sábado, fevereiro 21, 2015

Whiplash, de Damien Chazelle

Não entendo tanto assim de jazz. Gosto muito, mas não sou dos mais estudiosos, o que nunca me impediu de ouvir discos de Miles Davis, John Coltrane, Thelonious Monk e Charlie Parker. Também nunca estudei música a ponto de ser especialista. Fiz lá minhas aulas de violão no Centro Musical Antonio Adolfo, mas era plenamente consciente das minhas limitações. Aliás, nunca toquei jazz - meu negócio era o rock de garagem, com minha guitarra distorcida a serviço do barulho. No entanto, acho que a minha paixão por música me permite definir Whiplash - e escrevo isso de forma lamuriosa - como a vitória da técnica sobre a sensibilidade.

O roteiro é simples: um jovem de 19 anos que quer se tornar o próximo Buddy Rich entra para a banda do conservatório de música. Lá, é desafiado por um professor que usa métodos nada tradicionais para levar seus pupilos ao limite. Só assim, alega, será possível surgir um novo Bird - a saber, o apelido de Charlie Parker. O grande desafio surge quando ele precisa tocar uma música (que dá nome ao filme) cujo tempo é bastante complexo - a saber novamente, 7/8. O garoto sua, sangra, tem ataque de pelanca e persegue isso como se fosse a coisa mais importante da sua vida.

Não há dúvidas de que se trata de um filme interessante em sua forma. As cenas musicais são muito bem filmadas, a trilha sonora, obviamente, é bem bacana e os atores estão fantásticos, em grande parte porque conhecem realmente os instrumentos que manipulam. Além disso, outro fato que torna Whiplash simpático é que ele é o concorrente ao Oscar de Melhor Filme com orçamento mais humilde da história da premiação. Um típico filme independente no meio de grandalhões com orçamentos astronômicos.

O problema é, repito, a vitória da técnica sobre a sensibilidade. É assim que se encara o mundo da música? Não é possível que o sucesso profissional de um músico amador seja proporcional ao número de vitórias em concursos musicais. Não é possível que tocar um duplo suingue em 7/8 o mais rápido possível faça dele um músico diferenciado. Mas é o que o argumento sublinha durante todo o filme, com duas cenas que reforçam a exaltação da técnica. A primeira é quando um jogador de futebol americano, tratado pelo roteiro como um janistroques, faz uma pergunta pertinente que é totalmente ignorada durante o filme todo: como é possível reconhecer o mérito de forma justa num concurso musical? A outra, patética, é quando o protagonista se senta diante da bateria e, sem a partitura, não consegue tocar a música. E o improviso? Não é o jazz também sobre isso? Usar a sua técnica, conseguida com muito suor e dedicação, para improvisar?

O desfecho é um cruel ato final de sadomasoquismo, fetiche que rasteja pelos cantos do filme todo, tanto na relação aluno x professor, quanto filho x pai, namorado x namorada etc. Uma demonstração enfadonha e inócua do virtuosismo, da técnica, passando por cima da sensibilidade como um rolo compressor.


quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Boyhood, de Richard Linklater

Eu fiz isso de propósito > deixei a resenha de Boyhood vir exatamente depois - e acima - da de Interestelar. E o motivo é exemplar. Richard Linklater é exatamente o oposto, a antítese, o inverso, o antagônico do que é Christopher Nolan. Um diretor que faz filmes simples, mas com uma profundidade que é assustadoramente humana. Um sujeito que deixa a complexidade restrita ao desafio de seu ofício como cineasta, e não como traquinagem narrativa. Não me deixam mentir a quantidade exuberante de atores de Slacker, a fotografia cartunesca de Waking life, a perfeita ambientação de Jovens, loucos e rebeldes e o improviso verborrágico dos diálogos de Antes do amanhecer e cia. - só para citar alguns.

