segunda-feira, agosto 20, 2007

#48 - Fanny e Alexander (Fanny och Alexander), de Ingmar Bergman


Entrei na locadora sabadão à noite, notei a pilha de devoluções que haviam sido feitas no final do dia e lá estavam vários filmes do Bergman. Perguntado sobre, o balconista confirmou minha suspeita: por causa da morte deste monstro sagrado da sétima arte, seus filmes começaram a ser mais alugados. Triste que aconteça só agora. Bom saber que mais pessoas estão se interessando por Bergman.

E lá estava "Fanny e Alexander", com suas três horas de duração. Sempre há tempo para rever clássicos como este. Alugado.

Bergman filmou esta obra-prima já maduro, em 1982, depois de retornar da Alemanha para sua cidade natal, na Suécia. Segundo o próprio, esta é sua biografia cinematográfica. O roteiro conta a história de duas crianças, as do título, que passam por transformações profundas quando o pai, diretor de um teatro, morre. Para rechear a densa trama, lá estão o simbolismo e o realismo fantástico.

Muita gente diz que este filme é o menos "bergniano" (odeio estes termos...) do realizador sueco. Discordo. É misterioso, intrigante, luxuoso, impecável. Uma verdadeira aula de direção. Uma verdadeira obra de arte.

Não é um filme para o gosto comum, de jeito nenhum. Porém, eu o vi comendo pipoca, ora bolas! E para aqueles que dizem que cinema de arte (odeio este termo também) é chato, faço minhas as palavras de Glauber Rocha, que dizia que "a linguagem cinematográfica é muito rica para apenas contar histórias".

Ave Bergman!

#47 - A queda - as últimas horas de Hitler (Der Untergang), de Oliver Hirschbiegel


Um bom filme de guerra não precisa ter explosões, carnificina, chuva de balas e soldados enlouquecidos - ainda que tudo isso não seja lá ruim para o gênero. Boas mesmo são aquelas produções que fazem nossos olhos não acreditar no que estão vendo, que nos transportam para a época do combate, que nos aproximam a uma distância nada segura dos inimigos. Pois "A queda" cumpre tal missão com honras.

O filme mostra as últimas horas, de fato, as últimas mesmo, de vida do ditador alemão. Tão últimas, que o cenário não é um campo aberto de batalha - e sim um bunker muito bem escondido onde os líderes nazistas se acoam, esperando que os russos tomem Berlim e os capturem. Tudo isso narrado por uma secretária particular do ditador. Clima soturno e fúnebre, como a guerra.

A caracterização dos personagens é perfeita, o figurino é impecável e a cenografia é brilhante. O ator que interpreta Hitler, Bruno Ganz, dá um show à parte. Não poderia dizer que seu trabalho é fiel à realidade. Porém, é assustador!

O final, se você estudou para aquela prova de história quando estava na sétima série, já é sabido. Mesmo assim, é imperdível.

quinta-feira, agosto 09, 2007

#46 - Incidente no Lago Ness (Incident at Loch Ness), de Zack Penn


Diz a sinopse que o filme é uma junção de dois projetos: um documentário que Werner Herzog, mestre do gênero, estava rodando sobre a lenda do Monstro do Lago Ness; e um making of sobre a produção deste mesmo documentário. O resultado é sensacional!

O que vemos na tela é uma filmagem como outra qualquer: o diretor, o produtor, o fotógrafo, o operador de som e o capitão do barco em reuniões, discussões e elucubrações sobre o suposto monstro. Porém, as coisas começam a tomar rumos imprevisíveis quando Zak Penn, quem comanda a equipe, bate de frente com Herzog, que não concorda com o comportamento hollywoodiano e egocêntrico do produtor. E para piorar as coisas, a equipe se depara com misteriosas perturbações nas fleumáticas águas do Lago Ness. Pronto, o circo está montado!

As personagens são fantásticas. O capitão do navio é um sujeito neurastênico que se recusa a obedecer ordens. A operadora de sonar é uma linda modelo de seios fartos que nunca operou equipamentos marítimos. Um criptozooligista, especializado em descobrir criaturas que não existem (?), é o responsável em dar suporte às teorias sobre o monstro.

A partir de um certo ponto, o documentário vira uma espécie de "Bruxa de Blair", com imagens supostamente gravadas em alto mar, em momentos de tensão e expectativa. O filme ainda brinca com mitos sobre Herzog, como um boato de que ele dirigiu Klaus Kinski sob a mira de um revólver. Hilário.

Sem mais, para não estragar o entretenimento alheio!

domingo, agosto 05, 2007

#45 - Hype!, de Doug Pray


Eu vesti camisa de flanela, usei bermudão abaixo dos joelhos e fui apadrinhado com alcunha de grunge pelos colegas de colégio, ainda que eles não tivessem a menor idéia do que o termo realmente significava. Se assistissem a este documentário, seria diferente.

Sim, eu fiz parte de um movimento. À distância, mas fiz. E para entender melhor o que foi aquele furacão que abalou o cenário musical no início dos anos 90, quando todo mundo achava que não havia mais nada de criativo sendo tocado por aí, "Hype!" é perfeito. A câmera passeia por uma Seattle friorenta e chuvosa, porém fervorosa, testemunhando uma verdadeira revolução cultural.

São diversos depoimentos, performances e muito, muito barulho. Até porque tratava-se disso mesmo: fazer barulho bom!

