quarta-feira, agosto 27, 2014

#25 - O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel), de Wes Anderson

Indiscutivelmente, goste você ou não do trabalho do cara, Wes Anderson tem grife. Seus filmes são  inconfundíveis - tanto no aspecto estético, quanto na estrutura narrativa. Aqui, a opinião é de alguém que gosta, e muito, do que ele faz. É um sujeito que sabe, como poucos, usar a linguagem cinematográfica para contar boas histórias.

O fabuloso (na melhor acepção da palavra) roteiro conta a história de ascensão e queda do hotel que dá nome ao filme, o Grande Hotel Budapeste. Quem descreve suas reminiscências sobre o lugar é Moustafa, ex-gerente do local, que começou sua carreira no ramo hoteleiro como handyman sob tutela do então chefão M. Gustave, magistralmente interpretado por Ralph Fiennes.

Novamente, as cores e as texturas saltam aos olhos. Um primor a direção de arte, um absurdo a cenografia, uma formosura a trilha sonora e uma graça o figurino.

- Ah, mas você não disse que cinema é contar história? Isso aí é tudo técnico... - dirão os mais enfastiados.

Pois, tire tudo isso e ainda há, escancarada na tela, uma história cativante, criativa, cheia de detalhes pitorescos e repleta de fantasia. Sem lições de moral, sem clichês, sem concessões a investidores. É cinema puro e aplicado, livre. Além disso, o nível de, digamos, "acabamento humano", é digno de nota > personagens inverossímeis, que ganham corpo por interpretações dedicadas e pela direção de atores perfeita de Anderson.

Uma experiência. E em sua essência, é pra isso que serve o cinema, entende?

#24 - Blackfish, de Gabriela Cowperthwaite

Em 1977, muitas crianças ficaram definitivamente com medo de entrar no mar para dar um mergulho. Também, pudera: não bastasse o Tubarão de Spielberg, ganhava as telas mais um clássico do gênero, Orca - a baleia assassina. A produção de baixo orçamento elevou ao status de predador voraz o mamífero, que passou a ser um animal admirado pelos humanos.

O resultado disso foi a criação de parques temáticos onde o bicho era exibido, colocando os visitantes diante de uma espécie de experiência aterrorizante e maravilhosa. Era possível treinar as baleias - vislumbraram alguns ditos especialistas no assunto. Não demorou muito e, na Califórnia, surgiu o primeiro parque no qual uma orca era exibida. E não demorou muito, também, para que o primeiro ataque ao treinador acontecesse - uma vez que as consequências do cativeiro foram ignoradas.

Anos após o acidente, mesmo sob avisos, o então recém-aberto Sea World resolveu comprar a "baleia assassina" para ser a pareadora dos animais de seu parque. Sob a alegação de que o cativeiro é necessário para preservar a espécie e aproximar o homem do animal, os show continuam até hoje. No entanto, agora, e há pouco tempo, sem a interação física entre treinador e baleia.

Blackfish, indicado ao Oscar de Melhor Documentário, investiga e questiona a necessidade dos shows com baleias, e mostra como é difícil transpor a barreira cultural que foi solidificada pela indústria do entretenimento. O material de apoio é bastante rico. Você vai ver cenas reais e angustiantes de treinadores sendo atacados pelas baleias, estressadas pelo cativeiro e por suas péssimas condições de infraestrutura. Além disso, biólogos e ex-treinadores dão seus testemunhos - a favor e contra o Sea World.

Você vai pensar duas vezes antes de aplaudir uma baleia pulando numa piscina diante de uma arquibancada cheia.

sábado, julho 19, 2014

#23 - Rambo IV, de Sylvester Stallone

Mais um filme do Rambo - sim, eu vi. Décadas após o lançamento do primeiro filme da franquia, Stallone voltou à direção e à roteirização para contar o que aconteceu com o ex-combatente de guerra rebelde que já desertou, lutou junto aos afegãos (os mesmos que anos mais tarde organizaram o Talibã e atacaram os EUA - só que aí, na vida real) e que agora vive perto de um dos países mais pobres do mundo, Myanmar, outrora conhecido como Burma.

