sexta-feira, janeiro 28, 2011

#4 - Inverno da alma (Winter's bone), de Debra Granik


Sexta-feira de estreias. Uma delas é Inverno da Alma, que andou fazendo bastante sucesso no circuito independente e ganhou duas indicações para aquele prêmio estadunidense, o tal do Oscar. Vai concorrer nas categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz. Trata-se de um suspense minimalista, com estética interessante e roteiro bem amarrado. Nada de mais, nada de menos. Eis abaixo o que escrevi para o Jornal do Brasil.

O filme que causou certo furor em festivais independentes ao redor do mundo chega ao Brasil com um título que não faz jus ao seu conteúdo. Inverno da alma é uma simples e melancólica história de mistério que não tem a menor pretensão em discutir questões existenciais ou dar uma repaginada nos enredos de suspense. O roteiro é curto, grosso e uniforme, sem rodeios ou reviravoltas mirabolantes. Conta a história de Ree, uma jovem que se vê em apuros quando a polícia bate a sua porta avisando que a casa onde mora será penhorada caso o pai ausente, sob prisão condicional, não compareça diante do juiz para uma audiência. Sem pistas do paradeiro de seu progenitor e obrigada a cuidar dos irmãos mais novos e da mãe doente, a moça parte em busca de pistas. E, ao invés de colaboração, encontra desconfiança.

Inverno da alma funciona porque tem um apuro estético invejável. Da direção de arte à fotografia, passando pelo figurino e pelo cenário, é tudo frio e acinzentado. O clima de desolamento está em todas as sequências. Além disso, os atores cumprem de forma correta e rigorosa seus papeis de interioranos definhados pelo descaso e negligenciados pela boa fortuna. O roteiro é interessante e bem cerzido, por mais que as revelações, feitas paulatinamente ao espectador, não causem muita surpresa. Não é do mistério em si que o filme trata, e sim da maneira como as pessoas se relacionam quando se veem diante do perigo.

domingo, janeiro 23, 2011

#3 - Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas (Loong Boonmee raleuk chat), de Apichatpong Weerasetakhul


Eu costumo dizer por aí, para quem quiser ouvir, que não gosto de filmes de fantasmas. Porém, depois de assistir ao vencedor da Palma de Ouro em Cannes no ano passado, preciso repensar meus conceitos. É que Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas mostra que é possível dramatizar espectros a ponto de poetizar a tênue linha entre a existência e a ausência. Não é um filme para muitos. Porém, os poucos que estiverem dispostos a embarcar na onda do diretor tailandês Apichatpong Weerasetakhul, conhecido por fazerem coabitar em seus filmes o ficcional e o documental, vai ter uma experiência cinematográfica realmente enriquecedora.

O tal Tio Boonmee está enfermo, praticamente aguardando a morte, quando recebe a visita de alguns familiares. Refugiado em uma chácara nos confins da floresta tailandesa, começa a repassar toda a sua vida, refletindo sobre erros e acertos. Numa noite densa e escura, durante o jantar, recebe a visita de dois espectros: sua esposa e seu filho - este, metamorfoseado como uma estranha criatura, conhecida na região como macaco fantasma. A espontaneidade com que os seres do outro mundo se juntam aos viventes, além da profundidade do que têm a fazer e dizer, tornam Tio Boonmee uma pequena pérola do cinema asiático.

Weerasetakhul conta uma fábula mostrando total domínio da técnica. A fraca luz que banha seus personagens é magistral. As aparições são intrigantes, delicadas, e acontecem em meio à penumbra da noite ou à volumosidade da mata. Os atores, com pouca experiência, tem tempo de sobra para exercitar o jogo cênico, apoiados na cronologia oriental que encara todo o detalhe do movimento como passo necessário para que se enxergue o todo. Por isso, é preciso dar tempo ao filme, esquecer a eloquência e a verborragia ocidental que ditam as produções contemporâneas. Nesse aspecto, Weerasetakhul é quase como Tarkovsky: se um personagem atravessa um rio, o espectador acompanha a travessia de uma margem à outra, sem sobressaltos, podendo absorver o que de mais simples há na ação.

Dono de uma cinebiografia bastante contestadora, Weerasetakhul não se esquece de inserir, em meio à fábula, questões relacionadas ao seu país. São recorrentes as passagens que fazem menção à guerrilha, aos dogmas religiosos, à situação política e à xenofobia. Tudo isso sem perder o padrão estético apurado, sem abrir mão do lirismo.

Bom saber que o cinema ainda serve para encantar os olhos.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

#2 - O turista (The tourist), de Florian Henckel von Donnersmarck


Estreia hoje no circuitão o filme com um casal realmente sexy: Depp e Jolie. Pois o tiro saiu pela culatra. Em o Turista, uma das piores coisas é, justamente, a atuação do casal, cuja química não produz nem uma pífia faísca. Além disso, o roteiro é péssimo e a montagem bastante inexpressiva - mesmo com a romântica Veneza servindo de cenário. O resultado é uma bomba.