Em Boyhood a ousadia foi filmar por mais de uma década, no período da entressafra, os mesmos atores - a partir de um roteiro que acompanha o protagonista dos 6 aos 18 anos. O resultado é magnífico: uma história tão humana, com uma linguagem tão acessível, que é impossível não ser absorvido logo no começo da projeção. Trata-se de um belo epítome sobre crescer, sobre acreditar no futuro, sobre se colocar diante da vida e respeitar o lugar do outro - ainda que este outro seja o seu filho. Pois é, quem é pai tem uma fruição ainda mais intensa do belíssimo argumento de Linklater.

E aí, o roteiro em si pouco importa, porque a ideia está sempre lá, em cada fotograma, em cada enquadramento, em cada ação. Inclusive, nada de tão complexo acontece. Não há reviravoltas intensas ou pontuais. É a vida seguindo seu rumo. A dos atores, a do diretor, a minha, a sua, a do vizinho, a do tio da cunhada da sua prima. É o tempo como personagem inexorável, se distanciando do tratamento de grandeza matemática que é tanto explorada em Interestelar, mas que parece não dá em lugar nenhum no filme de Nolan.

Ainda tem o selo de qualidade Linklater. Direção de atores primorosa, com um belíssimo elenco - incluindo os mais velhos, Patricia Arquette e Ethan Hawke, cujo envelhecimento não é tão perceptível assim. Fotografia bem cuidada, com aquela luz que banha as reminiscências infantis. Diálogos em seus devidos lugares, com certa dose de improviso que os torna prováveis de serem reais. A cenografia que sabe tirar proveito dos fatos cronológicos, sem precisar fazer esforço para criar marcos temporais.

Ah, e um desfecho dos mais singelos que coroa o esforço de Linklater em fazer um filme que talvez seja o mais perto que o cinema já tenha chegado em tentar responder o que faz a vida ter sentido - bem diferente de perguntar qual é o sentido da vida, né Nolan?

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Interestelar (Interstellar), de Christopher Nolan

Sou da opinião que Christopher Nolan é um diretor com uma mania irritante: a de complicar o que já é bem complexo. Seus filmes têm roteiros que dão um nó na narrativa para depois tentar puxar uma pontinha frouxa e salvar o argumento. Mas aí, quando a gente vê, já é tarde demais e o nó não tem mais como ser desfeito. É nessa hora, sempre lá para os vinte minutos finais, que a corda dele fica com um nó na altura do pescoço. E como ele se livra disso? Com a tesoura do clichê.

Em Interestelar é assim. O argumento é primoroso! Bem cuidado, bem amarrado e bem crível - o que já é 80% de sucesso para um bom filme de ficção-científica. Tanto que a gente até esquece essa babaquice midiática de que esse foi o filme mais longo já rodado em IMAX. Roteiros que trabalham em cima de hipóteses plausíveis costumam prender a atenção do espectador mais desacostumado com teorias científicas, até mesmo quando se trata de física quântica, um assunto muito comentado, mas muito pouco compreendido.

Nolan faz certinho. Explica as entrelinhas das equações físicas, apresenta seus personagens com bastante calma e coloca em discussão questões existenciais, envolvendo o espectador num cenário futurista não muito distante e bastante possível no qual a humanidade enfrenta uma praga agrária. Além da escassez de comida no mundo inteiro, a atmosfera da Terra sofre com tempestades de poeira, ficando com níveis muito baixos de oxigênio e sentenciando os humanos à morte lenta.

É aí que entra o protagonista Cooper, um ex-piloto da NASA que aceita fazer parte de um projeto secreto, já que a agência espacial, em si, também se torna uma organização secreta: enviar expedições através de um buraco de minhoca (a saber, uma ainda hipotética dobra no tecido do espaço-tempo que possibilitaria percorrer distâncias inimagináveis em pouquíssimo tempo) que aparece misteriosamente perto de Saturno. Daí, já do outro lado do buraco, duas hipóteses: mandar um sinal de volta quando achar um planeta habitável ou começar uma colônia espacial para dar continuidade à raça humana. E adeus, planeta Terra.

Diz aí, que baita argumento, hein!?