Neste filme, um John Rambo no auge de seus 60 e tantos anos, mas forte que nem um cavalo (vocês se lembram daqueles anabolizantes com os quais ele foi preso num aeroporto na Austrália? Pelo visto funcionam mesmo), vive feito um ermitão na selva tailandesa, sob a fama de ser um homem violento, frio e calculista, sem medo de correr riscos. A tranquilidade do local é quebrada pela chegada de um grupo de missionários religiosos que quer ir até Myanmar levar a palavra de deus aos moradores do local, assolados por uma guerra civil. Depois de muito cu doce, Rambo aceita levá-los, mas só porque fica apaixonado por uma das missionárias - obviamente, uma loura estonteante.

Bom, a história se desenvolve na pegada de sempre. Os missionários, que querem paz e por isso são tratados pelo roteiro de Stallone como um bando de panacas, acabam sendo capturados pelos homens maus, maus mesmo, que falam uma língua estranha e são indistinguíveis uns dos outros por usarem a mesma roupa e o mesmo corte de cabelo. O líder dos homens maus é tão mau, que é também um pederasta que abusa de meninos incautos.

A única coisa bacana do filme de Stallone é que ele parece ter cagado um balde para as críticas que sabia que iria receber. O que se vê na tela é uma carnificina sem tamanho. São 90 minutos de tiroteios, explosões, facadas e mutilações, filmadas de uma forma que não se viu nos outros filmes da franquia.

Fica a pergunta: será que Stallone vai ter coragem de lançar um Rambo V?

E os afegãos...


quinta-feira, maio 01, 2014

#22 - Only lovers left alive, de Jim Jarmusch


É fantástico para alguém que adora cinema poder conferir um filme novo de um dos seus diretores prediletos. No meu caso, Jim Jarmusch está no top 3. Em Only lovers left alive ele mantém a aura underground que o consagrou como um grande realizador do cenário independente - a mesma que ainda faz com que muita gente classifique seus filmes como produções excêntricas, numa demonstração de reducionismo que dá força ao esvaziamento do cinema como suporte para contar boas histórias, tratando-o meramente como aporte para gerar lucro. Ainda bem que Jarmusch não liga para isso.

Aqui,ele conta a história de um casal de vampiros que vaga pela Terra há alguns séculos, e que se adapta ao meio em que vive de forma a não causar nenhum dano aos humanos. Adam - ou, simplesmente, Adão - é um virtuoso músico recluso de Detroit, colecionador de guitarras raras e apreciador do rock, mesmo tendo conhecido grandes compositores. Eve - ou, simplesmente, Eva -, interpretada de forma irretocável pela monstruosa Tilda Swinton, é uma misteriosa e elegante mulher que perambula pelos becos históricos de Tânger, no Marrocos. A relação dos dois com os humanos, e entre eles mesmos, é posta em xeque quando percebem que a humanidade caminha para a barbárie.

Jarmusch sempre alegou que a beleza da vida está nos pequenos detalhes, e não nos grandes acontecimentos. Isto posto, o espectador acostumado com a linguagem narrativa do diretor vai se deliciar, justamente, com o delicado tratamento que o roteiro recebe. É um filme para ser apreciado, e não apenas visto. Cenários, atuações, montagem, fotografia e trilha sonora são impecáveis, e somam à experiência.

Destaque para a cena em que eles assistem, atônitos, ao videoclipe de "Soul Dracula" - uma sequência que deixa às claras o estilo e a grife incomparáveis de Jarmusch.



sábado, abril 12, 2014

#21 - Ninfomaníaca vol. 2 (Nymphomaniac vol.2), de Lars Von Trier

Foi com certo espanto que notei o comportamento dos espectadores com o segundo volume do novo filme de Lars Von Trier, dividido em duas partes. Tanta gente reclamou de tanta coisa, que o circuito foi se fechando em pouco tempo. Assistir ao volume dois se tornou uma tarefa bastante complicada. E foi com mais espanto ainda que notei um certo provincianismo nas resenhas, tanto as midiáticas quanto as amadoras. A mais espantosa de todas que li dizia que o desfecho traz uma "reviravolta desnecessária".

Sério?

Seguindo a contação de história proposta pela protagonista, o segundo filme faz uma jornada - ou uma jorrada - mais intensa na obsessão compulsiva de Joe por aquela cosquinha gostosa chamada orgasmo. O que era para ser um mero gatilho evolutivo, que garante a procriação da espécie, se torna objeto de culto e, graças à complexidade das relações humanas, desenvolve uma série de fetiches dos mais diversos. É justamente este o ponto em que Von Trie toca - sem trocadilhos - nessa segunda parte.

