domingo, setembro 04, 2011

#36 - Carnival of souls, de Herk Harvey


Taí a primeira resenha da minha gloriosa caixa de 50 grandes filmes de horror da história do cinema - trazida, em par, com uma outra caixa contendo 50 famosos representantes dos filmes B. Tudo isso graças ao meu caríssimo e querido primo, Leo. Como eu procurei Carnival of souls por aí... Sempre malogrando. O esforço valeu a pena: trata-se de um dos grandes clássicos de terror!

Produzido em 1962, o roteiro conta a história de um grupo de mulheres que sofre um acidente automobilístico. O carro em que estão vai parar dentro de um rio. A polícia não consegue achar nem o veículo, nem os corpos. No entanto, sem qualquer explicação, uma das acidentadas, a organista Mary Henry, emerge das profundezas das águas turvas. Ela tenta retomar a vida, tocando órgão em uma igreja de outra cidade. No entanto, um parque de diversões abandonado começa a a instigá-la.

O bacana de Carnival of souls, além da história surpreendentemente bem amarrada, é a estética. O filme tem fortes referências ao expressionismo alemão, com maquiagem pesada e trilha sonora fúnebre - a mocinha ser uma organista é um artifício e tanto! A fotografia em preto e branco consegue tirar proveito das sombras, e há um punhado de enquadramentos muito bem pensados. A sequência final é particularmente espetacular.

Curiosidades interessantes: esse foi o único filme dirigido por Herk Harvey. A protagonista, Candace Hilligoss, ficou sem agente após o lançamento do filme, tamanho foi o descontentamento do sujeito com o que acabara de assistir. Mal sabia ele que Carnival of souls se tornaria um ícone do horror.

Rola por aí um remake, que leva o nome de Wes Craven como produtor. Não vi, mas ouvi gente boa que viu dizendo que é perda de tempo. Melhor ficar com o original, por mais difícil que seja encontrá-lo por aí.

sexta-feira, setembro 02, 2011

#35 - Cortina de Fumaça, de Rodrigo Mac Niven


O argumento do documentário Cortina de Fumaça, segundo os seus próprios realizadores, é contribuir para a discussão das políticas antidrogas no Brasil. Um roteiro corajoso, que dá uma baforada na discussão de uma das grandes questões globais: a declarada guerra aos entorpecentes e a busca desenfreada pelo ideal (ou utopia?) de constituir um mundo livre das drogas.

O Rock in Rio, nas últimas semanas, lançou uma campanha que tem ganhado destaque nas redes sociais. Um aplicativo para Facebook substitui a palavra drogas por algum outro substantivo, igualmente prazeroso, na famosa tríade que tem também o sexo e o rock’n’roll. Ainda que seja uma tentativa de resguardar o bom andamento do festival, jurídica e tecnicamente, trata-se de uma prova de que o assunto está na pauta do dia.

Para suscitar questões relevantes e levantar dados concretos, o diretor Rodrigo Mac Niven não poupou esforços e foi atrás do discurso autorizado de especialistas nos assuntos que dizem respeito ao uso e à circulação de entorpecentes. São ouvidos neurologistas, psiquiatras, advogados, historiadores e políticos, além de usuários. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o deputado federal Fernando Gabeira são apenas meros coadjuvantes diante dos excelentes personagens sobre os quais o documentário se apóia.

Bastante coisa interessante é dita ao longo da projeção. Há, por exemplo, um médico que afirma que o cérebro tem receptores preparados para o THC – o tetrahidrocanabinol, princípio ativo da maconha – e que, justamente por isso, a droga não destrói neurônios. Há também um estudioso que demonstra a relação histórica das proibições com estratos sociais minoritários. Enfim, é muito pano para manga.

O único problema de Cortina de Fumaça é estrutural: há uma falta de coesão que pode deixar alguns espectadores soterrados diante de tanta informação. O roteiro acaba se tornando multifocal. Nisso, a edição pouco ajuda, escorada na falta de capricho das imagens de apoio e no videografismo.

Nada disso, no entanto, apaga a contundência de Cortina de Fumaça, que se firma como um valoroso instrumento para dar corpo a uma discussão que precisa ser feita. É a prova, corajosa e ousada, de que o cine-documentário ainda pode ser um veículo eficaz para a mobilização.

quinta-feira, setembro 01, 2011

#34 - Quero matar meu chefe (Horrible bosses), de Seth Gorgon


Naqueles dias em que nada dá certo no trabalho, muitos assalariados ao redor do mundo têm a mesma vontade do trio protagonista de Quero matar meu chefe. A racionalidade os impede. Por isso, a premissa que envolve o roteiro dessa comédia serve de chamariz para um público que fez de outras produções do gênero um sucesso de bilheteria - como, por exemplo, a franquia Se beber, não case.

