segunda-feira, julho 16, 2007

#39 - O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger


Muitos pais de crianças brasileiras saíram de férias no ano de 1970, quando o Brasil sagrava-se tricampeão mundial de futebol e a ditadura caçava ativistas políticos. É uma mancha lamentável na história do país, daquelas que não são removíveis com faxina pesada. É essa sujeirinha, incômoda, feiosa, que permeia esta fantástica realização do diretor Cao Hamburger - isso, aquele cara que dirigia Castelo Ra Tim Bum, programa infantil da TV Cultura.

Sem excessos, maneirismos e diálogos fáceis, Hamburger dirige com maestria a história de um menino, filho de revolucionários, que é deixado com o avô quando seus pais precisam fugir da ditadura. Ele vai parar no bairro do Bom Retiro, onde a comunidade judaica paulistana se estabeleceu na década de 70. Emocionante, sem ser piegas. Forte, sem ser apelativo.

Tudo é perfeito: ambientação, figurino, montagem, trilha sonora e fotografia - essa última, sempre com aquela mancha, aquela sujeira. Opaca, meio sem cor. Porém, o destaque fica mesmo para a dupla de crianças : Michel Joelsas e DanielaPiepszyk, que dão um banho ao contracenar com atores de grande porte, como Simone Spoladore e Eduardo Moreira (xará, do Grupo Galpão) .

Uma linha só para escrever que é imperdível!

Já tem gente dizendo que este filme consegue o Oscar. Mas quem precisa de uma merda de estatueta?

#38 - Faixa de areia, de Daniela Kallmann e Flávia Lins e Silva


O assunto é interessante: fazer um trabalho de campo, no melhor sentido antropológico do termo, pelas disputadas e escaldantes areias das praias do Rio de Janeiro. Como Documento Especial, saudoso programa documentacional da extinta Rede Manchete, fazia, e muito bem. Só que aqui faltou argumento.

A dupla de diretoras até consegue bons personagens, mas se mantém muito distante. Faz perguntas esperando as mesmas respostas, sempre previsíveis. A montagem também não ajuda. Uma hora estamos em Copacabana, aí vamos para o Leblon, depois para Barra de Guaratiba, aí voltamos para Copacabana, vamos para o Recreio, voltamos para o Leblon, depois voltamos para Copacabana e assim o filme vai, sem vislumbrar um rumo.

A capa do filme ainda diz que o documentário conta com participações de Luana Piovani (eca, mas sempre equivocada, o que vale a pena) e Ruy Catro (esse sim...). Porém, esquece de dizer que são participações, digamos, fortuitas. São pequenas opiniões, bem rápidas, de quem estava de passagem por ali pela praia, de chinelos, roupa de banho e cuca fresca. E todos versando sobre a democracia praiana. Lugar comum.

No fim das contas, falta coesão. Por que fazer um filme sobre as faixas de areia do Rio? O que propor a ser discutido?

Documento Especial é muito melhor!

segunda-feira, julho 09, 2007

#37 - Paris, te amo (Paris, je t'aime), vários diretores


Mais do que um filme, "Paris, te amo" é um festival de curtas. Para ser mais preciso, 18 curtas (já li por aí que são 20, 21 e até 22, mas não contei...). E não são 18 (vou insistir neste número, ok?) curtas quaisquer. Entre eles, diretores conceituados, queridos e fantásticos. Em comum, todas as histórias, contadas em cinco minutos, tinham Paris como pano de fundo.

Estavam lá os Irmãos Coen, Gus Van Sant, Walter Salles e Daniela Thomas, Alexander Payne, Tom Tykwer e até Wes Craven, entre outros. Tem drama, comédia, terror (não, não se trata do episódio do Wes Craven...), ação, suspense, romance, fantasia. Em quase duas horas de projeção, a maioria dos curtas prende a atenção e consegue, em apenas cinco minutos, contar histórias que permanecem por ali na tela após o desfecho.

Destaque, como não podia deixar de ser, para Joel e Ethan Coen. Um episódio com o excelente Steve Buscemi e o metrô, divertidíssimo e criativo, com o timing tão peculiar dos Coen. Walter Salles e Daniela Thomas acertam em cheio com a história de uma jovem imigrante. Emocionante e belo sem uma gota de pieguice. Alexander Payne fecha a conta com uma sensacional e nada convencional declaração de amor à Cidade Luz.

Fantastique!

#36 - The Quest, de Jason A. Carbone e Mike Fleiss

De madrugada, vale tudo para pegar no sono. Até mesmo assistir a filmes idiotas. É o caso de "The Quest", um documentário que prometia contar a história de um jovem virgem que parte em uma viagem com amigos, em busca do primeiro coito. Destino: México!

