e entrevistas com parceiros e amigos que acompanharam de perto a carreira de Raulzito, desde a adolescência, quando era um fanático por Elvis Presley, até os momentos finais de vida, quando foi vítima de ostracismo midiático e acabou sucumbindo de vez ao alcoolismo. Inclusive, Walter Carvalho não deixa de fora algumas polêmicas que cercaram a vida do músico, como o abuso das drogas, as conturbadas relações amorosas e a acusação que recaiu sobre Marcelo Nova, líder do Camisa de Vênus, de explorar Raulzito no final de sua vida, quando o levou a participar de uma turnê com mais de 100 apresentações.

Apesar das quebras dramáticas bastante sombrias, o que fica registrado são os bons momentos da vida de um sujeito que cantava aos quatro ventos o célebre verso faze o que tu queres, pois é tudo da lei. Numa das melhores sequências do filme, Paulo Coelho é importunado por uma mosca enquanto fala sobre o ex-parceiro. Em outra, podemos testemunhar a gravação, em estúdio, de "Eu também vou reclamar" (minha música predileta do cara) - uma verdadeira bagunça!

Não tem jeito: assim que o filme acaba, você tem vontade de gritar... Toca Rauuuuuuul!

sábado, março 02, 2013

#14 - A hora mais escura (Zero dark thirty), de Kathryn Bigelow

Eu assisti ao novo filme de Kathryn Bigelow antes da premiação do Oscar, mas só tive tempo para resenhá-lo agora, depois de Argo ter sido o grande vencedor daquela noite. Acreditei que seria esse o filme a desbancar o investimento de Steven Spielberg - como a diretora  já havia feito anteriormente, desbancando um investimento de James Cameron. E nem foi! Poderia, porque A hora mais escura guarda muitas semelhanças com Guerra ao Terror. Tanto na questão estética quanto na celeuma descabida provocada no público e na crítica.

O roteiro mostra os bastidores da missão que levou a óbito o então líder da Al-Qaeda e inimigo número um do governo estadunidense, Osama Bin Laden. Diz a cartela inicial se tratar de um filme baseado em fatos verídicos. Quem acompanhou o noticiário à época deve se lembrar como tudo se deu: dois helicópteros estadunidenses foram até uma casa, onde Judas perdeu as botas, numa região desértica do Afeganistão, para capturar Bin Laden. Um deles, inclusive, caiu no terreno baldio ao lado, uma parvalhice só, deixando exposta essa marca registrada dos EUA em confrontos bélicos. Bom, o resto você já sabe, ou não. Mataram o Bin Laden e o corpo, respeitando a doutrina islâmica, eles jogaram no mar. Tá bom, vai...

A protagonista de A hora mais escura é uma agente da CIA chamada Maya. Ela jura de pés juntos que sabe onde o barbudo malvado está entocado. Acaba travando uma guerra interna para que a tal missão saia do papel. Ao longo da projeção, vai conhecendo os meandros da guerra, acostumando-se com a moral torta e a ética obtusa que costumam imperar em regiões conflituosas.

Tem gente por aí dizendo que o filme de Bigelow é muito corajoso porque toca num assunto constrangedor para o governo dos EUA: a tortura. O filme começa com uma sessão de sofrimento físico intenso, no qual um agente estadunidense tenta extrair informações sobre uma célula terrorista. Ao mesmo tempo, na televisão, Obama diz ao povo que os Estados Unidos não praticam tortura e são completamente contra qualquer tipo de coisa parecida. O que muita gente que elogia o brio audaz e investigativo do filme esquece é que, durante os três minutos iniciais de projeção, quando ainda não há imagem alguma na tela, o espectador escuta gravações reais de gente morrendo nas torres do WTC naquele fatídico 11 de setembro. O que, inconscientemente, quiçá conscientemente nos mais emotivos, legitima qualquer cena na qual um islâmico é torturado. É o morde-e-assopra típico das produções do gênero na atualidade.

A câmera é ligeira, a fotografia é pueril, a edição é eficaz e blá blá blá. A diretora tinha, além do peso do nome, um bom orçamento para filmar A hora mais escura. Caprichou nos figurinos e nos cenários. Aproveitando a experiência militar de Guerra ao Terror, deu bastante realismo às cenas mais tensas que envolveram tiros e explosões. Nisso, ela acertou. Mesmo tendo que, segundo alega em entrevistas, correr com a produção e improvisar o tal esconderijo de Bin Laden - pois soube, com a produção já em andamento, mais detalhes sobre a operação que deu fim a essa pedra no sapato dos Estados Unidos.