Como entusiasta do assunto, as primeiras horas de filme foram intensas para mim. E acredito que para a maioria dos espectadores. Tem lá uma referência a 2001, uma odisseia no espaço meio esquisita, que não combina nada com o diretor, mas o ritmo é bacana. Até o momento em que Nolan, depois de 400 reviravoltas das mais complexas, mas que a gente até aguenta, se vê num beco sem saída. E aí resolve abandonar as especulações científicas e inventa de botar na jogada um buraco negro... Pronto, está dado o ensejo para criar umas sequências desastrosas, inundadas de sentimentalismo barato e com um desfecho terrível que deixa, obviamente, algumas questões em aberto.

Ô mania chata de complicar as coisas.

Relatos selvagens (Relatos salvajes), de Damián Szifrón

Muita gente bradou por aí que Relatos selvagens, nossa, era um dos melhores do ano e tal, que eu tinha que ver, que era incrível, que o Bombita (eu também fui ver o filme sem saber o que era Bombita) era muito foda etc. Eu aprendi, ao logo do tempo, a frenar com ABS o frenesi das pessoas e não deixá-lo me contagiar - anos de treino. Então, fui conferir o filme de coração aberto e mente vazia, sabendo que o cinema argentino está um passo adiante por aqui pela América Latina.

O roteiro costura cinco ou seis, não lembro aqui o número exato e estou com preguiça de recapitular, episódios cuja temática é a mesma: ainda que vivendo em comunidade há milhares de anos, como o ser humano pode se transformar em um animal incontrolável, mandando às favas a civilidade, quando o instinto de sobrevivência é provocado e precisa aflorar. Espertamente, as tramas partem de situações corriqueiras, como um casamento, um carro rebocado, um filho inconsequente e uma discussão no trânsito. E a catarse, bingo, fortalece os laços entre filme e espectador.

A abertura é promissora - a menor esquete de todas, que tem algo em torno de cinco minutos e ali mesmo se resolve, mostra o tom do argumento e do texto, escrito de próprio punho pelo diretor Damián Szifrón. Aliás, o texto é tão bom que acaba se tornando, ele próprio, o problema. A força de Relatos Selvagens está na palavra. E só. Em momento algum, lamentavelmente, Szifrón usa o suporte que lhe é dado, o cinema, para ousar esteticamente - por mais que seu roteiro dê pano para a manda e seja, reconhecidamente, com todo o mérito, bastante ousado.

E aí, o que acontece? Todos os recursos que a linguagem cinematográfica pode oferecer para uma experiência arrebatadora dentro da sala escura são sumariamente ignorados. A transição entre as esquetes é feita com um fade in, fade out do mais vagabundo. A trilha sonora praticamente não existe. A direção de atores não tenta qualquer jogo cênico, nem com um baita ator no elenco, como o Darín (a esquete dele, pasmem, nem é a melhor). Não há filtros, não há planos, nem fotografia diferenciada. Nada disso.

Ah, mas tinha que ter?

Nem tinha.

No entanto, eu saí do cinema com aquela sensação de que deixaram de lado a possibilidade de entrar para a História, com maiúscula. Me veio à cabeça, na hora, Pulp fiction - ousado no texto e no roteiro, além de ousado esteticamente, cinematograficamente. Pois bem, Szifrón, faltou-lhe um pouco mais de ousadia. Fiquei com a impressão de que o filme daria um ótimo livro de contos. Mas afinal, estava no cinema, e ali o suporte é outro.

Um bom filme, sim. Mas quadrado. O cinema argentino é muito bom, sim. Mas esse nem é o melhor exemplar. É o típico caso de uma direção guiada por alguém que é roteirista de ofício.

Tira a máscara!

É, senhoras e senhores, meninos e meninas. Aproveitei o Carnaval, a festa da carne, para refletir sobre o que é este blog aqui.



Assim, assado, eu não exerço mais a profissão de crítico de cinema, não frequento mais as cabines (apesar de receber, todo santo e profano dia, pelo menos três avisos delas) e nem ganho um cascalho com isso. Também não tenho mais curiosidade em saber quantos filmes assisto por ano, e nem tenho vontade de organizá-los em uma lista cronológica.