Pearl Jam, Soundgarden e Nirvana estão para Seattle assim como Prático, Heitor e Cícero estão para os contos de fadas. Logo, como não podia deixar de ser, a tríade mais famosa do rock aparece em suas primeiras audições, gravando demos e tocando pela primeira vez seus maiores sucessos - o que torna o documentário essencial para quem gosta de boa música.

Como dizia Paul Stanley e cia: God gave rock n roll to you!

sexta-feira, agosto 03, 2007

#44 - Justiça, de Maria Augusta Ramos


Esta é uma palavra que, em nosso país, ganhou contornos mais grossos, conotações diversas e que sempre gerou muita polêmica. A justiça, sendo ela divina ou humana, cega ou caolha, lenta ou eficaz, está em questão neste belo documentário de Maria Augusta Ramos.

Durante cem minutos, a câmera passeia pelos corredores frios dos tribunais, pelas salas de estar das casas de juízes, pelas abarrotadas celas da Polinter, pelos barracos dos parentes de condenados, pelas sessões de depoimento. Enfim, somos levados à todas as personagens envolvidas em uma ação criminal. E é você, como mero ouvinte e vidente, quem bate o martelo.

Graças à perfeita produção, "Justiça" apresenta provas e cenas contundentes, que fazem refletir sem sentimentalismo ou parcialidade - corriqueirismos comuns ao direito. A diarista aqui de casa viu algmas cenas comigo, fez comentários pertinentes e disse que não tem pena de bandido. Meu pai passou por aqui, assistiu à meia hora final e comentou sobre o mal-estar que o filme causou no judiciário.

O que fica claro é que a justiça, essa palavra tão perseguida, é quase subjetiva. E que a justiça, na qualidade judiciária, se distancia cada vez mais da realidade brasileira.

quarta-feira, agosto 01, 2007

#43 - Saneamento básico - o filme, de Jorge Furtado


Um filme de Jorge Furtado é digno de nota. Na minha opinião, dos melhores cineastas que este país tem o privilégio de ainda abrigar. Desde "Ilha das Flores", passando por "Houve uma vez dois verões" e "Meu tio matou um cara", Furtado mantinha-se na ascendente.

Conjuguei o verbo no passado porque, desta vez, ele errou na mão. Não que o filme seja ruim, de jeito nenhum. Porém, não é lá grandes coisas quando lembramos que trata-se do mesmo diretor de "O homem que copiava" e "O dia em que Dorival encarou a guarda".

O elenco, dizem, é sensacional. Não concordo, mas vá lá. Os diálogos, dizem, são bem bolados. Já vi melhores, mas tudo bem. O roteiro é bem costurado. Sim, mas é previsível. Tecnicamente, é tudo perfeito - como não poderia deixar de ser. Então qual é o problema? Falta ritmo. E, justamente, aquele ritmo que fez dos filmes anteriores de Jorge Furtado peças únicas. "Saneamento básico" tem cara de entretenimento global.

Pode pagar o bilhete, que o divertimento está garantido. Só não espere o troco.

LUTO

Este blog está de luto pela perda de dois mestres da sétima arte, que me fizeram optar pelo cinema como expressão máxima da vida.

Descansem em paz, Bergman e Antonioni. E obrigado.

#42 - Deu a louca na Chapeuzinho (Hoodwinked), de Cory Edwards


Pelo que eu havia lido sobre esta animação, e pelo trailer também, era de se esperar um filme sarcástico, crítico, inteligente...

Que nada. Foi como acreditar em fadas, gnomos e duendes. Não vou nem perder tempo escrevendo sobre.

Nhé!

#41 - Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes


Eis um road movie tipicamente brasileiro! Misturando cinema, aspirinas e os urubus que sobrevoam o interior no nordeste atrás de carcaças expostas, Marcelo Gomes fez mais que uma obra ficcional. Baseado em uma história real, o filme nos confunde a toda a hora. Parece documentário de vez em quando, tamanha a entrega dos atores às falas, da fotografia descompromissada, porém com enquadramento perfeito.

João Miguel e Peter Ketnath interpretam, respectivamente, Ranulpho e Johann. O primeiro, um trabalhador rural em busca de trabalho na cidade grande; o segundo, um alemão fugido da II Guerra Mundial que vende aspirinas no sertão. Os dois se encontram na estrada e passam a ser confidentes de uma mesma história: o abandono forçado de suas origens em prol de uma vida menos sacrificante.

Apesar de ser um road movie, o tempo das ações é lento. A luz é pouca. A fala é baixa. Um belíssimo filme, para poucos. Forte concorrente ao Oscar. E não custa nada repetir: quem precisa de uma merda de estatueta?

#40 - Escola de idiotas (School for scoundrels), de Todd Phillips


Mais um filme em que o título não ajuda. Ok, não é um filme sensacional. Porém, são cerca de hora e meia de diversão inteligente - e não idiota.

Jon Heder, o eterno Napoleon Dynamite, protagoniza esta comédia. Ainda fazendo papel de desajustado socialmente, Heder interpreta um policial de trânsito que precisa de um empurrão para tomar as rédeas da sua vida. Para isso, se matricula em uma misteriosa escola - essa aí do título, onde encontra seus semelhantes. Ninguém melhor que Billy Bob Thorton para fazer o papel do professor, competitivo e egocêntrico.

As piadas são boas, os diálogos bacanas, as situações interessantes... O desfecho é que peca. É preguiçoso demais. Inclusive o alternativo, mais preguiçoso ainda.

Melhor do que o filme, é o seu making of. Este sim, imperdível.