segunda-feira, setembro 22, 2008

#74 - Ladrões de bicicleta (Ladri di biciclette), de Vittorio de Sica


Rever Ladrões de bicicleta é sempre um prazer. Melhor ainda ao lado de alguém que desconhece a obra. É interessante observar o efeito que o filme, produzido em 1948, é capaz de provocar, até hoje, em quem realmente gosta de cinema.

O roteiro conta a história de um homem, desesperado por um emprego em uma Itália arrasada pelo pós-II Guerra Mundial, que arruma um trabalho de colar cartazes. Como requisito, precisa de uma bicicleta. Penhora sua roupa de cama para isso, mas tem o veículo subtraído logo no primeiro dia de labuta. Passa, ao lado do filho, a buscar desesperadamente os ladrões por uma cidade miserável e desesperançosa.

Como um bom representante do neo-realismo italiano, estão lá as características que ditaram as regras do movimento: locações externas, atores amadores e forte temática social.

Sem querer soar pedante, mas é uma obra imprescindível para quem quer ter repertório cinematográfico!

sábado, setembro 20, 2008

Luzes, câmera... canção! - Yo La Tengo

Tem muito videoclipe por aí que vale por um bom curta! Diversos diretores consagrados começaram a carreira nesta modalidade que mistura som e imagem. Dois bons exemplos são Michel Gondry e Spike Jonze.

Por isso, resolvi criar uma nova seção por aqui. Chama-se "Luzes, câmera... canção!". Vou publicar periodicamente videoclipes que são verdadeiras pérolas. Têm roteiro, edição, montagem, fotografia e atuações dignas de pertecerem à sétima arte.

E para a estréia, a banda de indie rock Yo La Tengo, com a música "Sugarcubes". Para assinar com uma grande gravadora, o trio é forçado a se inscrever em uma escola que ensina como ser um verdadeiro astro do rock. No corpo docente, um sujeito de cara pintada como um dos integrantes do Kiss e um assistente de cabelo rosa. O roteiro conta com uma enxurrada de sátiras a grandes clássicos do rock. Destaque para a Foghat Rule: o seu quarto álbum deve ser duplo e ao vivo! Participação especial de David Coverdale (será que é ele mesmo?).



Na tela grande, o Yo La Tengo fez uma ponta no excelente O livro da vida, de Hal Hartley. No filme, Jesus Cristo volta à Terra na pele de um executivo de Wall Street para, ao lado de Maria Madela (PJ Harvey!), abrir o sétimo selo e acabar com o mundo. Detalhe: o tal Livro da Vida é um laptop da Mac... Imperdível!

quinta-feira, setembro 18, 2008

#73 - Surfwise, de Doug Pray


Há tempos que documentários de surf deixaram de ser apenas longas sessions com uma trilha sonora qualquer de fundo. Tem muito diretor bom esmiuçando os conceitos e a plástica que só um esporte praticado em extremo contato com a natureza pode proporcionar. Doug Pray (do ótimo Hype!) é um deles, e consegue com honras extrair do surf um belíssimo documentário.

Surfwise acompanha a trajetória nada comum da família de Dorian Paskowitz, um médico surfista que resolveu largar tudo e ir viver em um trailer, feito um nômade, parando de praia em praia. Ao longo do tempo, fez nove filhos e os manteve sempre debaixo de sua asa. Era contra educação escolar, detestava dinheiro, obrigava os rebentos a surfar e tinha opiniões muito curiosas sobre sexo - praticava a felação dentro do veículo, na frente dos pimpolhos. O filme mostra como uma filosofia de vida que antagonizava com o american way of life também podia sofrer a interferência de uma sociedade na qual o materialismo fica sempre em evidência.

Pray caprichou para contar essa bela e tocante história sobre um patriarca e a sua tentativa, com métodos incomuns, de manter a unidade familiar. A edição é sensacional e não se apóia apenas em belas imagens de praias paradisíacas. A trilha sonora é outro destaque, composta especialmente para o filme. O material de arquivo é vasto e curioso. As entrevistas vão ao ponto certo, sem receio de deixar vir à tona assuntos delicados como brigas, separações e mágoas.