Eu esperava pegar no sono logo, tanto que programei a TV para desligar em trinta minutos. Porém, bastou o filme começar para desligar o timer... e assisti-lo até o fim. Porque era mais que idiota, era bizarro! Junte jovens estadunidenses estúpidos, cerveja, anões, peitinhos, simulações sexuais (nunca sexo de verdade) e todo o pudor e constrangimento que puder caber em oitenta minutos.

Uma cidade praiana, onde as meninas usam aquelas tangas de avó, mas mostram os peitos a todo instante, ainda que rapidinho. Onde há concursos que premiam as posições sexuais mais criativas, mas claro, sem tirar bermudas, sungas e sutiãs. Onde a polícia é permissiva com álcool, mas só álcool.

E aí você pergunta por que valeu a pena desligar o timer da TV? Foi por causa dos anões! O filme vale por causa dos anões metidos a garanhões! Os anões malandros e suas teorias pitorescas, como a que dá conta do tamanho de seus membros, a infame teoria do L invertido.

Constrangedor, mas, ora bolas, divertido!

sábado, junho 30, 2007

#35 - Uma escola de arte muito louca (Art School Confidential), de Terry Zwigoff


Eu gostaria realmente, como já foi manifestado em resenhas anteriores, pegar o desgraçado que faz estas traduções de títulos e examinar o que se passa dentro de seus miolos. Por favor, francamente, porra, assim não dá. Olha só, aí em cima, como este filme foi batizado. Em sã consciência, nas condições normais de temperatura e pressão, ninguém vai ter interesse em assisti-lo.

Pelo nome, parece mais uma daquelas comédias adolescentes sobre alunos doidões atrás de felação. Pois não é nada disso. Apesar de estar inserida no gênero comédia, esta realização de Terry Zwigoff vai muito além. O diretor é conhecido por dissecar impiedosamente o universo jovem, como foi feito no anterior e maravilhoso "Ghost World", que foi traduzido como... "Ghost World" mesmo. Aqui, há pitadas de bizarrices, um clima soturno e até um suspense que corre em paralelo à história de um rapaz que entra para a faculdade de Artes Plásticas, em busca de seu sonho de infância em ser um grande artista. Chegando lá, ele vê que a noção de arte é muito, mas muito subjetiva...

O ótimo Max Minghella interpreta o sonhador Jerome, e realiza um trabalho incrível de mudança no comportamento da personagem. Junto a ele, nomes tarimbados como John Malkovich e Angelica Houston.

O que eu pude concluir, ao final do filme, é que não tenho mais paciência para os blockbusters. Não gostei do vencedor do Oscar, nem do ogro e parei de assistir a vários similares ainda nos primeiros minutos ("16 Quadras" foi um deles). Um amigo meu acusou-me de ser ranziza, de não gostar de nada que vejo. Resposta: é porque cansei de fórmulas prontas, câmeras lentas, closes, perseguições, músicas emocionantes etc. Não tenho mais saco para isso. Eu gosto mesmo é de filme independente, assim, que não tem como rotular. É quando a idéia, inclusive, chega a ser melhor que os recursos para contá-la; mas não aquém da realização.

Sacou?

sexta-feira, junho 29, 2007

#34 - Shrek Terceiro (Shrek The Third), de Chris Miller


Os dois primeiros filmes do ogro e do burro são interessantes e divertidos pelo deboche. Estáo lá as piadas auto-referenciais, as tiradas nonsense e aquela avacalhação com os contos de fada e suas intermináveis lições de moral.

Mas este terceiro é chato. Muito chato. As piadas são raras e bem comportadas. O pior é que há um discurso horrível, do tipo "o bem contra o mal", e um montem, mas um monte daquelas intermináveis lições de moral. Trata-se de uma animação piegas, sem ritmo, sem graça.

Não sei se as outras cinco pessoas que estavam na sala de cinema acharam graça. Eu não as ouvi rindo. Ouvi, isso sim, uma velha que falava sozinha, eloqüente como ela só, ficar danada da vida com as atitudes do vilão.

segunda-feira, junho 25, 2007

#33 - Mais estranho que a ficção (Stranger than fiction), de Marc Forster


Chega um momento na vida de um ator em que ele é posto à prova. Precisa fugir do estereótipo, dos maneirismos, da rotina. A vez de Will Ferrell foi com este belo filme aí, "Mais estranho que a ficção". O mesmo que "Brilho eterno de uma mente sem lembrança" fez com Jim Carrey e "Embriagado de amor", com Adam Sandler.

O roteiro é daqueles sensacionais, nonsenses, apaixonantes. Um homem comum, que trabalha como fiscal de imposto de renda, começa a ouvir uma voz que narra a sua rotina. Não demora muito, ele descobre que é o personagem principal de um livro que está sendo escrito. O que parece ser mais uma comédia de Ferrell (e que comédias... o cara é bom) é, na verdade, um daqueles filmes que não tem como generalizar. O comediante dá um show à parte e mostra o quanto é um ator completo.