Bigelow deixou o pior para o desfecho. Ou melhor, ignorou o que de pior dizem ter acontecido. Porque alegar que o corpo de Bin Laden foi jogado ao mar em respeito - leia bem, respeito - às tradições religiosas dele, é desrespeitoso demais com a comunidade internacional. Está na cara que o motivo de terem dado um chá de sumiço na caveira era um só: evitar que Bin Laden se tornasse um mártir. Portanto, ao invés de um cadáver ao mar, o que já seria demais para uma obra de ficção baseada em fatos reais, vemos a protagonista de cócoras chorando num avião, de volta para casa. A mesma mecânica de Guerra ao Terror: o protagonista entregue ao horror da guerra, mas o público aliviado com o trabalho que precisava ser feito.

Não ganhou o Oscar porque zumbis - quer dizer, iranianos - estão na moda.

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

#13 - Argo, de Ben Affleck


Nos filmes de Hollywood, os Estados Unidos sempre salvam o mundo. Em Argo, o filme que marca a estreia de Ben Affleck acumulando funções - galã e diretor - o negócio ficou mais patriótico ainda. Hollywood salva os Estados Unidos que salvam o mundo. E, apesar da sinopse indicar que trata-se de um drama, não se deixe enganar. Argo é um filme de terror. Ou melhor, um filme de terrorismo. Quer a prova? Substitua os iranianos por zumbis. É a mesma coisa.

O roteiro, cuja cartela inicial indica ser baseado em fatos reais, dá conta de um imbróglio diplomático que se transformou em um impasse político e, logo após, em um drama pessoal. Em 1979, depois da revolução islâmica que alçou ao poder o aiatolá Khomein, iranianos invadiram a embaixada dos EUA em Teerã para forçar o governo estadunidense a mandar de volta o ex-ditador, playboy e torturador Mohammad Reza Pahlavi, o xá deposto que ganhou asilo nas terras do Tio Sam. Cinco funcionários da embaixada conseguiram fugir, mas foram incansavelmente procurados pelo governo iraniano. Aí, a CIA entrou em ação para resgatá-los. O plano era mandar um agente até lá fingindo ser o produtor de um filme de ficção-científica, intitulado Argo. Os estadunidenses em perigo, abrigados na casa de um embaixador canadense, seriam membros da equipe técnica. E aí entrou Hollywood, que bancou toda a ideia, mesmo com o governo estadunidense achando tudo uma maluquice.

As cenas de invasão da embaixada são dignas dos melhores filmes de zumbis já produzidos. Há iranianos por tudo que é lado. Eles escalam muros, quebram vidraças, derrubam portas, arrancam grades, entram pelo porão. São incontroláveis, maltrapilhos, gritam palavras ininteligíveis. Como os mortos-vivos, são uma massa coletiva sem individualidade. E assim é o filme todo: um climão de suspense no qual iranianos estão à espreita. A diferença é que não comem cérebro. Se bem que não seria estranho se Hollywood, apoiada na islamofobia que toma conta dos Estados Unidos, propagasse por aí que a religião muçulmana preconiza a ingestão de massa cefálica.

Ok, tecnicamente o filme é bom. Fotografia, direção de arte, figurinos etc. Até a edição funciona. O que preocupa é a onda de produções que constroem uma imagem obtusa do mundo islâmico, tornando o cinema estadunidense, novamente, uma máquina de propaganda política, exatamente como foi feito durante a Guerra Fria, quando os russos eram a bola da vez. O que é o discurso da vitória de Rocky, que treinava socando carniça de boi, sobre o frio e temível Drago, que treinava tomando injeção de anabolizante num laboratório, em plena URSS, sob aplausos de Gorbachev?

Tem que ver isso aí...

Obs.: escrevi um artigo sobre os zumbis de Argo no blog do meu grande amigo Felipe "Bocão" Demier, o Convergência. Lá, a linguagem é outra, mais acadêmica, menos referencial. Quem quiser conferir, clique aqui!

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

#12 - Django livre (Django unchained), de Quentin Tarantino

Sempre que gosto muito de um filme, acho que a resenha fica ruim, enfadonha, baba-ovo, mela-cueca, nhé nhé nhem etc. Acho que não vai ser diferente com esta aqui, que trata do novo filme do Tarantino, o qual fiz questão de ver na tela grande. Não canso de repetir por aqui que o cara é um gênio. A cada filme que lança, cumpre as expectativas - se não as supera. Ninguém sabe melhor se apropriar de linguagens estéticas e cinematográficas do que ele. Faz isso com uma maestria tremenda, reinventando seu cinema.