O surfe está lá, e muito bem praticado, já que os Paskowitz cuidavam de uma das melhores escolinhas de surfe do mundo - ninguém menos que Kelly Slater foi um dos instrutores. Porém, é apenas um contraponto para as idéias e concepções do patriarca.

Sensacional!

segunda-feira, setembro 15, 2008

#72 - Meu nome é Taylor, Drillbit Taylor (Drillbit Taylor), de Steven Brill


Eu sabia que estava forçando um pouco a barra quando resolvi alugar Meu nome é Taylor, Drillbit Taylor - título patético em português -, a nova comédia da patota de Judd Apatow, escrita pelo também ator Seth Rogen. Porém, como a maioria dos filmes desta nova safra de comediantes tem conseguido me agradar, resolvi arriscar.

Foi assim: durante a primeira metade do filme, eu ri de verdade, sozinho; já durante a segunda parte, os risos foram ficando cada vez mais escassos, em progressão geométrica, até o desfecho chato, politicamente correto e previsível.

O roteiro conta uma história que estadunidenses adoram, mas que aqui não tem tanto cartaz: o bullying, que é quando os valentões torturam os coleguinhas mais fracos, em demonstração de covardia e comportamento anti-social. Três adolescentes do primeiro ano contratam um veterano de guerra para os proteger de dois trogloditas (um deles é o protagonista de Elefante, ou seja, cara de perturbado ele tem). Como catarses, nesses casos, são sempre bem aceitas pelo público, táticas de guerrilha são colocadas em prática na tentativa de acabar com a humilhação.

O filme tem lá seus bons momentos, principalmente com o trio de fracos e oprimidos: um magricela desconjuntado, um gordinho lazarento e um nerd convicto. Perfeitos, os três roubam a cena, ofuscando o fraco Owen Wilson, que não rende o que pode. O problema é que o roteiro não tem muito por onde fluir, já que o tema é batido.

A terceira parte, a dos extras, que costumam ser ótimos nos filmes produzidos por Apatow, também não rendeu risos.

quinta-feira, setembro 11, 2008

#71 - American hardcore, de Paul Rachman


Música pode ser uma sopa de letrinhas. São tantos os estilos e vertentes, que de vez em quando fica difícil acompanhar os rótulos midiáticos. Porém, o bom e velho hardcore ganhou um documentário só dele - esse aí do lado, American hardcore -, que explica melhor o que foi o movimento que, em meados dos anos 80, influenciou tantos outros.

Se o punk foi o do it yourself que se aplicava à cena cultural inglesa, o hardcore funcionou como a versão estadunidense desse esquema. Com variações, é claro. Trazendo à tona a dura realidade da classe média e dos subúrbios, a recessão e o governo de Ronald Reagan, as músicas eram mais velozes, furiosas e contestadoras. As letras, mais politizadas e provocativas. As apresentações, mais vigorosas e violentas. Stage diving (o famoso "mergulho" do palco para a platéia) e rodas de briga eram comuns e faziam parte do show. E congregavam moleques de 15 anos.

Moleques esses, de 15 anos, que formavam bandas em qualquer pocilga em que coubesse, ou não, um baixo, uma guitarra e uma bateria. O documentário do diretor Paul Rachamn tem material de pesquisa rico para quem curte o som. Apresentações e depoimentos de bandas como Bad Brains, Black Flag, TSOL, Minor Threat, D.O.A. e Flipper ajudam a dar forma a uma espécie de aula de música, com direito a dados estatísticos e geográficos, onde o assunto é o hardcore.

Eu era um desses moleques de 15 anos,tempos depois do ápice do movimento, de pernas lisas e espinha na cara, trancado no quarto ouvindo Dez Cadena, do Black Flag, berrar "I'm not a machine!" no último volume! Por isso, o filme me agradou muito! Porém, é preciso reconhecer: o argumento da película é hermético, focado inteiramente na ascensão e na queda do hardcore, o que pode desagradar quem não curte tanto esse estilo de som.

terça-feira, setembro 09, 2008

Pac-man: the movie

Enquanto Hollywood gasta fortunas na fórmula da vez, que é transpor para as telas os super-heróis dos quadrinhos, tem gente que com muito menos faz bem melhor. É o caso deste curta sensacional que anda circulando pela rede.