Porém, o filme dirigido por Seth Gordon (responsável pelo excelente documentário The King of Kong, sobre a disputa pelo título de melhor jogador do arcade homônimo) não leva o argumento às últimas consequências. E paga um preço caro pela falta de ousadia. Kurt Buckman (Jason Sudeikis), Dale Arbus (Charlie Day) e Nick Hendricks (Jason Bateman) são os amigos que sofrem nas mãos de seus chefesKurt Buckman (Jason Sudeikis), Dale Arbus (Charlie Day) e Nick Hendricks (Jason Bateman) são os amigos que sofrem nas mãos de seus chefes

Três amigos resolvem numa conversa de bar que a melhor maneira de continuar suas vidas é se livrando de seus respectivos superiores: um grosseirão que não promove seus funcionários, um fanfarrão que herda a chefia do pai e uma fogosa dentista adepta do assédio sexual.

Há bons momentos durante a projeção, mas graças aos coadjuvantes de luxo que Gordon tem ao seu dispor, os tais terríveis chefes Kevin Spacey, Collin Farrell e uma irreconhecível, mas ainda insinuante, Jennifer Aniston. São eles que roubam a cena. Os comediantes protagonistas, insossos e caricatos, pouco contribuem para as risadas. O desfecho é particularmente enfadonho e preguiçoso. Apesar disso, o longa fez relativo sucesso nos Estados Unidos. Prova disso é o anúncio de uma provável sequência.

(Publicada no Jornal do Brasil)

quarta-feira, agosto 31, 2011

#33 - Lola, de Brillante Mendoza


Muito tem se falado do diretor filipino Brillante Mendoza. Inclusive, já reproduziram à exaustão um trocadilho quase inevitável que transforma seu primeiro nome em adjetivo. Fato é que o sujeito, até então um realizador publicitário, começa a ganhar destaque mundo afora. Seu sucesso, em grande parte, se deve a uma espécie de "desconhecimento" do que é exibido fora do circuito hollywoodiano. Disse Mendoza em uma entrevista, do alto de sua humildade, que somente agora, anos depois de assumir o ofício da direção, começa a se interessar por correntes cinematográficas de outros países, como o neo-realismo italiano e a nouvelle vague francesa. E isso parece fazer a diferença em seus filmes.

Mendoza levou a festivais ao redor do mundo seu olhar crítico sobre o país em que nasceu. Em seus filmes, as Filipinas são capturadas sob lentes naturalistas. Seus personagens, que experimentam o esmagador peso da desigualdade social, são como habitantes reais de um país que serve de cenário. Lola, sua mais nova produção, coloca em destaque duas idosas que tomam a frente do sustento financeiro e moral de suas respectivas famílias - tarefa nada fácil.

A primeira cena já demonstra o quão penoso o desenrolar da trama vai ser. Em meio a uma tempestade de verão, debaixo de muita água e muito vento, uma das senhoras de idade (ou simplesmente lola, como são chamadas as vovós filipinas) tenta acender uma vela em memória do neto, vítima de latrocínio. Os movimentos seguintes dão conta dos preparativos para o funeral. Paralelamente, a outra lola busca a libertação do neto, suspeito de ter cometido o crime. Ambas caminham por uma Manila maltratada, onde assaltantes, golpistas e funcionários burocráticos dificultam os caminhos.

A fotografia é bem cuidada, os atores têm liberdade para lidar com a inexperiência cênica e o áudio ambiente, principalmente o da chuva, é tão importante quanto os diálogos. Chove o tempo inteiro. É preciso buscar abrigo a todo instante. A sequência final, que promove o encontro, cara a cara, das duas matriarcas, é singularmente comovente. Resume com contundência tudo o que foi mostrado em quase duas horas de projeção.

terça-feira, agosto 30, 2011

#32 - Melancolia (Melancholia), de Lars Von Trier


Se é pra recomeçar, que seja em grande estilo. Compartilho com vocês a resenha que escrevi para o Jornal do Brasil sobre o tão comentado filme do cineasta - que fique registrado, um dos mais geniais e provocadores do nosso tempo - que foi banido de Cannes. Ei-lo, abaixo.

Obviamente, um filme sobre o fim do mundo assinado por Lars Von Trier não poderia ser apenas sobre uma catástrofe natural. É, também, em sua essência, um ensaio sobre a catastrófica condição do ser humano em entender sua própria finitude.

Mais além, Melancolia foi o meteoro que pode ter causado uma catástrofe na carreira do diretor dinamarquês. Isso porque, polêmicas à parte, o filme é um espetáculo. Não fosse o título de persona non grata conquistado contra sua vontade, Von Trier teria provavelmente levado uma Palma de Ouro no Festival de Cannes.

