Muita gente bradou por aí que Relatos selvagens, nossa, era um dos melhores do ano e tal, que eu tinha que ver, que era incrível, que o Bombita (eu também fui ver o filme sem saber o que era Bombita) era muito foda etc. Eu aprendi, ao logo do tempo, a frenar com ABS o frenesi das pessoas e não deixá-lo me contagiar - anos de treino. Então, fui conferir o filme de coração aberto e mente vazia, sabendo que o cinema argentino está um passo adiante por aqui pela América Latina.
O roteiro costura cinco ou seis, não lembro aqui o número exato e estou com preguiça de recapitular, episódios cuja temática é a mesma: ainda que vivendo em comunidade há milhares de anos, como o ser humano pode se transformar em um animal incontrolável, mandando às favas a civilidade, quando o instinto de sobrevivência é provocado e precisa aflorar. Espertamente, as tramas partem de situações corriqueiras, como um casamento, um carro rebocado, um filho inconsequente e uma discussão no trânsito. E a catarse, bingo, fortalece os laços entre filme e espectador.
A abertura é promissora - a menor esquete de todas, que tem algo em torno de cinco minutos e ali mesmo se resolve, mostra o tom do argumento e do texto, escrito de próprio punho pelo diretor Damián Szifrón. Aliás, o texto é tão bom que acaba se tornando, ele próprio, o problema. A força de Relatos Selvagens está na palavra. E só. Em momento algum, lamentavelmente, Szifrón usa o suporte que lhe é dado, o cinema, para ousar esteticamente - por mais que seu roteiro dê pano para a manda e seja, reconhecidamente, com todo o mérito, bastante ousado.
E aí, o que acontece? Todos os recursos que a linguagem cinematográfica pode oferecer para uma experiência arrebatadora dentro da sala escura são sumariamente ignorados. A transição entre as esquetes é feita com um fade in, fade out do mais vagabundo. A trilha sonora praticamente não existe. A direção de atores não tenta qualquer jogo cênico, nem com um baita ator no elenco, como o Darín (a esquete dele, pasmem, nem é a melhor). Não há filtros, não há planos, nem fotografia diferenciada. Nada disso.
Ah, mas tinha que ter?
Nem tinha.
No entanto, eu saí do cinema com aquela sensação de que deixaram de lado a possibilidade de entrar para a História, com maiúscula. Me veio à cabeça, na hora, Pulp fiction - ousado no texto e no roteiro, além de ousado esteticamente, cinematograficamente. Pois bem, Szifrón, faltou-lhe um pouco mais de ousadia. Fiquei com a impressão de que o filme daria um ótimo livro de contos. Mas afinal, estava no cinema, e ali o suporte é outro.
Um bom filme, sim. Mas quadrado. O cinema argentino é muito bom, sim. Mas esse nem é o melhor exemplar. É o típico caso de uma direção guiada por alguém que é roteirista de ofício.
quarta-feira, fevereiro 18, 2015
Tira a máscara!
É, senhoras e senhores, meninos e meninas. Aproveitei o Carnaval, a festa da carne, para refletir sobre o que é este blog aqui.
Assim, assado, eu não exerço mais a profissão de crítico de cinema, não frequento mais as cabines (apesar de receber, todo santo e profano dia, pelo menos três avisos delas) e nem ganho um cascalho com isso. Também não tenho mais curiosidade em saber quantos filmes assisto por ano, e nem tenho vontade de organizá-los em uma lista cronológica.
Porém, ainda recebo alguns e-mails e cometários de gente que, vai lá saber por quê, gosta desse espaço, que está quase caindo em desuso. Eu pago aquela mixaria anual para manter o domínio - mais para ter como referência no portfólio, já que sou jornalista e redator, do que para ter um domínio só meu tipo aquela coisa meio mal resolvida de dominar a Ásia e a América do Sul e mais 12 territórios a minha escolha.
Então, resolvi tirar a fantasia. E a máscara também.
Vou escrever sobre filmes. O que der na telha. Foda-se a cronologia. Foda-se a contagem. E espero que os meus poucos, queridos e donairosos leitores, mas que são os poucos mais cheios de garbo e classe que ainda curtem um bom cineminha, continuem passando por aqui.
É isso. Beijo pra quem tá de calcinha, abraço para quem tá de cueca. Se bem que ainda é Carnaval...