Para isso, ele abandona o apuro estético da primeira parte. O que, para mim, é o único deslize, ainda que de leve, que o diretor comete. No entanto, é preciso mesmo abandonar o tom jocoso para dar argamassa ao complexo argumento proposto. E é preciso ser um mestre - de obras - para levantar o paredão de forma sólida. Por mais que se critique o filme, uma coisa é unanimidade > não há um buraquinho - uepa! - sequer em toda a saga de Joe. O roteiro é monstruosamente coeso, com seus capítulos cerzidos de forma reforçada. Inclusive, as referências aos outros filmes da trilogia aqui proposta (completa por Anticristo e Melancolia, todos com Charlotte Gainsbourg como protagonista), chamada de Trilogia da Depressão, funcionam plenamente.

Bonequinhos saindo do cinema e críticas sobre reviravoltas desnecessárias à parte, parece mesmo que dividir o filme em dois volumes fez mal ao espectador menos atento. O ápice da história é uma sequência que coloca em xeque, de uma vez por todas, o naturalismo com que o sexo é tratado no roteiro. A cena em que a ninfomaníaca reconhece em um depravado sexual sua própria natureza incontrolável, demonstrando compaixão logo em seguida, é a cereja do bolo de Von Trier - uma das passagens mais fortes dos últimos tempos, ao mesmo tempo dramática e perturbadora.

Ora, o final, esse aí que muita gente questionou e exigiu que fosse diferente, vociferando que o diretor jogou tudo na lata de lixo, fica até pequeno diante de um argumento que foi exposto com requintes de crueldade. Há, sim, uma reviravolta no final. Mas é, sim, pertinente. Trata-se de um recurso amplamente usado na literatura, mas que ainda é questionado com veemência pelo espectador cinematográfico: a saber, a morte alegórica. Em Kafka, Camus ou Sartre, para citar apenas alguns dos autores que tão bem exploraram a natureza humana, é um artifício aceito. Já no cinema, suporte no qual a grande maioria não permite uma oscilação no eixo temporal e narrativo - porque o fim precisa fazer jus ao início e ao meio -, é condenável. Vai entender...

Antes da sequência final, Von Trier parece querer se eximir da misoginia da qual foi acusado por traumatizar Björk e criar rugas em Nicole Kidman. Joe é também um nome masculino, e há aqui uma possível inversão de papéis que se transforma em uma espécie de crítica à criminalização do sexo - a mesma que reduziu o número de sessões disponíveis e que pode impedir o filme de ser lançado em Blu-ray.

Já nos créditos finais, entra uma versão assustadoramente encantadora de Charlotte Gainsbourg interpretando "Hey Joe", imortalizada por Jimi Hendrix. E aí, amigo, para bom espectador, meio refrão basta!


segunda-feira, março 31, 2014

#20 - O capital (Le capital), de Costa-Gavras

Um filme de Costa-Gavras é sempre um frescor para um circuito entupido de porcaria com viés político torto. Não importa se você é liberal ou conservador, de esquerda ou de direita, republicano ou democrata - há que saber fundamentar seu argumento para, depois, poder levá-lo ao cinema de modo contundente. Pouca gente faz isso tão bem como o diretor grego, que já brindou espectadores com histórias fantásticas cujos panos de fundo eram abertamente políticos.

Aqui, nenhuma referência direta ao livro homônimo de Karl Marx. Já indiretamente, várias. Costa-Gavras trata do capital especulativo que vem minando, há anos, a cambaleante economia europeia, cada vez mais apoiada em um modelo importado dos EUA, que por sua vez se apoia em gigantescos fundos de investimento. Dá para fazer uma listinha de quem já quebrou (a cara e o sistema econômico) por causa disso > Finlândia, Irlanda, Portugal, Espanha e a pátria do diretor, a Grécia, para citar os mais emblemáticos.

Marc Tourneuil é diretor de um importante banco francês. Quando é alçado à presidência da instituição, se vê no meio de uma armadilha que vai permitir que um grupo de investidores vorazes dos EUA adquira o banco a preço de banana durante uma oferta primária de ações na Bolsa. Em meio à negociação de bônus por demissões em massa, ele percebe que seu traseiro está na reta, e tenta a qualquer custo se salvar, por mais que tenha que mandar às favas qualquer resquício de humanismo.