Escrevi uma resenha lá no meu blog no portal SRZD. Tá na pilha de ler? Clique aqui! E podem deixar comentários por lá, ok?

sexta-feira, janeiro 07, 2011

#1 - Enrolados (Tangled), de Nathan Greno e Byron Howard


Ano novo, contagem nova! E logo numa sexta-feira, dia de estreias. Confesso que gostaria de iniciar os trabalhos com uma resenha sobre um filme melhor. Porém, não tive tempo. Assisti à nova animação em 3D da Disney, Enrolados, sobre a Rapunzel, e escrevi uma resenha para o Jornal do Brasil. Compartilho a dita cuja, como de costume, abaixo.

Rapunzel não faz parte do quarteto fantástico de princesas da Disney, cujo escrete conta com Bela, Ariel, Jasmine e Branca de Neve. No entanto, a jovem nobre de longas madeixas é a primeira a ganhar um longa de animação em três dimensões, Enrolados. A personagem é novidade para a criançada da nova década, mas o roteiro segue a velha cartilha dos contos de fada: personagens maniqueístas, lições de moral, provações, redenções e, obviamente, o final feliz.

Acompanhamos a lenda da pobre princesa que é roubada do castelo quando ainda era bebê. Uma vez que seus cabelos têm o poder de cura e de rejuvenescimento, Rapunzel é mantida em cativeiro no alto de uma torre por uma bruxa malvada que se faz passar por sua mãe. Prestes a completar 18 anos, a jovem procura uma maneira de fugir e conhecer uma festa no reino, que curiosamente coincide com seu aniversário. Para isso, vai ter a ajuda de um atrapalhado ladrão. Algumas piadas recheiam a trama, que chegou a ser planejada, num primeiro momento, como uma continuação de Encantada. Não é o suficiente para prender a atenção dos adultos, mas vai deixar as crianças entretidas por 90 minutos em plena época de férias escolares.

sexta-feira, dezembro 31, 2010

#102 - Exit Through the Gift Shop, de Banksy


Para quem não o conhece, Banksy é simplesmente genial! Um dos maiores nomes do que se convencionou chamar de street art. Suas obras, nada convencionais, são apreciadas no mundo inteiro. Sua ousadia também. E a sua identidade é secreta. Por isso, antes mesmo de falar sobre Exit Through the Gift Shop, indico uma passada no site do cara, aqui.

O filme é um documentário que conta como a arte das ruas pode ganhar as galerias de arte, perdendo uma força contestadora em nome da mercantilização. Mais ainda: mostra como Banksy criou um monstrinho, Mr. Brainwash. Tudo tem início quando um cinegrafista, Thierry Guetta, decide fazer um filme sobre os grafiteiros. Correndo atrás de entrevistas com os artistas, ele tem em Banksy a sua grande estrela. Obcecado por imagens, registra tudo com a sua câmera. Porém, na hora de montar o documentário, o resultado não é satisfatório. Banksy, então, o aconselha a abandonar a câmera e fazer, ele mesmo, street art. Eis que surge o Mr. Brainwash.

Em pouco tempo, Guetta reúne a imprensa ao seu redor, se tornando um artista badalado e milionário. O valor artístico de suas obras, inevitavelmente, é contestado. Com Exit Through the Gift Shop, Banksy não quer discutir exatamente o comportamento do Mr. Brainwash, mas sim apresentar uma espécie de problema paradoxal: a arte de rua confinada em espaços fechados.

O filme contém boa parte das intervenções de Banksy, além de apresentar uma penca de novos artistas de rua com trabalhos incríveis. Por isso, é bem mais do que um doc problematizando a questão da obra de arte. E, por isso, vai interessar a diferentes tipos de público.

#101 - Policiais suecos (Kopps), de Josef Fares


O título pode fazer com que muita gente pense se tratar de um pornô gay, mas não é nada disso. Eu vi Policiais suecos no Festival Internacional do Rio de 2003, numa sessão com pouco mais de 7 pessoas. Convenhamos: a tradução de Kopps (no original), não ajuda. Apesar da despretensão, trata-se de uma comédia bem bacana, leve, que aproveita para tirar um sarro das produções hollywoodianas.

A história se passa em uma pequena cidade sueca na qual o índice de criminalidade é praticamente zero. Por isso, os policiais locais não tem muito trabalho, a não corriqueirices como resgatar gatos de cima das árvores. Com a chegada de uma inspetora federal, contratada para calcular se é viável manter o posto policial funcionando, os homens da lei precisam mostrar serviço. Por isso, começam, eles mesmos, a cometer pequenos delitos.

O elenco é bacana, os diálogos são bons e o humor é um pouco diferente do convencional. Destaque para as cenas de Torkel Petersson, que interpreta um policial com fantasias de ser como os tiras de filmes estadunidenses. O desfecho, quando parece que vai ser enfadonho, traz uma surpresa bastante divertida.

Difícil de achar, mas vale a pena procurar!

#100 - As diabólicas (Les diaboliques), de Henri-Georges Clouzot


Clouzot foi um dos grandes diretores do cinema francês, na vanguarda de um cinema contemporâneo, com linguagem apurada. Considerada uma das grandes obras de suspense da história do cinema, sem exagero algum, As diabólicas é um exercício cinematográfico único. Lançado em 1955, o filme prende o espectador na poltrona do início ao fim, com reviravoltas brilhantes.