Assim, assado, eu não exerço mais a profissão de crítico de cinema, não frequento mais as cabines (apesar de receber, todo santo e profano dia, pelo menos três avisos delas) e nem ganho um cascalho com isso. Também não tenho mais curiosidade em saber quantos filmes assisto por ano, e nem tenho vontade de organizá-los em uma lista cronológica.
Porém, ainda recebo alguns e-mails e cometários de gente que, vai lá saber por quê, gosta desse espaço, que está quase caindo em desuso. Eu pago aquela mixaria anual para manter o domínio - mais para ter como referência no portfólio, já que sou jornalista e redator, do que para ter um domínio só meu tipo aquela coisa meio mal resolvida de dominar a Ásia e a América do Sul e mais 12 territórios a minha escolha.
Então, resolvi tirar a fantasia. E a máscara também.
Vou escrever sobre filmes. O que der na telha. Foda-se a cronologia. Foda-se a contagem. E espero que os meus poucos, queridos e donairosos leitores, mas que são os poucos mais cheios de garbo e classe que ainda curtem um bom cineminha, continuem passando por aqui.
É isso. Beijo pra quem tá de calcinha, abraço para quem tá de cueca. Se bem que ainda é Carnaval...
terça-feira, setembro 30, 2014
#28 - Tudo por um furo (Anchorman 2 - The Legend Continues), de Adam McKay
Taí um filme que deveria entrar na ementa de todos os cursos de Jornalismo. Veja bem o que escrevi. Por mais que soe como um disparate, é a mais pura verdade. E repito, aqui dando nome aos bois: Tudo por um furo, uma comédia estadunidense paspalhona, deveria entrar na ementa de todos os cursos de Jornalismo ao redor do mundo. Motivo? Porque a maioria de nós, jornalistas, é incapaz de criticar com razão e serenidade o jornalismo que pratica, quiçá fazer uma autocrítica contundente.
O filme é a continuação de O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy, outra bobeira sem tamanho, mas que rende boas risadas - em grande parte por conta do elenco, que tem Will Ferrell, Paul Rudd e Steve Carell como os jornalistas tresloucados, amorais e de índole duvidosa. O que a franquia fez, desde o primeiro filme, foi tirar proveito desse famoso estereótipo que inunda produções de outros gêneros. Acreditem, já vi até filme erótico com jornalista inescrupuloso.
Pois bem, eu trabalhei com jornalismo televisivo por cerca de oito anos (entre idas e vindas) na maior rede de televisão do país. E o que o filme faz com brilhantismo, que funciona melhor do que qualquer piada, é mostrar como o tal jornalismo de hard news, que "não desliga nunca", se apoia num discurso sensacionalista pobre, raso, vazio e supérfluo. Todos os clichês dessa seara são sumariamente desnudados e devidamente esculachados.
Ao longo da projeção, as piadas estão lá, em seus devidos lugares. São boas, funcionam. As caracterizações também são bacanas. Afinal, os caras têm o timing da comédia. A cena na qual Ferrell faz seu pequeno aquecimento vocálico durante a escalada de notícias, momento tenso num estúdio de telejornal, é impagável. O roteiro mostra como a ideia de um canal com notícias 24 horas por dia soava patética na década de 70. E como, numa sociedade em que formadores de opinião têm opiniões canhestras, a falta de pauta rende audiência. O ápice dessa mixórdia toda é a sequência que demonstra como a primeira perseguição a um carro fugitivo foi cunhada.
Talvez quem tenha vivido a época em que a Veja tinha algum resquício de credibilidade, em que o Jornal do Brasil era o abrigo dos vanguardistas e em que âncoras de telejornais não eram pautados por interesses de lideranças religiosas vá entender o que quero dizer quando afirmo que o filme tem lá sua importância.
Saudades do jornalismo. Saudades da linguagem referencial Saudades da apuração.
O filme é a continuação de O Âncora - A Lenda de Ron Burgundy, outra bobeira sem tamanho, mas que rende boas risadas - em grande parte por conta do elenco, que tem Will Ferrell, Paul Rudd e Steve Carell como os jornalistas tresloucados, amorais e de índole duvidosa. O que a franquia fez, desde o primeiro filme, foi tirar proveito desse famoso estereótipo que inunda produções de outros gêneros. Acreditem, já vi até filme erótico com jornalista inescrupuloso.
