
No final do romance O Processo, de Kafka, o Sr. K. morre, nas palavras do protagonista, "como um cão". Um cão sem dono, sem casa, sem estrada para seguir adiante. Em mais uma produção caprichada, Beto Brant presenteia o espectador brasileiro com uma história em que o homo sapiens ganha contornos de canis lupus familiaris.
Baseado no livro de Daniel Galera, aclamado como um dos novos talentos da literatura nacional, o roteiro gira em torno do relacionamento entre Ciro, um tradutor culto e cético que não vislumbra um futuro na profissão, e Marcela, uma bela modelo que planeja vôos mais altos. Os dois atores, Júlio Andrade e Tainá Müller - belíssima, diga-se de passagem -, estão em perfeita sintonia, abusando de uma interpretação naturalista bem dirigida e convincente.
Esteticamente, é tudo muito simples. A edição é rápida, precisa, com cortes sucessivos que mais parecem pequenas peças de um enorme quebra-cabeças, completo após os pouco mais de 80 minutos de filme. Ponto para Marçal Aquino, um dos nossos melhores roteiristas em atividade (vide O cheiro do ralo).
O pobre cachorro sem raça definida também está na história, mas apenas como observador. Espécie de ponto de referência para a crueza ociosa e o aparato instintivo de nós, todos nós, animais.
7 comentários:
Estou com o filme em casa, mas fico adiando o dia de conferi-lo. Depois de ler sua resenha fique empolgado. Vou dar a prioridade.
Beto Brant é ótimo!
Todo mundo que eu conheço falava mal do filme. Um dia, de raiva, aluguei. É extraordinário! Aliás, ando cada dia que passa mais otimista com as produções latino-americanas.
Discutir a imprensa?
http://robertoqueiroz.wordpress.com
Dudu, "Cão Sem Dono" foi um dos filmes que eu mais gostei no ano passado. Concordo com tudo que disse a respeito de Tainá Muller e Júlio Andrade.
Ramon, veja-o! É muito bom mesmo!
Contra-regra, é isso mesmo: quando todo mundo fala mal, eu vejo também. Porque como já dizia o Rodrigues, toda a unanimidade é burra!
Kamila, é um filmaço mesmo! E que belos atores. Ou seja, é cinema brasileiro bom para os olhos.
Bjs e abs!
Oi, Dudu! Estou lendo "Até o Dia em que o Cão Morreu". Maravilhoso, daqueles que a gente fica querendo voltar pra continuar a ouvir as histórias dos "novos amigos". Quero saber nada desse filme antes de terminar de ler... :D
Mas sua crítica foi sucinta e precisa! Obrigada!
Cão Sem Dono foi um dos melhores filmes do ano passado e é incrível como o Beto Brant que fez um filme tão urgente como O Invasor, mudou tanto de tom para realizar essa beleza, com uma naturalidade impressionante e apaixonante. Ciro é o verdadeiro cão sem dono da história, com sua crise existencial tomando conta do personagem, mas que chega ao fim e percebe que nem tudo está tão perdido assim.
Tatiana, confesso que fiquei bem interessado pelo livro! Mas há uma pilha deles aqui em casa para ser devorada... rs...
Rafael, o que eu acho muito bacana no filme é a maneira como a história é contada, os artifícios estéticos. É uma jóia do cinema nacional!
Bjs e abs!
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