O roteiro é sensacional! Uma mulher infeliz no casamento planeja a morte de seu marido, um perverso e cruel professor. Para levar o plano a cabo, tem a ajuda de uma secretária. Após envenenar o sujeito, as duas jogam o corpo dentro de uma piscina imunda, de águas turvas, na tentativa de simular um afogamento. Porém, ao esvaziarem a piscina, o corpo não está mais lá. Está dado o ensejo para uma história incrível que mistura suspense e terror de forma bastante original, com um desfecho genial.

É uma das grandes obras do suspense - pau a pau com Psicose. Inclusive, um fato curioso: Clouzot comprou os direitos da obra que deu origem ao filme horas antes de Hitchcock.

#99 - A fita branca (Das weisse Band), de Michael Haneke


Para melhorar o nível do pacotão de resenhas de fim de ano, um excelente filme. Demorei um bocado para conferir A fita branca, e acredito que deveria ter feito isso no cinema - e não em casa. A palma de ouro em Cannes 2009 ficou em boas mãos.

A imersão que o excelente roteiro proporciona é uma experiência arrebatadora. A fotografia em preto e branco, cuidadosamente pensada, enche os olhos. Os planos são bem estruturados e os diálogos vão, paulatinamente, funcionando como um artifício para trazer à tona uma história perversa, que tem como foco os efeitos da rigidez paterna sob crianças em fase de formação do caráter.

O roteiro mostra uma pequena comunidade agrícola, no norte da Alemanha, que começa a enfrentar uma sequência de misteriosos atos de violência. O narrador, um jovem professor, busca pistas que esclareçam e expliquem tamanha maldade em um local aparentemente pacato.

Li muitos artigos afirmando que Haneke traçava, então, uma história sobre a gênese do nazismo. No entanto, não consigo enxergar nenhum paralelo possível com isso, a não ser pelo fato da história se passar momentos antes da eclosão de uma guerra mundial. O roteiro de Haneke vai muito além: esmiúça a maldade latente que existe no ser humano, e que pode ser transmitida de geração para geração. Por isso, A fita branca é um estudo da condição humana.

Filmaço.

#98 - Sherman's way, de Craig M. Saavedra


Taí um típico filme de avião. Só assisti a Sherman's way porque era a única opção que parecia mais ou menos interessante durante o voo de volta de Buenos Aires. Para falar a verdade, eu nem me lembro direito do filme. Em primeiro lugar, porque já faz tempo que o assisti. Depois, porque a história é tão ruim, que não vale a pena gastar neurônio guardando os detalhes.

Pelo que me lembro, trata-se de uma daquelas tramas na qual um almofadinha fresco vira homem de verdade. O protagonista é um jovem abastado, filho de uma importante diplomata, que leva um pé na bunda da namorada. Desamparado, acaba pegando carona com um sujeito mais velho, com idade para ser a figura paterna que ele não teve. Os dois começam a desenvolver uma relação afetiva e tals... O moleque conhece uma menina que é um piteuzinho (Brooke Nevin, que, diga-se de passagem, é a única coisa interessante do filme) e se envolve com ela também.

E é isso, né? Ajudou a passar o tempo. Mais alguma coisa? Não... O filme é de 2008. Acho que nunca vai ser lançado por aqui. Só em avião mesmo. E nem vai fazer falta.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

#97 - Thriller - a cruel picture, de Bo Arne Vibenius


Nos exploitations, vingadoras de tapa-olhos são a coisa mais sexy do mundo. Para citar duas delas, das mais recentes: a Elle Driver (Daryl Hannah) de Kill Bill e a She (Michelle Rodriguez) de Machete. Porém, todas elas prestam uma singela homenagem à primeira moçoila curvilínea que teve o olho arrancado na tela grande, a pobre Frigga (Christina Lindberg), também conhecida como One Eye, de Thriller - a cruel picture. Que é um filme muito cruel, de verdade.

O roteiro conta a história desta moça que é abusada quando criança por um velho babão. Por conta do trauma, acaba ficando muda. Anos mais tarde, ao pegar uma carona para a cidade, é sequestrada por um inescrupuloso cafetão. O sujeito, que a mantém em cárcere, a vicia em heroína. Par asustentar o vício, a moça tem que se prostituir, sofrendo todo o tipo de humilhação. Chega a ter o olho arrancado por não querer cumprir ordens. Porém, aos poucos, ela vai se capitalizando para ir à forra.

As cenas de ação de Thriller ficaram conhecidas no mundo todo. Tiros, quedas, socos e pontapés são filmados em câmera muito lenta. No entanto, foram os detalhes por trás das câmeras que fizeram com que o filme se tornasse um clássico. Por exemplo: para filmar a cena em que o olho de Frigga é arrancado, foi usado um cadáver de verdade, fresquinho, que acabara de dar entrada em uma funerária. As cenas de Frigga se drogando são bastante pesadas. A atriz injetava uma mistura de sal e água.

Por tudo isso, vale a pena! Ainda mais se você for um fã do gênero.