segunda-feira, setembro 21, 2009

#99 - Julie & Julia, de Nora Ephron



Meryl Streep e Amy Adams voltam a trabalhar no mesmo filme, em personagens bem diferentes das freiras de Dúvida. Porém, desta vez, as atrizes não contracenam juntas, já que suas personagens vivem em épocas diferentes. Outro detalhe é o tema, aqui bem mais leve: Julie & Julia conta as histórias verídicas de duas mulheres cujas vidas foram preenchidas pelo amor à gastronomia. O resultado é um filme despretensiosamente agradável.

As duas histórias correm em paralelo. Julia Child (Meryl Streep) mudou-se para Paris em 1948 e aproveitou o tempo livre para estudar a culinária local. Tempos depois, ficou conhecida por escrever um livro que ensinava as receitas às donas de casa estadunidenses. Tornou-se figura conhecida até mesmo na TV. Algumas décadas mais tarde, em Nova York, Julie (Amy Adams), uma funcionária pública frustrada que ama cozinhar, resolve criar um blog no qual conta suas experiências pessoais acerca do desafio de preparar todas as receitas do livro de Julia em apenas um ano.

O roteiro dá conta do recado, dosando de forma correta a gastronomia com os dramas pessoais das personagens. A direção de arte e a fotografia, caprichadas, ajudam. Mesmo com histórias correndo em paralelo, em épocas diferentes, a narrativa flui com facilidade. Pitadas de comédia na dose certa dão um toque de descontração ao filme. Meryl Streep, para variar, esbanja talento e carisma. Já é lugar comum, mas dá gosto vê-la atuando!

Anote aí:

SEG (28/9) 12:15 Espaço de Cinema 2
SEG (28/9) 19:20 Espaço de Cinema 2
QUA (30/9) 15:00 Est Vivo Gávea 5
QUA (30/9) 21:50 Est Vivo Gávea 5
SEX (2/10) 14:00 Leblon 1
SEX (2/10) 19:00 Leblon 1

domingo, setembro 20, 2009

Teatreiro, eu? - "Till - a saga de um herói torto", com o Grupo Galpão


Receber a notícia de que o Grupo Galpão vem ao Rio com um espetáculo novo é sempre motivo para encontrar um certo alento necessário para mover a vida com mais serenidade. Esquecer as tarefas entediantes, as rotinas estafantes, as discussões estressantes. Mais do que isso, é um momento para nos sentirmos menos culpados por optarmos pela burocracia enfadonha, imposta talvez pela covardia de não seguirmos em frente os nossos instintos, dos nossos postos de trabalho. Feliz é aquele que faz o que ama. Iluminado é aquele que consegue quebrar a quarta parede de um palco italiano e fazer com que tal amor seja compartilhado. Com o Galpão, a mim, é sempre assim.

O novo espetáculo do grupo mineiro, Till, a saga de um herói torto, é uma farsa deliciosa, com texto e encenação caprichados. Conta a história de um sujeito preguiçoso cujos predicados vão sendo retirados pelo diabo, motivado por uma aposta com deus: o ser humano ficaria perdido sem as boas virtudes. Após ser abandonado pela mãe - em cujo ventre ficou por mais de cinco anos -, Till vaga pela Alemanha medieval tentando sobreviver a qualquer custo. Aplicando pequenos golpes e bolando um punhado de artimanhas, logo passa a ser perseguido.

Em uma tentativa de retomar as raízes, a encenação é feita ao ar livre, com acesso gratuito. Porém, já consagrado, o Galpão conta com uma estrutura cenotécnica espantosa. A cenografia e os figurinos são fantásticos. Ou seja, toda a estrutura para que os atores rendam o máximo é oferecida. O resultado, já que o grupo é um dos poucos onde os talentos são realmente homogêneos, é brilhante. Nem mesmo a irrepreensível Inês Peixoto, que dá vida e, mais do que isso, carisma ao protagonista, ofusca os coadjuvantes da história. Isso se chama coletividade. Inclusive, quem assina a direção de Till, a saga de um herói torto é Julio Maciel, também integrante da companhia, que conhece bem os limites dos atores e a melhor forma de trabalhar o coletivo em prol do jogo cênico.

Foi uma noite extremamente agradável. O Parque dos Patins pareceu pequeno para a força do espetáculo do Galpão. Nem mesmo o barulho constante de helicópteros (há dois heliportos, um em cada extremidade do parque) atrapalhou a fruição do público. Voltamos para casa preenchidos e nutridos, com aquela sensação de que a vida pode, sim, ser um pouco mais agradável. E de que a arte é algo para ser partilhado.

O Grupo Galpão tem uma missão. Eles sabem disso. Até o mais breve possível, pessoal!