Pois bem, eu trabalhei com jornalismo televisivo por cerca de oito anos (entre idas e vindas) na maior rede de televisão do país. E o que o filme faz com brilhantismo, que funciona melhor do que qualquer piada, é mostrar como o tal jornalismo de hard news, que "não desliga nunca", se apoia num discurso sensacionalista pobre, raso, vazio e supérfluo. Todos os clichês dessa seara são sumariamente desnudados e devidamente esculachados.
Ao longo da projeção, as piadas estão lá, em seus devidos lugares. São boas, funcionam. As caracterizações também são bacanas. Afinal, os caras têm o timing da comédia. A cena na qual Ferrell faz seu pequeno aquecimento vocálico durante a escalada de notícias, momento tenso num estúdio de telejornal, é impagável. O roteiro mostra como a ideia de um canal com notícias 24 horas por dia soava patética na década de 70. E como, numa sociedade em que formadores de opinião têm opiniões canhestras, a falta de pauta rende audiência. O ápice dessa mixórdia toda é a sequência que demonstra como a primeira perseguição a um carro fugitivo foi cunhada.
Talvez quem tenha vivido a época em que a Veja tinha algum resquício de credibilidade, em que o Jornal do Brasil era o abrigo dos vanguardistas e em que âncoras de telejornais não eram pautados por interesses de lideranças religiosas vá entender o que quero dizer quando afirmo que o filme tem lá sua importância.
Saudades do jornalismo. Saudades da linguagem referencial Saudades da apuração.
quinta-feira, setembro 25, 2014
#27 - Círculo de fogo (Enemy at the gates), de Jean-Jacques Annaud
Depois de ler o estupendo - e indispensável, aos entusiastas do tema - relato do jornalista Vasily Grossman sobre a Segunda Guerra Mundial - Um escritor na guerra, editado aqui no Brasil pela Objetiva -, fica difícil engolir a maioria das adaptações cinematográficas sobre esse período da História. Inclusive, aquelas com a temática dos snipers, os famosos atiradores de elite alçados ao estrelato pelo Exército Vermelho como estratégia de propaganda bélica. É aí que Círculo de fogo se situa, mas para contar a história de um atirador que não foi o que Grosman retratou.
O filme de Annaud trata da participação de Vassili Zaitsev, o escolhido pelo governo russo, na conturbada Batalha de Stalingrado - a saber, um conflito que transformou a cidade que levava o nome de Stalin em um verdadeiro inferno, onde a neve era devastadora, a fome era uma constante e lama e sangue se confundiam no solo contaminado pelos corpos em putrefação.
E aí, o que você vai ver em Círculo de fogo é um Jude Law galante, de cabelo bem penteado e falando um inglês com sotaque britânico (bom, o cara é inglês, né?), em cenas de câmera lenta, com música incidental, tomando para si a árdua tarefa de dar um fim aos soldados alemães. Até que um sniper nazista, com um inglês de sotaque estrangeiro carregado, chega para tentar botar uma bala em sua cabeça. E aí começa um jogo de gato e rato - só que monótono até o talo. Tão monótono quanto aquele capítulo do seu livro de História da sétima série sobre a Segunda Guerra Mundial.
O tal inferno descrito por Grossman passa longe.
Será que poderia ter sido diferente? Um pouco mais realista, um pouco menos romanesco? Pois dois diretores tinham como projeto filmar a Batalha de Stalingrado e seus snipers. Ninguém menos que Serguei Eisenstein e Sergio Leone. Agora, imaginemos um filme sobre snipers dirigido por Leone. E imaginemos um filme sobre Stalingrado dirigido por Eisenstein.
Jean-Jacques Annaud vai ter que me desculpar.
Vale ressaltar que, de acordo com os relatos de Grossman, havia um atirador cuja trajetória foi bastante interessante, mas que não ganhou o mesmo tratamento por conta da perseguição do governo russo ao repórter (cujos textos para o Estrela Vermelha, o jornal do exército, eram de uma imparcialidade que incomodava os chefões). Ele se chamava Anatoly Tchekhov, um adolescente que pouca experiência tinha com armas e guerras, mas que era implacável na "caça" aos alemães. Uma trajetória, talvez, mais interessante para ser retratada numa tela de cinema.
O filme de Annaud trata da participação de Vassili Zaitsev, o escolhido pelo governo russo, na conturbada Batalha de Stalingrado - a saber, um conflito que transformou a cidade que levava o nome de Stalin em um verdadeiro inferno, onde a neve era devastadora, a fome era uma constante e lama e sangue se confundiam no solo contaminado pelos corpos em putrefação.