Porém, ainda recebo alguns e-mails e cometários de gente que, vai lá saber por quê, gosta desse espaço, que está quase caindo em desuso. Eu pago aquela mixaria anual para manter o domínio - mais para ter como referência no portfólio, já que sou jornalista e redator, do que para ter um domínio só meu tipo aquela coisa meio mal resolvida de dominar a Ásia e a América do Sul e mais 12 territórios a minha escolha.

Então, resolvi tirar a fantasia. E a máscara também.

Vou escrever sobre filmes. O que der na telha. Foda-se a cronologia. Foda-se a contagem. E espero que os meus poucos, queridos e donairosos leitores, mas que são os poucos mais cheios de garbo e classe que ainda curtem um bom cineminha, continuem passando por aqui.

É isso. Beijo pra quem tá de calcinha, abraço para quem tá de cueca. Se bem que ainda é Carnaval...

terça-feira, setembro 30, 2014

#28 - Tudo por um furo (Anchorman 2 - The Legend Continues), de Adam McKay

Taí um filme que deveria entrar na ementa de todos os cursos de Jornalismo. Veja bem o que escrevi. Por mais que soe como um disparate, é a mais pura verdade. E repito, aqui dando nome aos bois: Tudo por um furo, uma comédia estadunidense paspalhona, deveria entrar na ementa de todos os cursos de Jornalismo ao redor do mundo. Motivo? Porque a maioria de nós, jornalistas, é incapaz de criticar com razão e serenidade o jornalismo que pratica, quiçá fazer uma autocrítica contundente.

O filme é a continuação de O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy, outra bobeira sem tamanho, mas que rende boas risadas - em grande parte por conta do elenco, que tem Will Ferrell, Paul Rudd e Steve Carell como os jornalistas tresloucados, amorais e de índole duvidosa. O que a franquia fez, desde o primeiro filme, foi tirar proveito desse famoso estereótipo que inunda produções de outros gêneros. Acreditem, já vi até filme erótico com jornalista inescrupuloso.

Pois bem, eu trabalhei com jornalismo televisivo por cerca de oito anos (entre idas e vindas) na maior rede de televisão do país. E o que o filme faz com brilhantismo, que funciona melhor do que qualquer piada, é mostrar como o tal jornalismo de hard news, que "não desliga nunca", se apoia num discurso sensacionalista pobre, raso, vazio e supérfluo. Todos os clichês dessa seara são sumariamente desnudados e devidamente esculachados.

Ao longo da projeção, as piadas estão lá, em seus devidos lugares. São boas, funcionam. As caracterizações também são bacanas. Afinal, os caras têm o timing da comédia. A cena na qual Ferrell faz seu pequeno aquecimento vocálico durante a escalada de notícias, momento tenso num estúdio de telejornal, é impagável. O roteiro mostra como a ideia de um canal com notícias 24 horas por dia soava patética na década de 70. E como, numa sociedade em que formadores de opinião têm opiniões canhestras, a falta de pauta rende audiência. O ápice dessa mixórdia toda é a sequência que demonstra como a primeira perseguição a um carro fugitivo foi cunhada.

Talvez quem tenha vivido a época em que a Veja tinha algum resquício de credibilidade, em que o Jornal do Brasil era o abrigo dos vanguardistas e em que âncoras de telejornais não eram pautados por interesses de lideranças religiosas vá entender o que quero dizer quando afirmo que o filme tem lá sua importância.

Saudades do jornalismo. Saudades da linguagem referencial Saudades da apuração.

quinta-feira, setembro 25, 2014

#27 - Círculo de fogo (Enemy at the gates), de Jean-Jacques Annaud

Depois de ler o estupendo - e indispensável, aos entusiastas do tema - relato do jornalista Vasily Grossman sobre a Segunda Guerra Mundial - Um escritor na guerra, editado aqui no Brasil pela Objetiva -, fica difícil engolir a maioria das adaptações cinematográficas sobre esse período da História. Inclusive, aquelas com a temática dos snipers, os famosos atiradores de elite alçados ao estrelato pelo Exército Vermelho como estratégia de propaganda bélica. É aí que Círculo de fogo se situa, mas para contar a história de um atirador que não foi o que Grosman retratou.

