
A brutalidade de um filme nem sempre está na força das imagens. Wim Wenders provou isso há muito tempo, com o espetacular Paris, Texas. As palavras podem ser muito mais dolorosas do que uma agressão. Heitor Dalhia, que prova ser um exímio observador da condição humana com seu terceiro longa, segue pelo mesmo caminho. À deriva é um filme que dói.
O fantástico roteiro, escrito pelo próprio Dalhia, conta a história de uma família que começa a ter o seu núcleo, outrora amarrado pela afetividade, arruinado. Quem observa os desentendimentos dos pais e a aflição dos irmãos, em meio a descobertas sobre si mesma, é Filipa, uma adolescente de 14 anos. Durante as férias na paradisíaca e badalada Búzios da década de 80, ela começa a tentar entender o porquê da traição do pai e como se dão as relações amorosas. Porém, ao longo do filme, à medida em que a trama parece se resolver, muita dor vem à tona.
Dalhia consegue, com muito pouco, montar um belíssimo e perturbador mosaico de sentimentos. Ao invés do deserto do filme de Wenders, aqui ele faz uso do mar como personagem coadjuvante - um interlocutor mudo que versa sobre a dificuldade de se estabelecer diálogos. Estar à deriva é, também, se sentir impotente diante de uma natureza implacável e inelegível. Em um dado momento, o mar é calmo e afável, convidando à brincadeira. Em outro, é bravo e agitado, em tom ameaçador.
Embora as locações sejam simples (basicamente uma casa de veraneio e a praia), a direção oferece farto material para tornar a história visualmente atraente. Os planos são extremamente bem estudados, com tomadas belíssimas. Os atores, também simples, rendem o máximo. Débora Bloch está plena. Laura Neiva enche os olhos do espectador. Vincent Cassel, apesar de em certos momentos dar a impressão de não saber o que está dizendo, enfrenta a barreira da língua e empresta seu carisma ao personagem. De resto, todo o elenco faz um trabalho de alto nível.
Saí do cinema dolorido, extasiado, embasbacado. Um filme forte, intenso, tocante e escandalosamente bem feito.
17 comentários:
Não chegou aqui, infelizmente, pois estou louco pra ver. Parece ser um ótimo filme.
Abs!!!
Parem de falar bem deste filme... é o terceiro blogueiro que elogia... hahahahahahahahahahahaha.
É que eu estou em recuperação, isolado em casa, depois de uma gripe (não necessariamente a "nova" rsrs) e por isso ainda não pude ir ver esta nova aparente pérola de Heitor.
Abs!!
Já estava com vontade de ver esse filme, depois desse texto, então... A expectativa foi pro ALTO!!
Beijos!
É, todos os blogueiros que assistiram gostaram muito - eu, inclusive. O melhor filme nacional do ano até agora, não acha, Dudu?
Concordo com tudo que escreveu, mas as imagens não perdem pras palavras [mas eu entendi o que quis dizer]. A força está mesmo no roteiro, mas a fotografia me deixou de boca aberta. Lindo demais, ainda tenho algumas imagens inalteradas em mente.
[]s!
opaa
esse filme aee nao me atraiu nem um pouco achei o trailer bem fraco
heheh
mas pelo menos tem camile belle...mina linda huashaus
passa la nu blog
abraço
Este aparecerá em breve por aqui! Com certeza, verei!
Estou com vontade de ver esse filme, pelo feeling que as pessoas dizem que ele tem. O filme simplista sempre é muito bom de ser encarado, porque reside nele, os maiores clímax.
http://awardmovies.blogspot.com
Deu maior vontade, mas nessa terra só passa Harry Potter, PQP!
Quero muito ver! Adoro os outros filmes do Heitor Dahlia, mas esse ainda não veio pra Santos. Gostei das comparações com Paris, Texas. É um filme que adoro e agora fiquei com mais vontade de ver esse.
Abraços!
opa, valew pelo toquem em!! huahua, tenhos varios assim aqui, Q crei e dariam belas estampas! eu acho!!
abraço!
Pedro, eu tenho visto que o comentário geral se alinha com o meu. No mínimo você vai achá-lo bom.
Kau, e acho que mais blogueiros vão aparecer falando bem - para seu desespero! Melhoras aí.