E aí, o que você vai ver em Círculo de fogo é um Jude Law galante, de cabelo bem penteado e falando um inglês com sotaque britânico (bom, o cara é inglês, né?), em cenas de câmera lenta, com música incidental, tomando para si a árdua tarefa de dar um fim aos soldados alemães. Até que um sniper nazista, com um inglês de sotaque estrangeiro carregado, chega para tentar botar uma bala em sua cabeça. E aí começa um jogo de gato e rato - só que monótono até o talo. Tão monótono quanto aquele capítulo do seu livro de História da sétima série sobre a Segunda Guerra Mundial.
O tal inferno descrito por Grossman passa longe.
Será que poderia ter sido diferente? Um pouco mais realista, um pouco menos romanesco? Pois dois diretores tinham como projeto filmar a Batalha de Stalingrado e seus snipers. Ninguém menos que Serguei Eisenstein e Sergio Leone. Agora, imaginemos um filme sobre snipers dirigido por Leone. E imaginemos um filme sobre Stalingrado dirigido por Eisenstein.
Jean-Jacques Annaud vai ter que me desculpar.
Vale ressaltar que, de acordo com os relatos de Grossman, havia um atirador cuja trajetória foi bastante interessante, mas que não ganhou o mesmo tratamento por conta da perseguição do governo russo ao repórter (cujos textos para o Estrela Vermelha, o jornal do exército, eram de uma imparcialidade que incomodava os chefões). Ele se chamava Anatoly Tchekhov, um adolescente que pouca experiência tinha com armas e guerras, mas que era implacável na "caça" aos alemães. Uma trajetória, talvez, mais interessante para ser retratada numa tela de cinema.
domingo, agosto 31, 2014
#26 - Tentativa de abertura (Essai d'ouverture), de Luc Moullet
A Nouvelle Vague alçou ao estrelato realizadores consistentes, como Godard, Truffaut, Resnais e Chabrol. Um dos membros dessa turma, no entanto, saiu pela tangente e transformou seu trabalho em algo mais experimental, quase um outro tipo de vanguarda. Luc Moullet, talvez sem ter consciência disso, flertava com o que mais tarde seria solidificado e rotulado como videoarte (para poder caber dentro de uma caixinha). Além de diretor, Moullet sempre foi ensaísta e crítico bastante influente, com dezenas de textos não só sobre a estética, mas também sobre a técnica cinematográfica.
Seus filmes, sem a pretensão de atingir os circuitos comerciais, trazem um humor ácido e ousado que faz pouco caso da sociedade de consumo - inclusive, da sociedade que consome o cinema como mero produto. Seu trabalho mais famoso, Brigitte e Brigitte, de 1966, mostra a dura vida de duas estudantes universitárias da Sorbonne, criticando o culto ao luxo francês e o contrastando com uma miséria, econômica e intelectual, que é varrida para debaixo do tapete. Em Anatomia de uma relação, Moullet faz um pseudo-documentário sobre seus problemas sexuais com sua esposa. Catracas, um curta que fez estardalhaço nos cinemas parisienses no início da década de 80, ensina uma técnica quase artística para adentrar o metrô sem um bilhete.
Desconhecido no Brasil, e escrevo isso com um lamento profundo, um de seus curtas mais bacanas é, sem dúvida, Tentativa de abertura. Durante cerca de 15 minutos, Moullet tenta achar a técnica ideal para abrir uma garrafa de Coca-Cola - uma daquelas da época em que as tampas eram feitas de um alumínio perigoso. Tenta de tudo, do convencional ao surreal. Reflete o cineasta, em determinado momento, exausto pela força aplicada na garrafa:
"Se os homens adoram o álcool, mulheres e crianças preferem Coca-Cola. Mas elas só podem ser abertas por homens. Contradição?"
O lugar da obra de Moullet desafia as tais caixinhas. Nos cinemas, nos museus, nas prateleiras? Profícuo, seu cinema continua entretendo e desafiando todo mundo a pensar um pouco mais sobre o que é a linguagem cinematográfica e quais as suas possibilidades. Um cinema de arte completamente diferente do que o cinema de arte normalmente é.