Desta vez, em Django livre, ele brinca com os famosos e cultuados spaghettis italianos, westerns de baixo orçamento que pegavam carona no sucesso das produções de mestres como Sergio Leone, Sam Peckinpah e o precursor de todas as ideias filmadas no gênero, o cara cujos roteiros e argumentos foram copiados à exaustão, o inigualável John Ford.

Para homenagear os spaghettis, Tarantino escolheu uma produção italiana de 1966 que trazia o então galã Franco Nero como protagonista. Django foi um dos cowboys mais famosos da tela grande, ganhando centenas de continuações errantes numa espécie de franquia cinematográfica não autorizada. Houve uma época em que quase todos os mocinhos se chamavam Django, mesmo sem um pingo de semelhança com a história do personagem levado às telas por Sergio Corbucci, diretor do original.

Tarantino se apropria do nome, dos cenários, da belíssima trilha sonora original e até da tipografia dos créditos. Seu Django começa como o da década de 1960, numa paisagem árida. A diferença está no roteiro - e que diferença! O filme de Corbucci conta a história de um pistoleiro boa pinta, loiro, de barba mal feita e olhos verdes, que se vê numa enrascada após salvar uma mocinha. A caminho de uma cidade para devolver a bela donzela à liberdade, percebe que está no meio de um conflito entre membros da KKK e mexicanos malvados. No filme de Tarantino, Django é negro e se junta a um caçador de recompensas que lhe compra à força de mercadores sulistas ignorantes. Juntos, os dois vão em busca de um punhado de dólares (só para fazer um trocadilho com o gênero) e da esposa de Django, cujo paradeiro ninguém sabe ao certo.

Django é cinema na mais pura acepção da palavra. A projeção dura quase três horas, mas poderia durar mais três que não haveria problema. É entretenimento inteligente, que não abre mão do leque de opções que a linguagem cinematográfica permite. A quantidade de referências aos westerns inunda a tela de forma arrebatadora. No entanto, mesmo quem não é um admirador do gênero se diverte com as boas sacadas, os diálogos impagáveis e as reviravoltas geniais, marcas registradas de Tarantino.

Precisamos falar de Christoph Waltz, um dos melhores atores de cinema de todos os tempos. Alguém discorda? Sua caracterização é absolutamente perfeita, magistral. É impressionante, além do carisma e da competência, a facilidade do ator em interpretar qualquer papel. Seu Dr. King Schultz, dentista e caçador de recompensas, é tão intenso e profundo quanto o caçador de judeus Coronel Hans Landa. A dupla que faz com Jamie Foxx, o Django, é de uma harmonia só antes vista em Butch Cassidy, outro clássico do western, com Paul Newman e Robert Redford. Vale também bater palmas para os excelentes trabalhos de Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson.

Diversão do começo ao fim. E que fim. Simplesmente genial!



PS: quem será aquela moça de máscara vermelha e machado na mão? Segundo o diretor, há uma história só para ela...

PS2: ficou bem espivetada essa resenha, hein?

sábado, fevereiro 16, 2013

#11 - O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho

A sessão estava completamente lotada. Os espectadores, inclusive, comiam pipoca e bebiam refrigerante. Desde a estreia no circuito brasileiro, O som ao redor é um dos filmes mais comentados por aí. Já faturou diversos prêmios no exterior, atiçando a curiosidade de um público que voltou a curtir produções nacionais. E talvez esse tenha sido o problema. Talvez as cinco pessoas que abandonaram a exibição do filme de Kleber Mendonça Filho estivessem acostumadas com o padrão televisivo que contaminou a produção cinematográfica do país. Deram mole, pois mal sabiam o que os minutos finais de projeção lhes reservaria.

A ideia de O som ao redor é, de fato, sedutora. Trata com uma poética própria a questão do crescimento urbano desordenado, inserindo ali as também desordenadas e conturbadas relações entre familiares e vizinhos. Com um tempo diferente, a câmera percorre as casas e as calçadas de uma rua no Recife, na qual prédios de arquitetura inclassificável e gosto duvidoso lutam pela paisagem. A rotina dos moradores começa a mudar quando um grupo de seguranças autônomos oferece proteção mediante pagamento de mensalidade.