O roteiro pode ser dividido em três partes. A primeira, evocando a montagem de Anticristo, seu trabalho anterior, traz um prólogo em câmera muito lenta, com fotografia de encher os olhos e trilha sonora a caráter, no qual detalhes do evento da extinção em massa são mostrados. Até mesmo a cartela com o título do filme segue a mesma linha.

Em seguida, conta-se a história de Justine (Kirsten Dunst, merecidamente premiada em Cannes como melhor atriz), uma jovem noiva que não parece contente em contrair matrimônio. A terceira parte foca em sua irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg), apavorada com a aproximação do gigantesco planeta Melancolia. Em meio à ameaça de colisão com a Terra, as duas buscam resolver conflitos e entender suas escolhas.

A locação escolhida para ambientar a história - tanto a festa de casamento de Justine quanto os supostos últimos dias de Claire - é uma imponente e suntuosa mansão aos pés do oceano, com um enorme jardim de onde John (Kiefer Sutherland) pode observar a movimentação do planeta invasor. O cenário funciona como contraponto para os bem trabalhados e densos diálogos, o que remete ao clássico de Alain Resnais, O ano passado em Marienbad.

A câmera passeia livremente pelos convidados, como em Festa de família, do companheiro do manifesto Dogma de Von Trier, Thomas Vinterberg. Por mais que o clima, vez em quando, seja quebrado por um inesperado humor deslocado, amarelado, a tal melancolia está em cada detalhe da produção: trilha sonora, figurino, edição, interpretações etc.

Sem efeitos especiais mirabolantes, sem apelo melodramático, Von Trier dá cabo de seu filme de forma magistral, mostrando que é, ainda que odiado por muita gente, um dos grandes realizadores de nosso tempo. É um filme para ser visto nas salas de cinema. Não deixe para conferi-lo em DVD. Melancolia é uma experiência cinematográfica arrebatadora.

Eu voltei... Agora pra ficar?

Sem dúvida, parafraseando RC, aqui é meu lugar. Que saudade, acreditem. E acreditem também que meu tempo anda bem escasso. Não que eu tenha deixado de ver filmes - por um indecoroso capricho do destino, apesar da demanda de tempo na minha nova responsabilidade laborial, tenho visto bem mais filmes do que outrora.

Cabines? Quase não tenho ido. A não ser quando são à noite, ou quando há uma pré-estreia. Criticas no Jornal do Brasil? Rarearam, mas estão lá - semana passada foram duas de uma vez. Então, como pode? Tem que ver isso aí... Acontece que, para meu infortúnio, trabalho a quase 80 quilômetros de distância de casa. Por isso, parte culpa do tumultuado trânsito do Rio, passo quase três horas por dia em trânsito. Tempo suficiente para ver vários filmes no meu netbook. Ah, sim: levo o pequeno aparelho de cima para baixo, sem medo que o subtraiam, porque pego um ônibus fretado.

Chega de papo. São mais de 50 filmes vistos e não resenhados. Vou aos poucos. Sigam-me os bons!

domingo, maio 08, 2011

#31 - Como você sabe (How do you know), de James L. Brooks


Se você curte Os Simpsons, já deve ter visto o nome de James L. Brooks nos créditos do desenho animado. Pois bem, aqui ele assina a direção. Por isso, era de se esperar que a comédia romântica Como você sabe tivesse um pouco de tutano. Não tem. E não somente falta tutano, como o filme é um desperdício de talentos.

Já estou convencido que todo a comédia romântica é clichê. Se não for clichê, não é uma comédia romântica - como escreveu Álvaro de Campos (ou Fernando Pessoa), ao afirmar que toda a carta de amor é ridícula, que não seria uma carta de amor se não fosse ridícula. Acontece que, em Como você sabe, até o clichê é ridículo. O filme conta a história do encontro entre uma jogadora de softball que é cortada da seleção estadunidense e um executivo que recebe uma intimação judicial, acusado de fraude financeira. Os dois repassam as suas vidas diante dos problemas que enfrentam.

O elenco é verdadeiramente um desperdício de talentos: Reese Witherspoon faz par romântico com Paul Rudd (que está ameaçado de ficar estereotipado). Jack Nicholson e Owen Wilson completam o escrete. Em virtude das rubricas insossas de seus personagens, ninguém rende o que pode e não há qualquer química entre eles. A única coisa interessante de Como você sabe são alguns poucos diálogos, que fogem à regra das comédias românticas.

Entretanto, logo vem um desfecho absurdamente sem graça, numa cena patética, que acaba com qualquer esforço de empatia.