Quatro fantasmas estão presos em um labirinto tentando fugir de uma verdadeira ameaça: Pac-man! Depois de assistir a esse curta, você nunca mais vai ver os espectros coloridos do videogame mais famoso do mundo com os mesmos olhos...

Faz a gente lembrar que o cinema é muito mais do que efeitos especiais. Sensacional!

sábado, setembro 06, 2008

#70 - Repulsa ao sexo (Repulsion), de Roman Polanski


Dia desses eu em casa, sem nada para fazer, julguei que seria uma boa idéia ver um filme sozinho, de madrugada e no escuro. Ainda mais um clássico, Repulsa ao sexo, de 1965. Porém, ignorei o fato do diretor ser Roman Polanski...

Fazia tempo que eu não ficava tão apreensivo com suspenses. E olha que não há nada de mirabolante na película a não ser a magistral direção de Polanski. Utilizando-se de recursos comuns como iluminação, enquadramentos, trilha sonora e edição, o diretor cria uma narrativa densa e provocativa para contar a história de uma jovem reprimida sexualmente que, trancada em seu apartamento, começa a ter alucinações que envolvem estupro, surrealismo e mania de perseguição. Sinistro!

Os melhores filmes do gênero thriller psicológico viram histórias da carochinha perto de Repulsa ao sexo, que faz parte de uma trilogia que se completa com os também assustadores O bebê de Rosemary e O inquilino. Os três tratam sobre a opressão e a solidão causadas pela vida nas grandes metrópoles.

Quanto à interpretação, a bela e muito competente Catherine Deneuve dá conta do recado no papel de Carole Ledoux, a pobre vítima. O filme começa e termina em seus olhos, absortos no nada e irritantemente lacônicos.

Filme para ser visto preferencialmente de dia. Se for à noite, que seja de luz acesa.

terça-feira, setembro 02, 2008

#69 - Control, de Anton Corbjin


Tão bom quanto ouvir Joy Division é também poder ver a banda em ação - ainda que seja em um filme, com atores. O bom é que Control remonta com perfeição e lirismo a curta, conturbada e profusa vida do vocalista e front man Ian Curtis que, aos 23 anos, pôs fim à vida precocemente e encerrou os trabalhos de um dos grupos mais criativos e badalados do final dos anos 70.

Vivendo um relacionamento instável, casado com apenas 18 anos de idade, com uma filha pequena para criar e vítima de ataques epilépticos, a vida de Curtis não era nem um pouco colorida. Sendo assim, suas letras e composições seguiam o mesmo esquema. Por isso mesmo, a caprichadíssima fotografia de Control é toda em preto e branco, tornando o fotograma ainda mais fiel ao som do Joy Division: cinza, simples e direto.

O roteiro abrange desde as influências musicais de Curtis, ouvindo muito Bowie, até as últimas turnês pela Europa. Ao longo do filme, diálogos e ações vão contextualizando a gênese de clássicos da banda, como "She's lost control" e "Love will tear us apart". Todas as angústias e conflitos são tratados sem exageros, na medida certa para não extrapolar o limite entre o biográfico e o ficcional.

As interpretações são impressionantes. Em primeiro lugar, a semelhança física dos atores com os integrantes da banda original é espantosa. Para melhorar, todos eles aprenderam a tocar as músicas que fazem parte das cenas de apresentações ao vivo. Destaque para Sam Riley, que faz um Ian Curtis extremamente verossímil. E palmas para o diretor Anton Corbjin.

Aqui está uma das minhas músicas favoritas da banda, "Digital", em uma das melhores performances do filme.