De quebra, um luxuoso elenco. Emma Thompson, magistral, empresta toda a sua técnica à autora do tal livro. Dustin Hoffman, que cada vez escolhe melhor seus personagens, faz um professor de literatura que tenta ajudar o protagonista a entender o que está acontecendo. Maggie Gyllenhaal faz uma mocinha nem um pouco convencional, com tatuagem no braço e tendências revolucionárias. A trilha sonora é fantástica, com direito a Spoon e The Jam.

E mais: roteiro que é bom tem sempre uns toques criativos. Nesse caso, o sobrenome de todas as personagens são homenagens a grandes matemáticos. Quer mais? Há várias, mas várias referências aos Beatles (fiscal do imposto de renda = Taxman).

Crsie existencial misturada com processo criativo, tudo isso misturado com teorias narrativas. Po, sensacional!

segunda-feira, junho 18, 2007

#32 - Crash, no limite (Crash), de Paul Haggis


Filmes grandes assim, superbadalados e, principalmente, com Sandra Bullock no elenco, eu deixo para ver em casa. Este aí de cima, o tal vencedor do Oscar de melhor filme, estava passando por acaso na TV a cabo. De fato, era um filme para ver em casa.

Haggis tem a manha. Diretor televisivo, se apóia em closes e trilhas sonoras irritantemente comoventes para traçar um perfil de uma sociedade que a gente já está careca de conhecer: os assustados estadunidenses. Partindo sempre dos mesmos pontos, colisões entre carros, diversas histórias e etnias se cruzam e precisam aprender a lidar com a intolerância. O próprio diretor foi vítima de um acidente de carro, daí a idéia de alinhavar a narrativa desta forma.

Algumas cenas são extremamente bem feitas e contundentes, mostrando o que um choque cultural, e não mais automobilístico, pode fazer com o ser humano. Nestas passagens, você até acha que o filme vai decolar. Porém, minutos depois, ele desce a ladeira e se arrasta... Novamente: closes, diálogos com lições de moral e música tristonha. E o filme é assim até o final, quando há o ápice de pieguice televisiva - o que provavelmente fez render a "Crash" o tal Oscar.

Mas eu vi, em uma cena passada dentro de um ônibus, o Danny Trejo sentado lá no fundo, fazendo ponta!

#31 - Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express), de Sidney Lumet


Transportar livros para a telona é tarefa difícil. Os escritores sempre acham que suas obras ficaram aquém do que poderiam render. De certa forma, pode parecer que trata-se de ciúme da obra, de invocação autoral, sei lá. Fato é que Stephen King já andou reclamando, Anne Rice também e talvez assim também fizessem Dumas ou Cervantes, vai saber. Porém, Agatha Christie gostou do trabalho de Sidney Lumet em "Assassinato no Expresso do Oriente".

Lumet foi malandro. Reuniu uma constelação de peso para contar a história sobre a morte de um empresário inescrupuloso a plenos trilhos. Ingrid Bergman, premiada com Oscar de melhor atriz coadjuvante, Lauren Bacall, Sean Connery, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave e grande elenco. De resto, situação típica e deliciosa dos romances de Chritie: todos os suspeitos, muitos deles, ficam presos no vagão onde houve o crime, impedidos de prosseguir viagem, e agora sob investigação comandada pelo simpático detetive Hercule Poirot, interpretado com maestria por Albert Finney.

A abertura do filme é sensacional e apresenta de forma clara as personagens. Porém, o roteiro é enxuto demais para uma história de suspense. Muita ação foi apertada em pouco mais de duas horas de projeção, o que já era de se esperar de uma adaptação literária deste porte.

O bacana, no final das contas, nem é descobrir quem é o assassino, e sim deliciar-se com a atuação de Finney, um Poirot exatamente como eu imaginava ao ler os livros de Agatha Christie.

segunda-feira, junho 04, 2007

#30 - Endless Summer 2, de Bruce Brown


Só faltou mesmo o sol. Surf trip para Búzios, ondas a manhã inteira, bom almoço à tardinha e, como parte da prgramação, um filme à noite, no salão principal da pousada. E, como não podia deixar de ser, afinal, era uma viagem para surfar, o filme escolhido foi "Endless Summer 2". Muito bem escolhido, aliás.

Bruce Brown, diretor, roteirista e surfista é o guru dos documentários de surfe. Pode-se dizer que foi ele quem sacramentou este gênero, com o célebre "Endless Summer" de 1964. Aqui, ele volta para um novo giro pelo mundo, com dois jovens surfistas - um deles, Wingnut, que faz misérias em uma longboard.

O roteiro é cheio de piadas, passagens divertidas e cenas fakes, o que o diferencia de produções em que as surf sessions são intermináveis e, muitas vezes, entediantes. Brown sabe dosar perfeitamente os ingredientes para fazer um filme que agrada não só os surfistas, mas a família toda.

No dia seguinte, mais surfe! E tenho certeza que ninguém mais vai ver o mar da mesma forma.