#30 - Homens e deuses (Des hommes et des dieux), de Xavier Beauvois


Na década de 90, um grupo de monges trapistas franceses foi executado sumariamente em uma cidadela argelina. Homens e deuses é a crônica de uma tragédia anunciada, que mostra como os clérigos tentaram resistir, sob pressão do governo argelino e das ordenações religiosas, usando a fé como suporte. O filme foi premiado em Cannes por sua sensibilidade em contar uma história de cunho político. Porém, foi sumariamente ignorado pelos membros da academia estadunidense.

Acompanhamos os dias que antecederam o dramático desfecho deste pequeno impasse criado pela situação da Argélia, colônia francesa durante muito tempo, palco de diversos conflitos envolvendo grupos de etnias diferentes. O diretor Xavier Beauvois monta seu filme de forma a dar tempo à introspecção monástica. Por isso, as cenas em que o impasse é amplificado acabam intercaladas com passagens nas quais os monges cantam e oram. Não há reviravoltas, nem sobrepassos. As mais de duas horas de projeção são usadas mais para montar as peças de um paradigma do que para contar necessariamente a história. Ou a História, já que se trata um fato que realmente aconteceu.

O elenco consegue dar conta do recado, dando veracidade aos seus personagens. A fotografia contribui para situar o espectador no momento histórico que é retratado. No fim das contas, Homens e deuses é um belo filme sobre um evento tenebroso na história de um país.

#29 - Cópia fiel (Copie conforme), de Abbas Kiarostami


Durante muito tempo, o cinema iraniano ficou restrito a um circuito hermético, no qual quem estava dentro era logo estereotipado pejorativamente como pseudo-intelectual. Os filmes quase sempre eram excessivamente silenciosos, emotivos e lentos. Excessivamente bonitos, também. Um dos maiores diretores daquele país, que contribuiu em muito para solidificar o cinema iraniano como uma corrente provida de substância própria, é Abbas Kiarostami. E aqui ele retorna com uma produção universal, global (no bom sentido), internacional.

Cópia fiel
é uma produção rodada na Itália, com um ator inglês, uma triz francesa, de um diretor iraniano e que trata de uma questão comum a todos os quatro hemisférios do planeta. O roteiro conta a história de um escritor que vai lançar seu livro sobre crítica de arte na Toscana. Lá, encontra uma mulher com quem tem um envolvimento.

E aí vem o bacana do filme. Contrariando a máxima iraniana, Kiarostami constrói uma narrativa que se debruça sobre os diálogos. Cópia fiel é verborrágico, e é preciso prestar bastante atenção no que dizem, em três idiomas diferentes, seus personagens. Aos poucos, de forma brilhante, a história entre o casal vai sendo desvelada. Arte e vida se misturam em diálogos fantásticos.

O casal é protagonizado por William Shimell, um dos barítonos mais respeitados da Inglaterra, e pela sempre belíssima e competente Juliette Binoche, que esbanja uma sensualidade sem antecedentes para os padrões pré-estabelecidos pela indústria cultural. É uma delícia ver o jogo cênico entre os dois.

Filmaço!

28 - Fúria sobre rodas (Angry drive), de Patrick Lussier


Fato: Nicolas Cage deveria pensar seriamente em se dedicar a essa nova onda de exploitations, que revisitam referencialmente os clássicos de décadas passadas. Quanto mais canastrão o personagem, melhor para ele. Já havia sido assim na adaptação que Werner Herzog fez da obra-prima de Abel Ferrara, Bad Lieutenant, na qual Cage protagoniza o policial viciado e inescrupuloso. Em Fúria sobre rodas, Cage tem a oportunidade de exercitar toda a sua picaretagem. E dá certo.

O roteiro segue a mesma fórmula dos carexploitations (sim, o termo existe e se refere aos exploitations de perseguições de carros). Um sujeito às do volante, a bordo de carrões envenenados, parte em busca de vingança. No caso, caça com voracidade os homens que mataram sua filha e sequestraram a sua neta para oferecê-la como oferenda em um ritual de magia negra. Diz aí se não é fantástico esse argumento?

A estética é propositalmente suja. A edição é propositalmente desleixada. Os diálogos são propositalmente forçados. Melhor ainda: o filme original, nos cinemas, foi exibido em 3D. Mais uma vez, nenhuma grande cena utilizando o recurso. Porém, algumas pequenas passagens são divertidas. Quem assina a direção é Patrick Lussier, um sujeito que, ao que tudo indica, deve se tornar referência em remakes de filmes de terror em 3D. Foi assim com Dia dos Namorados macabro, e deve ser assim com os já anunciados remakes de Hellraiser e Halloween 3.

Porém, voltando ao Cage, fica a dica para ele: dedique-se aos exploitations!