O filme de Annaud trata da participação de Vassili Zaitsev, o escolhido pelo governo russo, na conturbada Batalha de Stalingrado - a saber, um conflito que transformou a cidade que levava o nome de Stalin em um verdadeiro inferno, onde a neve era devastadora, a fome era uma constante e lama e sangue se confundiam no solo contaminado pelos corpos em putrefação.

E aí, o que você vai ver em Círculo de fogo é um Jude Law galante, de cabelo bem penteado e falando um inglês com sotaque britânico (bom, o cara é inglês, né?), em cenas de câmera lenta, com música incidental, tomando para si a árdua tarefa de dar um fim aos soldados alemães. Até que um sniper nazista, com um inglês de sotaque estrangeiro carregado, chega para tentar botar uma bala em sua cabeça. E aí começa um jogo de gato e rato - só que monótono até o talo. Tão monótono quanto aquele capítulo do seu livro de História da sétima série sobre a Segunda Guerra Mundial.

O tal inferno descrito por Grossman passa longe.

Será que poderia ter sido diferente? Um pouco mais realista, um pouco menos romanesco? Pois dois diretores tinham como projeto filmar a Batalha de Stalingrado e seus snipers. Ninguém menos que Serguei Eisenstein e Sergio Leone. Agora, imaginemos um filme sobre snipers dirigido por Leone. E imaginemos um filme sobre Stalingrado dirigido por Eisenstein.

Jean-Jacques Annaud vai ter que me desculpar.

Vale ressaltar que, de acordo com os relatos de Grossman, havia um atirador cuja trajetória foi bastante interessante, mas que não ganhou o mesmo tratamento por conta da perseguição do governo russo ao repórter (cujos textos para o Estrela Vermelha, o jornal do exército, eram de uma imparcialidade que incomodava os chefões). Ele se chamava Anatoly Tchekhov, um adolescente que pouca experiência tinha com armas e guerras, mas que era implacável na "caça" aos alemães. Uma trajetória, talvez, mais interessante para ser retratada numa tela de cinema.

domingo, agosto 31, 2014

#26 - Tentativa de abertura (Essai d'ouverture), de Luc Moullet

A Nouvelle Vague alçou ao estrelato realizadores consistentes, como Godard, Truffaut, Resnais e Chabrol. Um dos membros dessa turma, no entanto, saiu pela tangente e transformou seu trabalho em algo mais experimental, quase um outro tipo de vanguarda. Luc Moullet, talvez sem ter consciência disso, flertava com o que mais tarde seria solidificado e rotulado como videoarte (para poder caber dentro de uma caixinha). Além de diretor, Moullet sempre foi ensaísta e crítico bastante influente, com dezenas de textos não só sobre a estética, mas também sobre a técnica cinematográfica.

Seus filmes, sem a pretensão de atingir os circuitos comerciais, trazem um humor ácido e ousado que faz pouco caso da sociedade de consumo - inclusive, da sociedade que consome o cinema como mero produto. Seu trabalho mais famoso, Brigitte e Brigitte, de 1966,  mostra a dura vida de duas estudantes universitárias da Sorbonne, criticando o culto ao luxo francês e o contrastando com uma miséria, econômica e intelectual, que é varrida para debaixo do tapete. Em Anatomia de uma relação, Moullet faz um pseudo-documentário sobre seus problemas sexuais com sua esposa. Catracas, um curta que fez estardalhaço nos cinemas parisienses no início da década de 80, ensina uma técnica quase artística para adentrar o metrô sem um bilhete.

Desconhecido no Brasil, e escrevo isso com um lamento profundo, um de seus curtas mais bacanas é, sem dúvida, Tentativa de abertura. Durante cerca de 15 minutos, Moullet tenta achar a técnica ideal para abrir uma garrafa de Coca-Cola - uma daquelas da época em que as tampas eram feitas de um alumínio perigoso. Tenta de tudo, do convencional ao surreal. Reflete o cineasta, em determinado momento, exausto pela força aplicada na garrafa:

"Se os homens adoram o álcool, mulheres e crianças preferem Coca-Cola. Mas elas só podem ser abertas por homens. Contradição?"