Tudo vai muito bem até até certo ponto do roteiro. A parte que irritou os cinco clientes insatisfeitos é a que melhor expressa os objetivos do diretor. Aparentemente, nada acontece. No entanto, o que se percebe é o que acontece em qualquer outra vizinhança real. Ruídos comuns, ordinários e costumeiros se impregnam à narrativa a ponto de dar tons oníricos ao filme, ainda que não se apoie em uma linguagem estética mais bem planejada. Nos momentos em que o cineasta se deixa levar pelos devaneios, acerta em cheio - ou erra, diriam os tais desistentes. Há belas cenas, bons diálogos e um certo humor com piadas inteligentes.

Porém, nos minutos finais, o diretor entrega de mão beijada para um público acostumado ao romanesco e fácil o que eles tanto querem ver: um fato, um fim. E um fato completamente fútil, rasteiro, enfadonho. Esvazia toda a textura que criou anteriormente dando sentido cartesiano ao filme de forma mal ajambrada e sem graça. Por que essa opção de estruturar um argumento tão sutil?

Há quem diga que O som ao redor é uma crítica ao furor brasileiro com a nova classe média. Ou seja, era eu quem estava querendo enxergar poesia onde não havia. No entanto, isso seria, na minha opinião, reduzir o filme - que, inclusive, falharia com louvor fosse esse seu objetivo. Vai muito além, mas muito além mesmo. E há quem não enxergue esse horizonte simplesmente porque não dá tempo ao olhar, e aos ouvidos, para se deixar tomar pelo argumento.

É um filme diferente. Poderia ter sido genial.

domingo, fevereiro 10, 2013

#10 - Deus da carnificina (Carnage), de Roman Polanski

Adaptar literatura dramática para a telona é algo complicado, que requer um cuidado dobrado por parte do diretor. Quando o texto é quase todo na íntegra e o espaço cênico é um só - no caso, um apartamento no subúrbio de Nova York - a tarefa fica mais complicada ainda. A câmera faz apenas o papel dos olhos do espectador. Ou seja, a direção de atores precisa funcionar para que os ouvidos, esses que são tão importantes quando se vai ao teatro, estejam atentos ao texto.

Polanski é um diretor experiente. Juntou quatro igualmente experientes atores para filmar Deus da carnificina, sucesso em palcos italianos do mundo inteiro, de uma só vez, sem parar, exatamente como num espetáculo teatral. São eles: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly. Dois casais que concordam em se reunir depois que o filho de um agride o do outro. O que era para ser um encontro de reconciliação acaba se tornando um embate que envolve conceitos éticos valores morais. À medida em que a discussão avança, os quatro se veem cada vez mais presos à discussão.

Por mais que o texto seja interessante, seu conteúdo não é exatamente tão denso a ponto de provocar o espectador. O trunfo está na forma absurda, invocando o Anjo exterminador de Buñuel, com a qual os personagens interagem com o ambiente, a ponto de não conseguir abandonar o pequeno apartamento em que se dá o embate. O mérito de Polanski está na maneira como adapta boas sacadas da peça ao filme - fazendo, inclusive, uma ponta como um vizinho que estranha o barulho da discussão no corredor do prédio, obrigando os quatro a voltar, novamente, ao apartamento.

Merece aplausos.

#9 - Twin Peaks - Os últimos dias de Laura Palmer (Twin Peaks - Fire walk with me), de David Lynch

Depois de ter a sua série cancelada pela NBC de forma abrupta e, podemos dizer, precoce, Lynch reuniu alguns dos colegas de Twin Peaks para filmar uma espécie de epílogo. Na verdade, o que ele queria era destrinchar um pouco mais a mística envolvendo a personagem de Laura Palmer. Isso porque ao longo série televisiva, não se vê o que realmente aconteceu com a moça. Por isso, Twin Peaks - Os últimos dias de Laura Palmer termina exatamente na cena que dá início à série.

É difícil falar sobre o filme sem dar conta da resolução da trama. Por isso, basta dizer que o roteiro mostra as motivações do assassino - revelado na primeira temporada da série - e alguns segredos que Laura Palmer mantinha, como por exemplo o vício em cocaína. No entanto, por mais que o enredo do filme seja, cronologicamente, anterior à série, quem não conhece os personagens ou não sabe muito bem do que Twin Peaks tratava, vai ficar boiando.

No mais, é uma aula de direção de Lynch, com direito a personagens bizarros, perversão sexual, trilha sonora estonteante, direção de arte impecável, diálogos elípticos e um clima de suspense absurdamente crescente. Mais uma obra-prima com a assinatura de um mestre.

Angelina, obrigado pelo presente!