segunda-feira, junho 25, 2007

#33 - Mais estranho que a ficção (Stranger than fiction), de Marc Forster


Chega um momento na vida de um ator em que ele é posto à prova. Precisa fugir do estereótipo, dos maneirismos, da rotina. A vez de Will Ferrell foi com este belo filme aí, "Mais estranho que a ficção". O mesmo que "Brilho eterno de uma mente sem lembrança" fez com Jim Carrey e "Embriagado de amor", com Adam Sandler.

O roteiro é daqueles sensacionais, nonsenses, apaixonantes. Um homem comum, que trabalha como fiscal de imposto de renda, começa a ouvir uma voz que narra a sua rotina. Não demora muito, ele descobre que é o personagem principal de um livro que está sendo escrito. O que parece ser mais uma comédia de Ferrell (e que comédias... o cara é bom) é, na verdade, um daqueles filmes que não tem como generalizar. O comediante dá um show à parte e mostra o quanto é um ator completo.

De quebra, um luxuoso elenco. Emma Thompson, magistral, empresta toda a sua técnica à autora do tal livro. Dustin Hoffman, que cada vez escolhe melhor seus personagens, faz um professor de literatura que tenta ajudar o protagonista a entender o que está acontecendo. Maggie Gyllenhaal faz uma mocinha nem um pouco convencional, com tatuagem no braço e tendências revolucionárias. A trilha sonora é fantástica, com direito a Spoon e The Jam.

E mais: roteiro que é bom tem sempre uns toques criativos. Nesse caso, o sobrenome de todas as personagens são homenagens a grandes matemáticos. Quer mais? Há várias, mas várias referências aos Beatles (fiscal do imposto de renda = Taxman).

Crsie existencial misturada com processo criativo, tudo isso misturado com teorias narrativas. Po, sensacional!

segunda-feira, junho 18, 2007

#32 - Crash, no limite (Crash), de Paul Haggis


Filmes grandes assim, superbadalados e, principalmente, com Sandra Bullock no elenco, eu deixo para ver em casa. Este aí de cima, o tal vencedor do Oscar de melhor filme, estava passando por acaso na TV a cabo. De fato, era um filme para ver em casa.

Haggis tem a manha. Diretor televisivo, se apóia em closes e trilhas sonoras irritantemente comoventes para traçar um perfil de uma sociedade que a gente já está careca de conhecer: os assustados estadunidenses. Partindo sempre dos mesmos pontos, colisões entre carros, diversas histórias e etnias se cruzam e precisam aprender a lidar com a intolerância. O próprio diretor foi vítima de um acidente de carro, daí a idéia de alinhavar a narrativa desta forma.

Algumas cenas são extremamente bem feitas e contundentes, mostrando o que um choque cultural, e não mais automobilístico, pode fazer com o ser humano. Nestas passagens, você até acha que o filme vai decolar. Porém, minutos depois, ele desce a ladeira e se arrasta... Novamente: closes, diálogos com lições de moral e música tristonha. E o filme é assim até o final, quando há o ápice de pieguice televisiva - o que provavelmente fez render a "Crash" o tal Oscar.

Mas eu vi, em uma cena passada dentro de um ônibus, o Danny Trejo sentado lá no fundo, fazendo ponta!

#31 - Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on the Orient Express), de Sidney Lumet


Transportar livros para a telona é tarefa difícil. Os escritores sempre acham que suas obras ficaram aquém do que poderiam render. De certa forma, pode parecer que trata-se de ciúme da obra, de invocação autoral, sei lá. Fato é que Stephen King já andou reclamando, Anne Rice também e talvez assim também fizessem Dumas ou Cervantes, vai saber. Porém, Agatha Christie gostou do trabalho de Sidney Lumet em "Assassinato no Expresso do Oriente".

Lumet foi malandro. Reuniu uma constelação de peso para contar a história sobre a morte de um empresário inescrupuloso a plenos trilhos. Ingrid Bergman, premiada com Oscar de melhor atriz coadjuvante, Lauren Bacall, Sean Connery, Anthony Perkins, Vanessa Redgrave e grande elenco. De resto, situação típica e deliciosa dos romances de Chritie: todos os suspeitos, muitos deles, ficam presos no vagão onde houve o crime, impedidos de prosseguir viagem, e agora sob investigação comandada pelo simpático detetive Hercule Poirot, interpretado com maestria por Albert Finney.

A abertura do filme é sensacional e apresenta de forma clara as personagens. Porém, o roteiro é enxuto demais para uma história de suspense. Muita ação foi apertada em pouco mais de duas horas de projeção, o que já era de se esperar de uma adaptação literária deste porte.

O bacana, no final das contas, nem é descobrir quem é o assassino, e sim deliciar-se com a atuação de Finney, um Poirot exatamente como eu imaginava ao ler os livros de Agatha Christie.

segunda-feira, junho 04, 2007

#30 - Endless Summer 2, de Bruce Brown


Só faltou mesmo o sol. Surf trip para Búzios, ondas a manhã inteira, bom almoço à tardinha e, como parte da prgramação, um filme à noite, no salão principal da pousada. E, como não podia deixar de ser, afinal, era uma viagem para surfar, o filme escolhido foi "Endless Summer 2". Muito bem escolhido, aliás.