Cariocas, não percam! Ainda restam algumas apresentações por aqui. Segue o servição:

Hoje, 20 de setembro, no Parque dos Patins, Lagoa, às 19h.
24 e 25 de setembro nos Arcos da Lapa, às 19:30h.
27 de setembro na Quinta da Boa Vista, às 16h.

quarta-feira, setembro 16, 2009

#98 - Os Trapalhões e o rei do futebol, de Carlos Manga


Como a maioria das crianças da década de 80, eu adorava Os Trapalhões. A hora do lanche, aos domingos, era sagrada: parávamos todos para assistir ao programa na casa dos meus avós, comendo sanduíche de presunto e bebendo coca-cola gelada. Por isso, cada lançamento do quarteto nos cinemas era motivo de euforia. Ainda mais quando o assunto era futebol - já que meu tio levava toda a molecada, rubro-negra desde cedo, ao Maracanã.

Quando Os Trapalhões e o rei do futebol entrou em cartaz, eu tinha oito anos. Lembro-me que saí do cinema bastante satisfeito. Inclusive, algumas cenas ficaram marcadas na memória: Didi fazendo gol contra e comemorando, depois batendo escanteio e correndo para cabecear a bola na pequena área e Pelé fazendo gol de goleiro - mais difícil do que o gol que ele não fez na vida real, do meio do campo.

Assistir ao filme agora, já adulto, foi uma experiência realmente frustrante. Tirando as cenas inesquecíveis descritas acima, pouca coisa se salva. O roteiro é bastante confuso e a história se esgota em poucos minutos. Porém, o pior mesmo são as atuações. Pelé - como eu não vi isso, mesmo com oito anos? - é péssimo. Vê-lo atuar é tão constrangedor e irritante quanto ouvi-lo falar em terceira pessoa. Luiza Brunet empresta seu charme jovial à mocinha, mas compromete. O pior, porém, é o texto. Didi, por incrível que pareça - e aí, aos oito anos, não tinha mesmo como entender - faz uma série de piadas de teor adulto. Tem até duplo sentido, quando uma bandeja de cuscuz é encharcada com água:

"Ficou cuscuz molhado!"

Os outros três Trapalhões pouco aparecem. O filme ainda conta com um time que mais tarde viria a fazer carreira na teledramaturgia, como Carlos Manga, Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares.

Era melhor ter deixado Os Trapalhões e o rei do futebol na memória, protegido e intacto.

segunda-feira, setembro 14, 2009

#97 - Copacabana mon amour, de Rogério Sganzerla


Não há dúvida quanto à importância das realizações de Rogério Sganzerla para o cinema brasileiro. Caótico, seu trabalho praticamente inaugura um cenário underground, no qual os personagens podem exercitar uma sarcástica e ácida crítica à falta de discernimento cultural e social para com o país.

Em Copacabana mon amour, os contrastes de um Rio de Janeiro decadente, ex-capital federal, conivente com os excessos da classe média e a miséria da favela, são contados através de personagens típicos do submundo. Um médium gay apaixonado pelo patrão rico, sua irmã prostituta que sonha ser cantora de rádio e um cafetão que se apaixona por ela são os três vértices principais da trama. O roteiro funciona como uma série de colagens de pequenas cenas que trazem à tona a um Brasil descaracterizado.

Estéticamente, Copacabana mon amour não tem o mesmo apuro do clássico anterior de Sganzerla, o fantástico O bandido da luz vermelha. A obra é visivelmente prejudicada pela dificuldade da época - início da década de 70 - em se realizar um filme. Ainda assim, Sganzerla consegue cenas memoráveis, como os despachos na areia da praia e a evolução de um homem com um pano branco pelas ruas de Copacabana, representando um fantasma. O ponto forte, que se destaca, por conseguinte, é o texto: afiado, caótico ácido e, ainda assim, extremamente poético. A trilha original de Gilberto Gil dá um toque ainda mais tropicalista ao discurso.

Um filme necessário para o reconhecimento de um cinema tipicamente brasileiro.

sábado, setembro 12, 2009

#96 - Falando grego (My life in ruins), de Donald Petrie


Se eu fosse membro do governo grego, estaria arrependido em ter concedido à Nia Vardalos e companhia autorização para filmar nas ruínas gregas. Há décadas não era permitido o acesso de cineastas nos sítios arqueológicos. Porém, acreditando que Falando grego pudesse soar como um protesto respeitoso contra um turismo mercantilista e vazio, meramente comercial, lá foi a atriz pegar um avião até o Velho Continente. O resultado? Um filme arruinado.

