
Escrito em 1948 por George Orwell, heteronômio de Eric Blair, 1984 é um livro que continua a impressionar leitores ao redor do mundo. Falo com conhecimento de causa, pois foi uma obra que modificou a minha relação com a literatura e deixou profundas marcas na minha formação intelectual. Foi com grande prazer que revi o filme, também produzido em 1984, ao lado de minha esposa - que há alguns anos também teve uma experiência intensa com o livro.
A história se passa em um futuro apocalíptico, no qual o mundo está dividido em grandes blocos geo-políticos. Winston Smith é um sujeito que trabalha alterando dados e registros jornalísticos nos veículos de comunicação do Partido, uma organização poderosa que controla o território chamado de Oceania. Através de tele-telas, a imagem do líder Grande Irmão (ou Big Brother, termo que caiu na boca dos brasileiros, infelizmente, somente por causa do reality show global) vigia tudo o que acontece. Quando Winston começa a questionar o sistema, interessado pelas ações clandestinas da Resistência, sua vida muda drasticamente.
As semelhanças com os regimes didatoriais que estavam por vir, bem como a teoria de bipolarização do planeta em blocos econômicos, impressionam. Na época em que 1984 foi escrito, no pós-guerra, as televisões domésticas como conhecemos ainda nem existiam. A necessidade de manter a guerra como alegoria para excercer domínio ideológico sobre os indivíduos e para obtenção de lucro ainda é praticada atualmente, principalmente pelos Estados Unidos - justamente o líder do bloco capitalista durante a Guerra Fria. Trata-se, portanto, de uma previsão sombria que em parte tomou vida. John Hurt brilha como o protagonista, ajudado pelo talento de Richard Burton. A trilha sonora original, assinada pelo Eurythmics, pontua bem cenas fortes e inesquecíveis.
Pode-se dizer que, neste caso, o filme é tão bom quanto o livro. Isso porque não tem como objetivo transpor o conteúdo com assombroso detalhismo - até mesmo porque a maioria das produções cinematográficas irrita os leitores-especatodores por não assumir que a estética e a linguagem do cinema requerem uma característica própria. O diretor Michael Radford capricha na direção de arte, nos figurinos e nos atores, que fazem um bom trabalho de reconstrução do imaginário orwelliano. Porém, o seu maior mérito está na maneira livre como conduz a ideia de dominação ideológica típica dos regimes autocráticos. O desfecho para Winston, apesar de diferente do que é contado no livro, permanece forte e emblemático.
É um filmão! Porém, recomendo fortemente ler o livro antes de ver o filme: é uma experiência arrebatadora que poucas obras são capazes de oferecer.
10 comentários:
tenho muito pé atrás com esse filme.
o livro foi o melhor q já li na minha vida. acho muito difícil que eu vá gostar tanto do filme. ainda mais agora que li aí no teu texto sobre um final diferente.
Conheço o livro e o filme de nome, principalmente por causa da tal divisão do mundo em blocos, anunciada algum tempo antes de acontecer. E eu diria que acontecerá novamente, quando os continentes estiverem unidos em blocos, mas isso é só especulação até aqui.
Mas não li e não vi haha.
Comecei a ler o livro duas vezes e parei. Achei um pouco difícil. Mas vou começar de novo e ir até o fim! Daí sim verei o filme.
Abs!
Rapaz, veja o quanto antes Anticristo. Porém, prepare-se: Vai ser uma terapia de casal daquelas!
Filmaço! E tenho que ler este livro!
Ulisses, o filme é muito bem feito! Como escrevi ali, ele assume que é uma adaptação cinematográfica, sem pretensão de copiar a l inguagem narrativa. Porém, o conteúdo permanece intacto! O desfecho nem é tão diferente assim, mas usa algumas alegorias para se adaptar à linguagem cinematográfica. Vale a pena ver!
T1460, o cara era um visionário. Pensar em blocos econômicos, hoje em dia, é uma questão de necessidade, por causa das políticas protecionistas. Recomendo a leitura, cara!
Kau, eu li em dois dias! rs... Fui completamente absorvido pela história. Às vezes o livro não pega, né? Eu nem tento ler um livro mais de uma vez... Mas esse vale a pena!
Denis, se você já viu o filme, vai testemunhar a força das palavras do Orwell.
Abs, galera!
Muito bom. Conheço só o livro. O filme ainda não vi. Mas logo tentarei encontrá-lo.
Abraços!
Ciro, vale a pena! Vou dar a dica: torrent nele! rs...
Abs!
Li o livro e o vi o filme várias vezes. Concordo com você que esse é um caso raro (e feliz) onde a adaptação do livro não fica nada a dever à obra do Orwell. Ele deveria ser mais exibido para que as pessoas pensassem mais sobre as questões que ele aborda. Só gostaria de saber que fim levou a atriz que fez Julia, a mulher por quem Winston se apaixona. Nunca mais a vi.
Célio, como esse é o livro preferido de muita gente, e na maioria das vezes os filmes não chegam aos pés dos livros, tem muita gente que deisiste de ver. Eu acho que essa é uma ótima adaptação justamente por deixar claro, desde o início, que é outra linguagem. Sobre a atriz, também nunca mais vi nada com ela...
Abs!
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