Como não podia deixar de ser, já que trata-se de Costa-Gavras, o roteiro tem coesão e ritmo. Diálogos, direção de atores e tudo o mais estão no lugar certo, na dose certa, na hora certa. O capital é um excelente thriller, sem cacoetes ou forçação de barra, que mantém o espectador de olhos grudados na tela até o desfecho.

Mais um acerto do velho Gavras!

#19 - Uma aventura Lego (The Lego movie), de Phil Lord e Christopher Miller

Lego sempre fez parte da minha infância. Décadas atrás, quando o produto ainda não era encontrado com facilidade por aqui, meu avô sempre trazia as famosas peças coloridas de montar de suas viagens ao exterior. Posso dizer que cresci montando Lego. E o meu prazer não era brincar, mas sim destruir tudo logo após ter passado horas empilhando pecinhas. O bacana de Uma aventura Lego é que, apesar de ser um filme infantil, trata justamente dessa questão.

O roteiro fala sobre um boneco de Lego que luta contra um malvado líder que quer fazer com que todas as pessoas na cidade do Lego fiquem paradas, imóveis - como se não houvesse espaço para a criatividade, para destruir tudo e montar de novo. O tal vilão tem uma arma potente que só pode ser parada com um estranho objeto, que vai parar nas mãos do boneco bonzinho.

Spoiler de filme infantil vale, né?

A sacada do roteiro é ótima! De repente, a animação dá lugar a realidade. O bacana é justamente a analogia > o boneco é uma criança e o vilão, seu pai. É a história de um menino cheio de criatividade, mas que não pode mexer no Lego do pai, que levou anos montando uma super cidade e agora usa uma arma, ou melhor, uma cola especial, para que nenhuma peça saia do lugar. O artefato que pode parar tudo isso? Ora, é óbvio...

Eu me identifiquei. Com a criança, mas me identifiquei!

quinta-feira, março 13, 2014

#18 - Philomena, de Stephen Frears

Stephen Frears é macaco velho, calejado, experiente. E querido também - dirigiu Alta Fidelidade! Mas parece que ele não soube escapar da armadilha que os filmes baseados em histórias reais escondem em seus promissores roteiros. Já comentei anteriormente aqui, reitero > é preciso muito cuidado e talento para que o argumento não dê mais peso ao protagonista do que ao fato em si, sob pena de tornar o filme uma mera biografia.

O argumento de Philomena é tenebroso, macabro, lúgubre. Porra, é uma denúncia e tanto. Freiras de um orfanato negociavam a adoção dos bebês de suas internas sem o consentimento das mesmas. Temos aí um assunto cabeludo para ser desenvolvido. No entanto, por conta do tratamento do roteiro - e, obviamente, o talento indiscutível da protagonista - o filme é só Judi Dench. Seu companheiro de cenas, convenhamos, não ajuda muito. Trata-se de um estereótipo ridículo de jornalista interpretado pelo respeitável Steve Coogan. Seu personagem é arrogante e vaidoso, daqueles que põem o pé na porta para não tê-la batida na cara, achacam as pessoas com ironias e exercitam um pretensioso faro jornalístico do tipo detetive particular de pulp fiction.

Está lá a denúncia, sim. Rasa, meio amedrontada de seguir adiante e com os holofotes completamente voltados para a tal Philomena que dá nome ao filme. Uma opção de Frears, é verdade. Porém, e justamente por isso, o que faz valer o ingresso é somente Judi Dench.

Sessão da tarde. Dado o diretor, podia ter sido um filmão.

sexta-feira, março 07, 2014

#17 - Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club), de Jean-Marc Vallée

Mais um concorrente ao Oscar de Melhor Filme com roteiro baseado em fatos reais, o que se destaca em Clube de Compras Dallas é, de fato, o que foi premiado. O filme de Jean-Marc Vallée seria apenas mais um não fossem as monstruosas atuações de Matthew McConaughey e Jared Leto.

O bom roteiro conta a história de Ron Woodroof, um cowboy misógino, machista e preconceituoso que contrai AIDS em plena década de 80, época em que havia pouca informação sobre a doença, equivocadamente associada apenas às práticas homossexuais. Sentenciado a 30 dias de vida, o protagonista começa a procurar tratamentos que lhe garantam mais alguns meses. Acaba travando uma batalha contra o sistema imposto pela indústria farmacêutica - que controla não apenas a distribuição de medicamentos, mas também regula e proíbe substâncias que podem ser usadas para melhorar a qualidade de vida de soropositivos no mundo inteiro.