E como eu sou bonzinho, taí o curta em duas partes! Quer dizer, mais ou menos bonzinho, porque não tem legenda. Mas elas estão disponíveis por aí para serem baixadas. Divirtam-se!
Seus filmes, sem a pretensão de atingir os circuitos comerciais, trazem um humor ácido e ousado que faz pouco caso da sociedade de consumo - inclusive, da sociedade que consome o cinema como mero produto. Seu trabalho mais famoso, Brigitte e Brigitte, de 1966, mostra a dura vida de duas estudantes universitárias da Sorbonne, criticando o culto ao luxo francês e o contrastando com uma miséria, econômica e intelectual, que é varrida para debaixo do tapete. Em Anatomia de uma relação, Moullet faz um pseudo-documentário sobre seus problemas sexuais com sua esposa. Catracas, um curta que fez estardalhaço nos cinemas parisienses no início da década de 80, ensina uma técnica quase artística para adentrar o metrô sem um bilhete.
Desconhecido no Brasil, e escrevo isso com um lamento profundo, um de seus curtas mais bacanas é, sem dúvida, Tentativa de abertura. Durante cerca de 15 minutos, Moullet tenta achar a técnica ideal para abrir uma garrafa de Coca-Cola - uma daquelas da época em que as tampas eram feitas de um alumínio perigoso. Tenta de tudo, do convencional ao surreal. Reflete o cineasta, em determinado momento, exausto pela força aplicada na garrafa:
"Se os homens adoram o álcool, mulheres e crianças preferem Coca-Cola. Mas elas só podem ser abertas por homens. Contradição?"
O lugar da obra de Moullet desafia as tais caixinhas. Nos cinemas, nos museus, nas prateleiras? Profícuo, seu cinema continua entretendo e desafiando todo mundo a pensar um pouco mais sobre o que é a linguagem cinematográfica e quais as suas possibilidades. Um cinema de arte completamente diferente do que o cinema de arte normalmente é.
E como eu sou bonzinho, taí o curta em duas partes! Quer dizer, mais ou menos bonzinho, porque não tem legenda. Mas elas estão disponíveis por aí para serem baixadas. Divirtam-se!
quarta-feira, agosto 27, 2014
#25 - O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel), de Wes Anderson
Indiscutivelmente, goste você ou não do trabalho do cara,
Wes Anderson tem grife. Seus filmes são inconfundíveis - tanto no
aspecto estético, quanto na estrutura narrativa. Aqui, a opinião é de alguém
que gosta, e muito, do que ele faz. É um sujeito que sabe, como poucos, usar a
linguagem cinematográfica para contar boas histórias.
O fabuloso (na melhor acepção da palavra) roteiro conta a
história de ascensão e queda do hotel que dá nome ao filme, o Grande Hotel
Budapeste. Quem descreve suas reminiscências sobre o lugar é Moustafa,
ex-gerente do local, que começou sua carreira no ramo hoteleiro como handyman
sob tutela do então chefão M. Gustave, magistralmente interpretado por Ralph
Fiennes.
Novamente, as cores e as texturas
saltam aos olhos. Um primor a direção de arte, um absurdo a cenografia, uma
formosura a trilha sonora e uma graça o figurino.
- Ah, mas você não disse que cinema é contar história? Isso
aí é tudo técnico... - dirão os mais enfastiados.
Pois, tire tudo isso e ainda há, escancarada na tela, uma história
cativante, criativa, cheia de detalhes pitorescos e repleta de fantasia. Sem
lições de moral, sem clichês, sem concessões a investidores. É cinema puro e
aplicado, livre. Além disso, o nível de, digamos, "acabamento
humano", é digno de nota > personagens inverossímeis, que ganham corpo
por interpretações dedicadas e pela direção de atores perfeita de Anderson.
Uma experiência. E em sua essência, é pra isso que serve o
cinema, entende?
#24 - Blackfish, de Gabriela Cowperthwaite
Em 1977, muitas crianças ficaram definitivamente com medo de
entrar no mar para dar um mergulho. Também, pudera: não bastasse o Tubarão de
Spielberg, ganhava as telas mais um clássico do gênero, Orca - a baleia
assassina. A produção de baixo orçamento elevou ao status de predador voraz o
mamífero, que passou a ser um animal admirado pelos humanos.