Nem vale a pena perder tempo falando sobre como o elenco é fraco e os personagens, desinteressantes. A começar pela própria Nia Vardalos, que faz uma ginástica facial intensa durante os cerca de noventa minutos de filme. São caras e bocas intermináveis, irritantes. Estereotipados propositalmente, os turistas são como agentes detratores de uma cultura milenar, berço da civilização. A protagonista, uma professora de história desempregada que faz bico de guia, luta para por um pouco de cultura nas cabeças vazias de estadunidenses consumistas, australianos bêbados e espanholas ninfomaníacas. Porém, é taxada de chata, insuportável. Dizem os próprios gregos, que no filme também são estereotipados como malandros e preguiçosos - não sobra para ninguém, nem para os canadenses muito bem educados - que ela perdeu o kefi, algo como o tesão.

Até aí tudo bem. O governo grego deveria até estar gostando do filme, que mostra as belas paisagens, ainda que bem rapidinho, de uma Grécia que é patrimônio da humanidade. Porém, todo o argumento vai por água abaixo quando Georgia, ou Nia Vardalos mesmo, já que ela sempre interpreta ela mesma, começa a ter lições de vida com o que outrora era um bando de baderneiros. Abrindo mão de tudo o que acreditava no início do filme, passa a aceitar a vitória da ignorância sobre o conhecimento. O desfecho ainda vem para ratificar tudo isso.

Sem contar as subtramas convexas. Como se trata de uma comédia romântica, arrumam logo um par para Nia Vardalos nos primeiros minutos de filme. Um sujeito que mais parece um ogro, chega ao final da projeção como um apolíneo deus grego. A outra subtrama dá conta das sabotagens que um funcionário concorrente planeja para ver a mocinha afastada de suas atividades. Um vilão tão inerte, que nem dá vontade de torcer para ele.

Nem o experiente Richard Dreyfuss salva o filme. É obrigado a fazer um número de piadas de salão para tornar o filme mais agradável. Seu personagem sofre com um roteiro que não lhe favorece.

Faltou kefi.

PS: para ler a resenha que eu escrevi especialmente para a M..., clique aqui!

sexta-feira, setembro 11, 2009

#95 - High School Band (Bandslam), de Todd Graff


Mais uma estreia desta sexta-feira. Não repare nos dois títulos em inglês ali em cima - é que a estratégia aqui no Brasil é pegar carona naquela famosa franquia adolescente. Um equívoco total, pois High School Band não é uma merda. Até que é um filme regular. As referências são as melhores possíveis. Entretanto, não foge da fórmula manjada. E na hora da música... desafina! Veja um esboço do que eu escrevi para a Revista Programa, do JB.

Aproveitando a franquia de musicais adolescentes rodados em colégios, High School Band (que em inglês se chama apenas Bandslam) tenta dar uma roupagem mais rock e menos pop ao sonho de estrelato da garotada. O roteiro conta a história de um jovem que usa seus conhecimentos teóricos sobre música para ajudar uma banda a vencer um disputado concurso.

O filme começa bem, com uma série de citações a ícones do rock, como David Bowie, Velvet Underground e Violent Femmes. Tinha tudo para dar certo. O problema é quando surgem os números musicais. O que se vê na tela são sequências bastante exageradas, que rompem com a linha “rebelde” proposta no argumento. High School Band acaba caindo no excesso típico da maioria dos filmes voltados ao público teen - o que justifica o oportunista título em português.

PS: em breve, um texto falando sobre como o rock é mal interpretado nas telonas.

#94 - Caro Sr. Horten (O'Horten), de Bent Hamer


Há filmes que, com extrema simplicidade, conseguem contar uma história concisa. É o caso de Caro Sr. Horten, uma produção norueguesa que empresta um olhar humanista à história de um homem solitário às vésperas de se aposentar do ofício de maquinista. Pontual e discreto, se atrasa para a última viagem depois de uma noite incomum. Está dado o ensejo para uma crise pessoal na qual o Sr. Horten vai repensar toda a sua vida.

Quem faz o papel do carismático protagonista - esse aí do cartaz, segurando o cachorro no colo - é o excelente Baard Owe. Com uma caracterização enxuta, consegue deixar transparecer toda a linha de pensamento do personagem. Situações insólitas, poucos diálogos e planos contemplativos fazem parte do recheio do filme e podem cansar os mais acostumados ao estruturalismo hollywoodiano. Porém, o início e o desfecho compensam, cheios de simbolismos e belas imagens.

O filme foi o candidato da Noruega ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. Trata-se de uma obra bem acabada e que entretem, justamente, pela tal simplicidade.

quarta-feira, setembro 09, 2009

#93 - O roqueiro (The rocker), de Peter Cattaneo


Percebemos que estamos ficando velhos demais quando assistimos a um filme no qual um baterista balzaquiano barrigudo entra para a banda do sobrinho, cujas composições beiram a pieguice melodramática do emo. Nós, amantes do rock, nos sentimos exatamente como o protagonista de O roqueiro - um filme bacana, mas que escorrega na hora dos números musicais.