O roteiro acerta quando coloca  o foco em cima dessa espécie de denúncia sobre o cartel da indústria farmacêutica. Para driblar as restrições da justiça, Woodroof fundou um clube no qual não se comprava diretamente as tais substâncias "proibidas", conseguidas em partes mais remotas do mundo, pelas mãos de médicos que ousavam arriscar suas carreiras. Ao invés disso, pagava-se uma mensalidade apenas para ter acesso às mesmas, o que ficou conhecido como clube de compras, um fenômeno que se espalhou por todo o território estadunidense.

Por mais que o argumento não se aprofunde na questão mercadológica, uma vez que o foco precisa estar quase sempre ajustado no protagonista quando se adapta uma história real (daí meu problema com as ditas histórias reais), vale como alerta para a vida completamente remediada que levamos hoje em dia, com drogas controladas e doenças inventadas.

Matthew McConaughey perdeu 17 kg para fazer o filme. Jared Leto ia ao mercado travestido de seu personagem. Diz aí se não vale o confere? Stanislavski ficaria orgulhoso!

sábado, março 01, 2014

#16 - Holocausto canibal (Cannibal holocaust), de Ruggero Deodato

Muito antes do sucesso estrondoso de filmes como Bruxa de Blair e Rec, o diretor italiano Ruggero Deodato inaugurava, em 1984, esta linguagem cinematográfica que mistura o ficcional com o documental. Foi ele quem, pela primeira vez, colocou enormes pulgas atrás das orelhas de milhares de espectadores ao anunciar que encontrara imagens reais filmadas por um grupo de quatro antropólogos dados como desaparecidos após uma expedição à floresta amazônica. Os mesmos teriam sido devorados por uma tribo de canibais.

Logo, Holocausto Canibal ficou conhecido, semanas antes de seu lançamento, como o primeiro snuff movie (filmes underground em que as mortes de seres humanos são reais) a entrar em cartaz na história do cinema. Inicialmente, a tática deu certo. A primeira semana de exibição foi, do ponto de vista comercial, um sucesso. O problema é que a celeuma foi tamanha, que chamou a atenção das autoridades locais. Resultado: o filme foi banido e Deodato foi preso por acobertar assassinatos reais. Para piorar, uma cláusula dos contratos dos quatro protagonistas ordenava que os mesmos sumissem por um ano.

A violência e o realismo de Holocausto canibal são tão fortes, que Deodato só foi liberado depois que seus atores foram localizados e se apresentaram à corte italiana, em carne e osso, sãos e salvos. Impressiona mais ainda o fato de ser uma produção de baixo orçamento e realizada, de fato, no meio da floresta amazônica - o que rendeu à equipe alguns perrengues. Para uma cena na qual uma índia adúltera é violentada e espancada até a morte, Deodato não conseguiu convencer nenhuma candidata. Teve que apelar para sua camareira, que como não tinha cor nem cara de indígena, aparece toda coberta de lama. Em outra cena, na qual um antropólogo toma banho no rio, nu, ao lado de índias bem salientes, o diretor teve que gastar uns trocados com prostitutas de uma casa de tolerância de uma cidadezinha próxima.

O roteiro, genial, se divide em duas partes. A primeira, mostra um professor que vai atrás do tal grupo de quatro antropólogos. É ele quem consegue localizar não somente os corpos, mas também os filmes que testemunham a "barbárie" dos povos canibais. A segunda parte, exaltada até mesmo por Sergio Leone, mestre dos westerns, são as imagens propriamente ditas sendo analisadas por especialistas que desejam tornar o filme uma produção comercial. Além do rigor estilístico, com a câmera na mão e cortes ligeiros para dar agilidade e veracidade à narrativa, entra em cena um certo debate sobre o que é o processo civilizatório, qual é o verdadeiro objeto de estudo da antropologia e que povo é realmente bárbaro.

É preciso ter estômago para assistir a Holocausto canibal. Não é um filme para qualquer um. Se as impressionantes cenas de violência são falsas, as sequências nas quais animais são mortos são verdadeiras - e perturbadoras! Apesar de ser comum às tribos locais caçar e comer qualquer bicho da floresta, Deodato alegou, anos mais tarde, ter se arrependido de editar essas cenas com tanto detalhamento.

A quem puder embarcar nessa experiência cinematográfica extrema, eu digo sem hesitar: um filmaço!