
Partidas é um filme japonês, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, cujo título em português também funciona. O roteiro fala sobre a dificuldade em aprender a lidar com dois tipos de partidas. A primeira é a morte física, a partida do mundo dos viventes. A segunda é a morte psicológica, tão terrível quanto a primeira, causada pelo abandono. Usando como narrador um violoncelista desempregado abandonado pelo pai ainda na infância, Yôjirô Takita conta uma bela história que evoca tradições milenares e choques existenciais contemporâneos.
Após receber a notícia de que a orquestra em que toca será dissolvida, Daigo (Masahiro Motoki) resolve voltar à sua antiga cidade natal, no interior do Japão. Decidido a abandonar a música como ofício, arruma um trabalho inusitado, em uma empresa que prepara as pessoas para partir. Ou seja, maqueia e acondiciona os mortos no caixão. Sua nova função causa um certo constrangimento em casa e desperta a desconfiança dos vizinhos. Porém, é convivendo com a dor dos outros que Daigo vai aprender a superar o seu próprio drama.
O ritual que envolve o trabalho de acondicionamento é verdadeiramente lindo, com movimentos delicados e cadenciados. Daigo aprende que maquiar o rosto do defunto e transformar o corpo gelado em uma réplica do que era quando vivo é uma tarefa que requer paciência e concentração, assim como é também a execução de uma sinfonia.
O filme começa com sequências que tiram proveito do estranhamento causado pelo argumento. Na medida certa, arranca alguns risos com os percalços da profissão, como na divertida cena do primeiro contato de Daigo com um cadáver. O peso do ritualístico é mesclado com uma edição mais solta, mais aos moldes do cinema ocidental. Porém, se por uma lado esse tipo de montagem ajuda na hora de prender a atenção do espectador, por outro ameaça o resultado final com os temidos clichês.
O terço final do filme deixa o estranhamento de lado e dá lugar a um sólido melodrama, com direito a cenas típicas dos dramalhões hollywoodianos - só que mais bem feito, bem mais verdadeiro. A sequência na qual Daigo toca seu violoncelo em meio a paisagens bucólicas, em uma série de cortes temporais da trama, é quase piegas. Só não cai no clichê por causa da belíssima atuação de Motoki. Lá para o final, quando o protagonista precisa resolver seus conflitos, a direção de Takita deixa a gente com aquele nó na garganta, apoiado pelo tristonho e melancólico som do violoncelo.
Ainda assim, Partidas é uma história sensível e muito bem contada. Um belíssimo filme!