O resultado disso foi a criação de parques temáticos onde o
bicho era exibido, colocando os visitantes diante de uma espécie de experiência
aterrorizante e maravilhosa. Era possível treinar as baleias - vislumbraram
alguns ditos especialistas no assunto. Não demorou muito e, na Califórnia,
surgiu o primeiro parque no qual uma orca era exibida. E não demorou muito,
também, para que o primeiro ataque ao treinador acontecesse - uma vez que as
consequências do cativeiro foram ignoradas.
Anos após o acidente, mesmo sob avisos, o então recém-aberto
Sea World resolveu comprar a "baleia assassina" para ser a pareadora
dos animais de seu parque. Sob a alegação de que o cativeiro é necessário para
preservar a espécie e aproximar o homem do animal, os show continuam até hoje.
No entanto, agora, e há pouco tempo, sem a interação física entre treinador e
baleia.
Blackfish, indicado ao Oscar de Melhor Documentário,
investiga e questiona a necessidade dos shows com baleias, e mostra como é
difícil transpor a barreira cultural que foi solidificada pela indústria do
entretenimento. O material de apoio é bastante rico. Você vai ver cenas reais e angustiantes de treinadores sendo atacados pelas baleias, estressadas pelo cativeiro e por
suas péssimas condições de infraestrutura. Além disso, biólogos e ex-treinadores dão seus testemunhos - a favor e contra o Sea World.
Você vai pensar duas vezes antes de aplaudir uma baleia
pulando numa piscina diante de uma arquibancada cheia.
sábado, julho 19, 2014
#23 - Rambo IV, de Sylvester Stallone
Mais um filme do Rambo - sim, eu vi. Décadas após o lançamento do primeiro filme da franquia, Stallone voltou à direção e à roteirização para contar o que aconteceu com o ex-combatente de guerra rebelde que já desertou, lutou junto aos afegãos (os mesmos que anos mais tarde organizaram o Talibã e atacaram os EUA - só que aí, na vida real) e que agora vive perto de um dos países mais pobres do mundo, Myanmar, outrora conhecido como Burma.
Neste filme, um John Rambo no auge de seus 60 e tantos anos, mas forte que nem um cavalo (vocês se lembram daqueles anabolizantes com os quais ele foi preso num aeroporto na Austrália? Pelo visto funcionam mesmo), vive feito um ermitão na selva tailandesa, sob a fama de ser um homem violento, frio e calculista, sem medo de correr riscos. A tranquilidade do local é quebrada pela chegada de um grupo de missionários religiosos que quer ir até Myanmar levar a palavra de deus aos moradores do local, assolados por uma guerra civil. Depois de muito cu doce, Rambo aceita levá-los, mas só porque fica apaixonado por uma das missionárias - obviamente, uma loura estonteante.
Bom, a história se desenvolve na pegada de sempre. Os missionários, que querem paz e por isso são tratados pelo roteiro de Stallone como um bando de panacas, acabam sendo capturados pelos homens maus, maus mesmo, que falam uma língua estranha e são indistinguíveis uns dos outros por usarem a mesma roupa e o mesmo corte de cabelo. O líder dos homens maus é tão mau, que é também um pederasta que abusa de meninos incautos.
A única coisa bacana do filme de Stallone é que ele parece ter cagado um balde para as críticas que sabia que iria receber. O que se vê na tela é uma carnificina sem tamanho. São 90 minutos de tiroteios, explosões, facadas e mutilações, filmadas de uma forma que não se viu nos outros filmes da franquia.
Fica a pergunta: será que Stallone vai ter coragem de lançar um Rambo V?
E os afegãos...
Neste filme, um John Rambo no auge de seus 60 e tantos anos, mas forte que nem um cavalo (vocês se lembram daqueles anabolizantes com os quais ele foi preso num aeroporto na Austrália? Pelo visto funcionam mesmo), vive feito um ermitão na selva tailandesa, sob a fama de ser um homem violento, frio e calculista, sem medo de correr riscos. A tranquilidade do local é quebrada pela chegada de um grupo de missionários religiosos que quer ir até Myanmar levar a palavra de deus aos moradores do local, assolados por uma guerra civil. Depois de muito cu doce, Rambo aceita levá-los, mas só porque fica apaixonado por uma das missionárias - obviamente, uma loura estonteante.
Bom, a história se desenvolve na pegada de sempre. Os missionários, que querem paz e por isso são tratados pelo roteiro de Stallone como um bando de panacas, acabam sendo capturados pelos homens maus, maus mesmo, que falam uma língua estranha e são indistinguíveis uns dos outros por usarem a mesma roupa e o mesmo corte de cabelo. O líder dos homens maus é tão mau, que é também um pederasta que abusa de meninos incautos.