Bruce Brown, diretor, roteirista e surfista é o guru dos documentários de surfe. Pode-se dizer que foi ele quem sacramentou este gênero, com o célebre "Endless Summer" de 1964. Aqui, ele volta para um novo giro pelo mundo, com dois jovens surfistas - um deles, Wingnut, que faz misérias em uma longboard.

O roteiro é cheio de piadas, passagens divertidas e cenas fakes, o que o diferencia de produções em que as surf sessions são intermináveis e, muitas vezes, entediantes. Brown sabe dosar perfeitamente os ingredientes para fazer um filme que agrada não só os surfistas, mas a família toda.

No dia seguinte, mais surfe! E tenho certeza que ninguém mais vai ver o mar da mesma forma.

segunda-feira, maio 28, 2007

#29 - Obrigado por fumar (Thank you for smoking), de Jason Reitman


Um filme sobre a indústria de cigarros em que não há nenhuma cena de fumantes, nem fumaça, nada disso. Pode? E se pode. A falta de baforada em "Obrigado por fumar" é quase proposital. Não se trata de um filme somente sobre a ardilosa indústria do cigarro. É, também, uma ode à retórica a oralidade e ao discurso autorizado.

Aaron Eckhart, o galã de filmes independentes estadounidenses, interpreta com maestria o falastrão Nick Naylor, vice-presidente e porta-voz de uma compnahia que estuda os males que o cigarro provoca nos fumantes. Ele participa de programas de TV, debates políticos e faz lobby segundo os interesses das indústrias de tabaco. A sua vida começa a mudar quando um senador, o excelente William H. Macy, começa uma cruzada contra o fumo.

O filme é bom porque não faz você ficar com raiva de cigarro. Nada disso. A idéia aqui é vibrar com os truques oratórios, quase sofistas, com os quais o protagonista defende sua empresa, mesmo sabendo que está errado. Não podia deixar de ser assim: os diálogos são maravilhosos! Principalmente os que envolvem Naylor e seu filho.

De quebra, Rob Lowe interpretando um representante de atores hollywoodianos, em uma atuação que lhe tomou apenas um dia de trabalho.

sexta-feira, maio 25, 2007

#28 - Às vezes eles voltam (Sometimes they come back), de Tom McLoughlin


Tv a cabo também tem o seu revés. Manhã dessas, de folga, frio pra caramba, zapeio a programação ao acordar e me deparo com um filme que está começando. E de terror/suspense. E havia me esquecido daquela mania que a gente tem, quando o filme não é alugado ou não é no cinema, de vê-lo até o fim, mesmo que não esteja agradando.

E assim é o exemplar aí de cima. Eu já desconfiava nos primeiros cinco minutos de trama, e vim a confirmar logo depois: sim, o filme é baseado em um conto de Stephen King (sempre ele...). E na maioria das vezes, isso não dá certo. Aqui também não deu.

A história é a mesma de vários contos de terror do Stephen King. Um garotinho vê o seu irmão mais velho sendo assassinado pelos valentões da escola que, por sua vez, morrem atingidos por um trem. Logo, como era de se esperar, ele cresce atordoado com essa visão. Um dia, quando o tal garotinho já é adulto, adivinha o que acontece? Sim, eles voltam... Os valentões.

Há várias falhas no roteiro, que deixam buracos enormes no enredo. De repente, pessoas e objetos aparecem na trama, mudam os caminhos e interferem na explicação do sobrenatural. Vira uma mistureba incompreensível, que culmina, obviamente, em um desfecho irritantemente preguiçoso e desconexo.

As atuações são muito fracas. Nem parece que as pessoas estão realmente com medo dos valentões que voltaram.

E, tratando-se de um filme de terror, se elas não estão com medo, você ficaria ao assisti-lo?

#27 - Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa, de Roberto Farias


Tv a cabo tem dessas coisas. Tarde dessas, frio pra caramba, de folga, nada para fazer... e eis que zapeando a programação me deparo com este exemplar do antigo cinema brasileiro. Um clássico que mistura Jovem Guarda, fenícios, mitologia, formações rochosas e até samurais mágicos. Demais!

No roteiro, Roberto, Erasmo e Wanderléia vão atrás de um antigo tesouro guardado pelos fenícios. E aí, até chegarem lá, vão ter que provar que são bons de briga, de música, de volante e de malandragem. Tudo para dar errado. Mas é o Rei, ora bolas!

O filme conta com cenas produzidas em Israel, Portugal e Japão. Uma mega-produção que reunia os artistas que estavam no top das paradas naquela época. Tanto que foi um sucesso de bilheteria.