Kamila, eu realmente me envolvi com o filme. Deu para perceber, né? rs...
Jeff, sem dúvida: o melhor nacional do ano e arrisco dizer um dos melhores filmes da temporada! Como eu escrevi na resenha, o filme é esteticamente perfeito (fotografia, enquadramentos, edição), mas a força dele, na minha opinião, está mesmo é no argumento.
Airton, dê uma chance! rs...
T1460, e depois passe aqui para dizer o que achou, ok?
Cetreus, bem-vindo por aqui! Vou láem do que você disse em seu comentário: o filme com muito efeito especial e pomposidade, normalmente, esconde falhas de roteiro e direção. Né não? Volte sempre!
Maria, vale descer a serra para um programinha que inclua esse filme, hein! Vale mesmo!
Ciro, o Heitor Dalhia vai consolidando o nome dele como um dos grandes realizadores do cinema brasileiro contemporâneo.
Thiago, eu bem compraria uma! rs...
Obrigado pelos comentários, pessoal! Bjs e abs!
Dudu! Eu vi esse filme e sai falando um monte de palavrão. O filme é lindo, maravilhoso, sensível, perfeito. Ficou óbvio que o Heitor Dhalia se apaixonou perdidamente pela Laura Neiva. rs
Beijos!
Também gostei bastante do filme e me surpreendi muito porque, pelo trailer, imaginei ser um trabalho mais água com açucar e simples do Dhalia. Aí me deparo com aquela câmera na mão e próxima aos personagens, totalmente intensa. Saí maravilhado do cinema!
Fabiola, e quem não se apaixonou pela Laura Neiva? rs... O elenco do filme é muito bom! E que roteiro, hein? Dalhia mandou muito bem. Dos melhores do ano até agora.
Rafael, o argumento é muito simples. Ma sé monstruosamente bem filmado. Também saí maravilhado do cinema!
Bjs e abs!
Como alguém escreveu aí em cima, eu tb não tive o menor interesse em assistir o filme ao ver o trailer. Final de semana passado, meio contrariada assisti, até pq fiquei com vontade de provar algo tão elogiado. E fiquei simplesmente embasbacada e incrédula no que eu estava assistindo!!! Não podia acreditar que o filme era uma cópia mal feita de Chuva de Verão, filme este que tenho em casa e sou apaixonada! Corri para a net para saber se eu estava ficando louca, e pra minha felicidade já estão até considerando plágio! Gostaria de saber sua opnião a respeito?
Valeu!
Beatriz, antes de mais nada, seja bem-vinda por aqui. Eu não vi o filme que você menciona, Chuva de Verão, por isso nem deveria emitir uma opinião sobre isso. Mas andei pesquisando sobre o mesmo no IMDB e percebi, de cara, algumas diferenças. Sim, há semelhanças também: o fato do argumento falar sobre conflitos sob ótica de uma adolescente. Mas eu acho que o filme do Dalhia tem uma sensibilidade que vai um pouco além. Ao que me parece, também, o filme neozelandês em questão se concentra muito na relação da mãe e da filha, quando o do Dalhia a tensão é entre o pai e a filha. Além disso, À Deriva tem um roteiro que vai invertendo aos poucos o ponto de vista do espectador. Mas é aquilo, nunca ouvi falar desse filme que você cita. E, assim como você não se sentiu atraída por À Deriva, confesso que também não me animei nem um pouco para conferir o tal Chuva de Verão... Você que viu os dois, comente aqui sobre essas semelhanças. Bom, é isso. Volte sempre por aqui!
Abs!
Olá Vulgo Dudu.
Pois não se anime mesmo em assitir! Pode acontecer com vc o mesmo que aconteceu comigo, mas inversamente, entende?
Quando postei aqui, foi numa tentativa somente de me certificar se estava tendo alucinações.
Não pretendo me aprofundar em mostrar as semelhanças e diferenças entre os dois filmes, até porque sou bastante leiga nesse assunto. Meu negócio mesmo é ser uma boa espectadora de cinema, apreciar as boas sensações que um filme pode me causar. E quando vi À Deriva, a sensação causada foi de repeteco! Infelizmente.
Obrigada por responder.
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