Acompanhamos o trauma de Robert 'Fish' Fishman (Rainn Wilson), expulso da banda Vesuvius por influência de um empresário. Assim como Pete Best (que faz uma ponta no filme), o primeiro baterista dos Beatles, Fish acompanha a escalada de sucesso dos ex-companheiros de música, enquanto amarga um trabalho burocrático e monótono, bem distante dos palcos. Quando seu casamento entra em crise, ele se muda para a casa da irmã. Atendendo a um pedido do sobrinho, cuja banda procurava um baterista, aceita voltar às baquetas. Depois de um vídeo escandaloso que faz sucesso no Youtube, Fish vê novamente a chance de alcançar o estrelato.

O filme é, inteiro, de Rainn Wilson! Com o timing para a comédia, as sequências mais engraçadas levam a sua assinatura. As caras e bocas enquanto surra os tambores são realmente hilárias, encarnando com perfeição o humor instável e as excentricidades de um baterista neurastênico e deslocado. Até mesmo o seu humor físico é divertido.

A maionese começa a desandar quando surgem os números musicais. Ainda que Fish tente acabar com os lamentos e a choradeira das canções compostas pela molecada, toda aquela rebeldia do rock vai para o ralo, em números que se utilizam dos mesmos artifícios de sucessos adolescentes: a megalomania pop. O que podia ser uma aula de rock, se transforma em um enfadonho enlatado de gravadora.

Ok. Também era querer demais que os números musicais fossem tão bons. O roqueiro é um filme divertido e que vai render boas risadas. Porém, é prova cabal de que Paul Stanley estava mentindo quando cantou, de cara limpa, que "deus deu o rock para todos nós".

sexta-feira, setembro 04, 2009

#92 - Gesto obsceno (Tnuah meguna), de Tzahi Grad


Sexta-feira, dia bom, cheio de estreias no cinema. Uma delas é o bacana e interessante Gesto obsceno, um filme israelense que fala sobre a violência que um dedo em riste pode provocar em uma sociedade cada vez mais neurotizada. Quem mora no Rio, pode conferir e prestigiar a resenha que eu escrevi para a Revista Programa, do JB. Para quem não está na Cidade Maravilhada, segue um esboço do que está lá.

O ponto de partida de Gesto obsceno é a violência que um simples movimento de mãos mais ofensivo pode desencadear. Michael Klienhouse é um pai de família comum que vê sua vida ameaçada depois de um desentendimento no trânsito, no qual um misterioso motorista arranca a porta de seu carro depois de ser ofendido por sua esposa.

Rodado em Israel, a câmera na mão e a edição certeira dispensam artifícios hollywoodianos. De forma simples, Gesto obsceno mantém o clima de suspense em tom sempre crescente. O roteiro deixa exposto o desvirtuamento dos valores éticos e a ineficiência da lei, abordando como os israelenses precisam enfrentar a intolerância entre semelhantes - ainda que ao som constrangedor das sirenes do Dia da Memória, que homenageia soldados mortos e vítimas do terrorismo. A insólita solução que o protagonista encontra debocha dos clichês típicos do gênero.

Ao final da projeção a gente sai do cinema até pensando em se comportar um pouco mais no trânsito, em ser mais civilizado.

quarta-feira, setembro 02, 2009

#91 - The pawnbroker, de Sidney Lumet


Sidney Lumet é um diretor conhecido pela brutalidade com que trata a degradação dos seus protagonistas. The pawnbroker, de 1964, não foge à regra. É um filme denso, melancólico e bastante angustiante. Personagens, diálogos, locação e montagem ajudam a contar uma história que envolve memórias do Holocausto e a dificuldade da crença no ser humano.

A primeira cena mostra Sol Nazerman, um judeu sobrevivente da guerra, aproveitando um dia de lazer com a família. Um estrondo interrompe a narrativa e há um salto temporal. Sol é o dono de uma loja de penhores em um bairro barra pesada de Nova York, onde trata com pessoas à beira do desespero - ofício perfeito para um homem que perdeu a compaixão pelo próximo e que se mantém indiferente aos dramas por trás das quinquilharias à venda.

Lumet demonstra toda a sua habilidade como diretor e faz um filme tecnicamente perfeito. A imagem é clara, direta, sem rodeios. Para incrementar a narrativa, a edição se utiliza de um recurso conhecido como two frames cut, quando uma imagem é mostrada em apenas dois fotogramas. No caso, são as imagens de um passado que tem influência no comportamento de Sol. Aos poucos, vamos montando um quebra-cabeça horripilante.

A interpretação de Rod Steiger é absoltamente incrível! E os coadjuvantes não ficam para trás. A trilha sonora é assinada por ninguém menos que Quincy Jones. Ou seja, é um timaço a serviço de um grande diretor.