Imperdíveis são os números musicais, mesmo que você, assim como eu, deteste as músicas de Roberto Carlos. Mas vê-lo cantando "É preciso saber viver", do nada, mais pro final do filme, entre as sinuosas curvas da Avenida Niemeyer, pilotando um conversível, é muito bacana!

Falou, bicho!

terça-feira, abril 10, 2007

#26 - A roda da fortuna (The Hudsucker proxy), Irmãos Coen


Este era o último título que faltava para poder dizer que os irmãos Coen nunca fizeram um filme meia-boca. Como toda unanimidade é burra, e como para toda regra há uma exceção, que a deles seja "O amor custa caro", que nem é ruim. Apenas não é espetacular feito os outros.

Em "Roda da fortuna" há tudo que um bom filme dos Coen deve ter: um bom roteiro, bons atores, bons diálogos, boa direção, boa direção de arte. Enfim, uma série de acertos para contar uma história muito interessante. Tim Robbins, novinho, interpreta Norville Barnes, um recém-formado administrador de empresa que é colocado à frente da presidência das indústrias Hudsucker logo após o suicídio do tal Sr. Hudsucker. Aliás, que cena incrível! Esta e uma outra, mais à frente, que nem vou contar aqui para não estragar o deleite alheio.

As situações insólitas, cômicas e bizarras vão aparecendo na tela, e aí é só alegria. Como é bom ver um filme rigorosamente bem feito, daqueles que não há como rotular, nem para colocar em uma prateleira pré-definida da locadora. É drama, comédia, suspense, ação e mais um pouco.

Destaque para Jennifer Jason Leigh, como a jornalista Amy Archer, vencedora de um Pulitzer que faz questão de lembrá-lo a toda hora, e Bruce Campbell, o cara de "Evil Dead", canastrão da melhor qualidade.

Obrigado, irmãos Coen!

segunda-feira, abril 02, 2007

#25 - Os garotos perdidos (The lost boys), de Joel Schumacher


Joel Schumacher é um dos diretores mais chatos que eu conheço. Dos diversos filmes que ele realizou, apenas dois se salvam. Um deles é "Um dia de fúria", com Michael Douglas. E o outro, é esse aí ao lado, clássico da Sessão da Tarde, ícone de uma geração, "Os garotos perdidos"- revisto agora em DVD duplo, com direito a documentário e making of.

Taí uma mistura que poderia dar errado: Schumacher, jovens e vampiros. Mas deu certo. Em grande parte pelo elenco, que reunia os prediletos da juventude do final dos anos 80: a dupla de moleques Corey (Feldman e Haim), Jason Patrick e o vilão, de sobrancelhas envezadas e cara de mau, Kiefer Sutherland.

O filme é recheado de clichês... mas e daí? É divertido!

A trilha sonora, a caracterização dos vampiros, a locação litorânea com parque de diversões e o clima de suspense valem a pena. E as referências também, entre elas: o cachorro da personagem de Corey Haim, um husky siberiano, que se chama Nanook, homenagem ao primeiro documentário da história do cinema; os irmãos caçadores de vampiros que se chamam Edgar e Allan, em alusão ao escritor Edgar Allan Poe.

Para ser visto e revisto, inclusive para ficar sabendo das curiosidades acerca do filme. Como por exemplo, essa aqui: uma seqüência chegou a ser escrita, mas nunca produzida. Ia se chamar "The lost girls".

#24 - O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia


Tudo por causa de uma bunda. Uma bunda e um olho (esse aí do poster). Estes sãos os pontos de partida para uma viagem ao submundo de "O cheiro do ralo", que mostra exatamente esta vida esgotante que existe, sim, mas a gente prefere ignorar.

O melhor é que a história é contada usando humor. Sarcástico e ácido, mas ainda assim humor. E humor sobre perversão é sempre inusitado, ousado. Aqui, um rapaz que compra produtos de segunda mão precisa contornar um problema no banheiro do trabalho, que provoca um cheiro insuportável. Daí o título do filme. Daí a série de filosofias insólitas e situações esdrúxulas. Você sai do filme repetindo algumas das falas. Por exemplo:


"A vida é dura."

Aliás, o texto, os diálogos e as piadas tortas ao longo do filme são espetaculares. Selton Mello, dos melhores atores brasileiros na atualidade, consegue dar a sua personagem trejeitos extremamente humanos: sinceros e patéticos ao mesmo tempo. O resto do elenco também está perfeito, com tipos dos mais esquisitões.

A fotografia e a direção de arte não ficam para trás. É quase possível sentir o tal cheiro do ralo. É tudo meio amarronzado, cor de azulejo de banheiro público. As quinquilharias de segunda-mão compõem bem o resto do cenário, sublinhando o aspecto solitário e angustiante das pessoas que vendem seus pertences por mixaria, graças à necessidade.

Achei o desfecho do filme um pouco preguiçoso. Fiquei esperando um grandioso final, que não veio. Não tem problema, porque o resto é inteiramente maravilhoso.