A única coisa bacana do filme de Stallone é que ele parece ter cagado um balde para as críticas que sabia que iria receber. O que se vê na tela é uma carnificina sem tamanho. São 90 minutos de tiroteios, explosões, facadas e mutilações, filmadas de uma forma que não se viu nos outros filmes da franquia.
Fica a pergunta: será que Stallone vai ter coragem de lançar um Rambo V?
E os afegãos...
quinta-feira, maio 01, 2014
#22 - Only lovers left alive, de Jim Jarmusch
Aqui,ele conta a história de um casal de vampiros que vaga pela Terra há alguns séculos, e que se adapta ao meio em que vive de forma a não causar nenhum dano aos humanos. Adam - ou, simplesmente, Adão - é um virtuoso músico recluso de Detroit, colecionador de guitarras raras e apreciador do rock, mesmo tendo conhecido grandes compositores. Eve - ou, simplesmente, Eva -, interpretada de forma irretocável pela monstruosa Tilda Swinton, é uma misteriosa e elegante mulher que perambula pelos becos históricos de Tânger, no Marrocos. A relação dos dois com os humanos, e entre eles mesmos, é posta em xeque quando percebem que a humanidade caminha para a barbárie.
Destaque para a cena em que eles assistem, atônitos, ao videoclipe de "Soul Dracula" - uma sequência que deixa às claras o estilo e a grife incomparáveis de Jarmusch.
sábado, abril 12, 2014
#21 - Ninfomaníaca vol. 2 (Nymphomaniac vol.2), de Lars Von Trier
Foi com certo espanto que notei o comportamento dos espectadores com o segundo volume do novo filme de Lars Von Trier, dividido em duas partes. Tanta gente reclamou de tanta coisa, que o circuito foi se fechando em pouco tempo. Assistir ao volume dois se tornou uma tarefa bastante complicada. E foi com mais espanto ainda que notei um certo provincianismo nas resenhas, tanto as midiáticas quanto as amadoras. A mais espantosa de todas que li dizia que o desfecho traz uma "reviravolta desnecessária".
Sério?
Seguindo a contação de história proposta pela protagonista, o segundo filme faz uma jornada - ou uma jorrada - mais intensa na obsessão compulsiva de Joe por aquela cosquinha gostosa chamada orgasmo. O que era para ser um mero gatilho evolutivo, que garante a procriação da espécie, se torna objeto de culto e, graças à complexidade das relações humanas, desenvolve uma série de fetiches dos mais diversos. É justamente este o ponto em que Von Trie toca - sem trocadilhos - nessa segunda parte.
Para isso, ele abandona o apuro estético da primeira parte. O que, para mim, é o único deslize, ainda que de leve, que o diretor comete. No entanto, é preciso mesmo abandonar o tom jocoso para dar argamassa ao complexo argumento proposto. E é preciso ser um mestre - de obras - para levantar o paredão de forma sólida. Por mais que se critique o filme, uma coisa é unanimidade > não há um buraquinho - uepa! - sequer em toda a saga de Joe. O roteiro é monstruosamente coeso, com seus capítulos cerzidos de forma reforçada. Inclusive, as referências aos outros filmes da trilogia aqui proposta (completa por Anticristo e Melancolia, todos com Charlotte Gainsbourg como protagonista), chamada de Trilogia da Depressão, funcionam plenamente.
Bonequinhos saindo do cinema e críticas sobre reviravoltas desnecessárias à parte, parece mesmo que dividir o filme em dois volumes fez mal ao espectador menos atento. O ápice da história é uma sequência que coloca em xeque, de uma vez por todas, o naturalismo com que o sexo é tratado no roteiro. A cena em que a ninfomaníaca reconhece em um depravado sexual sua própria natureza incontrolável, demonstrando compaixão logo em seguida, é a cereja do bolo de Von Trier - uma das passagens mais fortes dos últimos tempos, ao mesmo tempo dramática e perturbadora.