Um belíssimo trabalho, digno do legado sonoro deixado pelo Joy Division.

domingo, agosto 31, 2008

#68 - Son of Rambow, de Garth Jennings


Criança tem cada idéia... Imagine poder usar poderes restritos aos heróis que salvam a Terra para resolver picuinhas no colégio, problemas na vizinhança ou simplesmente para virar o centro das atenções? No filme de Garth Jennings, o bacana é ser o filho do Rambo.

Baseado nas memórias do próprio diretor, o roteiro conta a história de dois amigos que se envolvem na filmagem de um curta caseiro, justamente o tal Son of Rambow - com esse w mesmo, sobrando, por causa de direitos autorais. Lee Carter, praticamente um minimeliante com problemas familiares, tem a câmera na mão; Will Proudfoot, praticamente um miniclérigo vindo de família conservadora, tem a coragem para fazer as cenas de ação mais perigosas. Juntos, eles dão asas à imaginação para inscrever o filme em um concurso de jovens talentos.

Tem muita gente apostando que Son of Rambow pode ser o novo Pequena Miss Sunshine. O motivo: a recepção calorosa que o filme teve no último festival de Sundance. Porém, as devidas proporções precisam ser guardadas. Sim, ambos falam sobre o olhar inocente das crianças. Porém, este aqui é britânico, com um humor completamente diferente do estadunidense, muito mais contido.

Jennings foi o responsável pela fraca adaptação da maravilhosa série de livros do Mochileiro das Galáxias. Aqui, apesar de alguns bons momentos, mais uma vez sua história não decola. A sátira possível ao Rambo original se perde um pouco em meio às histórias de vida dos personagens, criando um tom dramático que não funcionaria se a proposta fosse, realmente, fazer humor com a figura quase arquetípica de Rambo. O desfecho, presumível, comprova que faltou um pouco mais de ousadia.

sexta-feira, agosto 29, 2008

#67 - O médico e o monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde), de Rouben Mamoulian


O bem e o mal sempre convivem em conflito. Tema para novelas, filmes, livros, dogmas, filosofias e até para desenhos animados. O mito do médico e do monstro, do homem que se transforma em uma criatura odiosa, livre das amarras e do decoro impostos pela sociedade, foi o argumento explorado pelo escritor escocês Robert Louis Stevenson na obra "The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde", publicada em 1886 - faz tempo! A história ganhou diversas adaptações. Uma delas, para as telonas, foi justamente esta: O médico e o monstro de Rouben Mamoulian, filme de 1931.

O roteiro é quase fiel ao original. O altruísta e renomado cientista Dr. Jekyll é desacreditado pela comunidade científica quando propõe que o ser humano pode ser dividido em dois: o bom e o mau. Separando um lado do outro, seria possível alcançar a plenitude e a felicidade. Sofrendo por não ter o consentimento de se casar com a filha de um general, acaba acelerando o processo para descobrir a fórmula que vai provar sua tese. E, claro, serve de cobaia. Acaba se transformando em Hyde, uma espécie de monstro que não segue a etiqueta. O que fica explícito no filme inteiro é a angústia do homem em reprimir os seus sentimentos, pressionado por idéias pré-concebidas. Jekyll é o apolíneo, belo e correto. Hyde é o dionisíaco, perverso e hedonista. Um sente remorso e o outro, rancor.

Para uma produção de 1931, até que O médico e o monstro cumpre sua finalidade de ser assustador. É possível perceber na película certa influência do expressionismo alemão - corrente cinematográfica que filmou clássicos da ficção e do horror -, como a ação fechada nos rostos, abusando da expressão facial. A trilha sonora erudita também é recurso amplamente utilizado. Naquela época também havia efeitos especiais! A maquiagem no protagonista, o excelente Fredric March, era tão pesada, que quase danificou o seu rosto. Filtros são utilizados para caracterizar a transformação de Jekyll em Hyde.

No DVD, duplo, ainda há a versão de 1942, com Spencer Tracy e Ingrid Bergman. E, de quebra, o episódio do Pernalonga em que o coelho é adotado por um médico. Ninguém menos que o Dr. Jekyll!