O lugar da obra de Moullet desafia as tais caixinhas. Nos cinemas, nos museus, nas prateleiras? Profícuo, seu cinema continua entretendo e desafiando todo mundo a pensar um pouco mais sobre o que é a linguagem cinematográfica e quais as suas possibilidades. Um cinema de arte completamente diferente do que o cinema de arte normalmente é.

E como eu sou bonzinho, taí o curta em duas partes! Quer dizer, mais ou menos bonzinho, porque não tem legenda. Mas elas estão disponíveis por aí para serem baixadas. Divirtam-se!


                                          



quarta-feira, agosto 27, 2014

#25 - O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel), de Wes Anderson

Indiscutivelmente, goste você ou não do trabalho do cara, Wes Anderson tem grife. Seus filmes são  inconfundíveis - tanto no aspecto estético, quanto na estrutura narrativa. Aqui, a opinião é de alguém que gosta, e muito, do que ele faz. É um sujeito que sabe, como poucos, usar a linguagem cinematográfica para contar boas histórias.

O fabuloso (na melhor acepção da palavra) roteiro conta a história de ascensão e queda do hotel que dá nome ao filme, o Grande Hotel Budapeste. Quem descreve suas reminiscências sobre o lugar é Moustafa, ex-gerente do local, que começou sua carreira no ramo hoteleiro como handyman sob tutela do então chefão M. Gustave, magistralmente interpretado por Ralph Fiennes.

Novamente, as cores e as texturas saltam aos olhos. Um primor a direção de arte, um absurdo a cenografia, uma formosura a trilha sonora e uma graça o figurino.

- Ah, mas você não disse que cinema é contar história? Isso aí é tudo técnico... - dirão os mais enfastiados.

Pois, tire tudo isso e ainda há, escancarada na tela, uma história cativante, criativa, cheia de detalhes pitorescos e repleta de fantasia. Sem lições de moral, sem clichês, sem concessões a investidores. É cinema puro e aplicado, livre. Além disso, o nível de, digamos, "acabamento humano", é digno de nota > personagens inverossímeis, que ganham corpo por interpretações dedicadas e pela direção de atores perfeita de Anderson.

Uma experiência. E em sua essência, é pra isso que serve o cinema, entende?

#24 - Blackfish, de Gabriela Cowperthwaite

Em 1977, muitas crianças ficaram definitivamente com medo de entrar no mar para dar um mergulho. Também, pudera: não bastasse o Tubarão de Spielberg, ganhava as telas mais um clássico do gênero, Orca - a baleia assassina. A produção de baixo orçamento elevou ao status de predador voraz o mamífero, que passou a ser um animal admirado pelos humanos.

O resultado disso foi a criação de parques temáticos onde o bicho era exibido, colocando os visitantes diante de uma espécie de experiência aterrorizante e maravilhosa. Era possível treinar as baleias - vislumbraram alguns ditos especialistas no assunto. Não demorou muito e, na Califórnia, surgiu o primeiro parque no qual uma orca era exibida. E não demorou muito, também, para que o primeiro ataque ao treinador acontecesse - uma vez que as consequências do cativeiro foram ignoradas.

Anos após o acidente, mesmo sob avisos, o então recém-aberto Sea World resolveu comprar a "baleia assassina" para ser a pareadora dos animais de seu parque. Sob a alegação de que o cativeiro é necessário para preservar a espécie e aproximar o homem do animal, os show continuam até hoje. No entanto, agora, e há pouco tempo, sem a interação física entre treinador e baleia.

Blackfish, indicado ao Oscar de Melhor Documentário, investiga e questiona a necessidade dos shows com baleias, e mostra como é difícil transpor a barreira cultural que foi solidificada pela indústria do entretenimento. O material de apoio é bastante rico. Você vai ver cenas reais e angustiantes de treinadores sendo atacados pelas baleias, estressadas pelo cativeiro e por suas péssimas condições de infraestrutura. Além disso, biólogos e ex-treinadores dão seus testemunhos - a favor e contra o Sea World.

Você vai pensar duas vezes antes de aplaudir uma baleia pulando numa piscina diante de uma arquibancada cheia.