Ora, o final, esse aí que muita gente questionou e exigiu que fosse diferente, vociferando que o diretor jogou tudo na lata de lixo, fica até pequeno diante de um argumento que foi exposto com requintes de crueldade. Há, sim, uma reviravolta no final. Mas é, sim, pertinente. Trata-se de um recurso amplamente usado na literatura, mas que ainda é questionado com veemência pelo espectador cinematográfico: a saber, a morte alegórica. Em Kafka, Camus ou Sartre, para citar apenas alguns dos autores que tão bem exploraram a natureza humana, é um artifício aceito. Já no cinema, suporte no qual a grande maioria não permite uma oscilação no eixo temporal e narrativo - porque o fim precisa fazer jus ao início e ao meio -, é condenável. Vai entender...
Antes da sequência final, Von Trier parece querer se eximir da misoginia da qual foi acusado por traumatizar Björk e criar rugas em Nicole Kidman. Joe é também um nome masculino, e há aqui uma possível inversão de papéis que se transforma em uma espécie de crítica à criminalização do sexo - a mesma que reduziu o número de sessões disponíveis e que pode impedir o filme de ser lançado em Blu-ray.
Já nos créditos finais, entra uma versão assustadoramente encantadora de Charlotte Gainsbourg interpretando "Hey Joe", imortalizada por Jimi Hendrix. E aí, amigo, para bom espectador, meio refrão basta!
Sério?
Seguindo a contação de história proposta pela protagonista, o segundo filme faz uma jornada - ou uma jorrada - mais intensa na obsessão compulsiva de Joe por aquela cosquinha gostosa chamada orgasmo. O que era para ser um mero gatilho evolutivo, que garante a procriação da espécie, se torna objeto de culto e, graças à complexidade das relações humanas, desenvolve uma série de fetiches dos mais diversos. É justamente este o ponto em que Von Trie toca - sem trocadilhos - nessa segunda parte.
Para isso, ele abandona o apuro estético da primeira parte. O que, para mim, é o único deslize, ainda que de leve, que o diretor comete. No entanto, é preciso mesmo abandonar o tom jocoso para dar argamassa ao complexo argumento proposto. E é preciso ser um mestre - de obras - para levantar o paredão de forma sólida. Por mais que se critique o filme, uma coisa é unanimidade > não há um buraquinho - uepa! - sequer em toda a saga de Joe. O roteiro é monstruosamente coeso, com seus capítulos cerzidos de forma reforçada. Inclusive, as referências aos outros filmes da trilogia aqui proposta (completa por Anticristo e Melancolia, todos com Charlotte Gainsbourg como protagonista), chamada de Trilogia da Depressão, funcionam plenamente.
Bonequinhos saindo do cinema e críticas sobre reviravoltas desnecessárias à parte, parece mesmo que dividir o filme em dois volumes fez mal ao espectador menos atento. O ápice da história é uma sequência que coloca em xeque, de uma vez por todas, o naturalismo com que o sexo é tratado no roteiro. A cena em que a ninfomaníaca reconhece em um depravado sexual sua própria natureza incontrolável, demonstrando compaixão logo em seguida, é a cereja do bolo de Von Trier - uma das passagens mais fortes dos últimos tempos, ao mesmo tempo dramática e perturbadora.
Ora, o final, esse aí que muita gente questionou e exigiu que fosse diferente, vociferando que o diretor jogou tudo na lata de lixo, fica até pequeno diante de um argumento que foi exposto com requintes de crueldade. Há, sim, uma reviravolta no final. Mas é, sim, pertinente. Trata-se de um recurso amplamente usado na literatura, mas que ainda é questionado com veemência pelo espectador cinematográfico: a saber, a morte alegórica. Em Kafka, Camus ou Sartre, para citar apenas alguns dos autores que tão bem exploraram a natureza humana, é um artifício aceito. Já no cinema, suporte no qual a grande maioria não permite uma oscilação no eixo temporal e narrativo - porque o fim precisa fazer jus ao início e ao meio -, é condenável. Vai entender...
Antes da sequência final, Von Trier parece querer se eximir da misoginia da qual foi acusado por traumatizar Björk e criar rugas em Nicole Kidman. Joe é também um nome masculino, e há aqui uma possível inversão de papéis que se transforma em uma espécie de crítica à criminalização do sexo - a mesma que reduziu o número de sessões disponíveis e que pode impedir o filme de ser lançado em Blu-ray.
Já nos créditos finais, entra uma versão assustadoramente encantadora de Charlotte Gainsbourg interpretando "Hey Joe", imortalizada por Jimi Hendrix. E aí, amigo, para bom espectador, meio refrão basta!
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